Fragmentos dispersos, 10
maio 22, 2026
Ser rico. Li certa vez, em um livro sobre a psicologia do dinheiro, uma definição simples de riqueza: fazer o que você quiser, na hora que quiser, com quem quiser. À primeira vista, isso parece algo infantil. É a criança que quer as coisas imediatamente, do jeito que deseja, cercada pelos amigos que escolheu. Talvez, porém, essa seja mesmo a essência da riqueza: o afrouxamento dos limites, ou ao menos seu alargamento; a coincidência entre desejo e gozo; a possibilidade de existir dentro de uma ambiência lúdica, leve, moldada em torno daquilo de que se está “afim”. A riqueza descola o sujeito do trabalho de reprodução da própria vida biológica. Ela o encapsula em atmosferas controladas, organizadas segundo suas preferências e caprichos. Basta observar nossos compatriotas às vésperas de uma grande loteria acumulada: começam imediatamente a divagar sobre o que fariam, sobre como suas vidas mudariam completamente. É quase uma fantasia de ressurreição em vida. Depois do sorteio, contudo, a realidade volta a cair sobre cada adulto como um bloco de concreto. A vida nua, crua e repetitiva reaparece, exigindo novamente que todos abandonem o breve sonho de voltar a ser crianças.
Encontre sua base. Quando cada um de nós encontra seu “pote da sorte” (e aqui não me refiro à loteria) tende a se tornar mais inteiro nas relações cotidianas. Explico. É preciso encontrar algum espaço de sustentação, uma válvula de escape, algo de onde seja possível extrair energia ou sentido suficientes para continuar vivendo sem enlouquecer. Pense, por exemplo, na análise. A terapia pode funcionar como esse lugar de decantação: você deposita ali suas angústias, elabora seus impasses, organiza minimamente o caos interno. Se tudo correr razoavelmente bem, não precisará exigir atenção emocional de desconhecidos nem descarregar reatividade sobre qualquer pessoa ao redor. É isso que estou chamando de “pote da sorte”. Uma metáfora, evidentemente. Mas vale perguntar: qual é o seu? Lembro de uma amiga, também docente, que dizia encontrar isso na dança. Era dali que extraía o mínimo de sentido necessário para atravessar aquilo que, para muitos de nós (para mim, certamente), frequentemente se aproxima de um calvário: a vida acadêmica institucionalizada. A consequência era simples. Ela chegava mais leve ao trabalho porque já não esperava dele aquilo que ele dificilmente poderia oferecer. O trabalho pode fornecer salário, reconhecimento parcial, rotina, alguma estabilidade. Mas raramente entrega sentido para a vida.
A vida é uma impossibilidade coletiva. Essa frase aparece no final de Climax, de Gaspar Noé, e ficou comigo desde a primeira vez que vi o filme. A história acompanha um grupo de dançarinos isolados, intoxicados e progressivamente lançados ao colapso. As situações mais absurdas acontecem: violência, paranoia, morte. Ao final, surge outra frase: “a morte como experiência extraordinária”. Desde então, toda vez que me vejo imerso em grandes aglomerações urbanas, ou simplesmente atravessando as cidades brasileiras em que vivo e circulo, essas ideias retornam. Porque, se você olha ao redor com algum cuidado, é difícil não se espantar diante do absurdo da nossa vida coletiva. Um carro desgovernado sobe na calçada e mata uma pedestre. Ônibus lotados transportam trabalhadores exaustos, indo e vindo para lugares que talvez já não façam sentido nem para eles próprios. Carrões passam carregando pessoas bem vestidas, protegidas por vidros escuros e por certa arrogância silenciosa. Calor, poluição sonora, casas improvisadas, publicidade obscena disputando cada centímetro do espaço urbano. Carrinhos vendendo comida duvidosa. Milhares de pessoas hipnotizadas por pequenas telas luminosas, assistindo a vídeos curtos, ruidosos e descartáveis. A lista poderia continuar indefinidamente. E toda vez que me vejo no meio disso tudo, chego à mesma conclusão: ou tenho síndrome do pânico, ou sou perfeitamente normal – apenas vivendo dentro dessa impossibilidade coletiva.
