Viver e existir
março 3, 2026
Há muitos anos eu acompanhava uma australiana que resgatava morcegos vítimas de acidentes — presos em cercas, enredados em redes, atropelados por carros e outros infortúnios do mundo humano. O que me capturava ali não era apenas a ação da pessoa, que se desdobrava para socorrer os animais, mas também o desfecho da história. Ela narrava tudo: desde o momento em que encontrava o morcego em campo, passando pelos cuidados em casa — curativos, alimentação, às vezes o encaminhamento a um veterinário — até a eventual soltura de volta à natureza. Em alguns casos, porém, aparecia no final da tela a sigla “RIP” (“rest in peace”), indicando que o animal não havia resistido aos ferimentos.
Cheguei a escrever para ela certa vez. Parabenizei-a pelo trabalho de resgate e voluntariado, mas também perguntei por que, sabendo da morte de um entre os milhares de animais que atendia quase diariamente, ainda assim optava por publicar o vídeo e encerrar a história com aquele “RIP”. Lembro-me de que ela respondeu algo simples: fazia isso para testemunhar a existência daquele ser.
Só muito tempo depois fui compreender melhor o sentido dessa resposta. Hoje percebo que certas coisas me sensibilizam profundamente — por exemplo, o anonimato de alguns seres, sua insignificância aparente, a ausência quase completa de testemunhas sobre sua existência e a indiferença cósmica diante de seu destino.
Penso, por exemplo, nas lagartixas que ocasionalmente aparecem dentro de casa. Algumas são tão pequenas que é possível quase pisar nelas sem perceber. Aqui em casa elas surgem de tempos em tempos e, na maioria das vezes, acabam perecendo, seja por desidratação, seja pela falta de alimento. Em um ambiente doméstico, pouco ou nada se pode fazer para alterar esse desfecho.
Hoje mesmo quase pisei em uma. Quando percebi sua presença, dei-me conta da fragilidade daquele corpo: minúsculo, com os olhos ainda mal abertos (ou talvez revelando sinais de desidratação) e um rabinho enrugado, como a manga amassada de uma camisa. Ali estava aquele pequeno animal, incapaz de comunicar qualquer coisa e, ao mesmo tempo, comunicando a brutalidade do real. Esse pequeno ser passou a simbolizar para mim algo que eu chamaria de ontologia da simplicidade.
Uma existência sem contrapartida, sem interação significativa, sem reconhecimento. Outros animais mais complexos (excluindo aqui o ser humano) vivem em coletividades organizadas, com redes densas de interdependência. Pensemos nas formigas, por exemplo. Muitos seres participam de mundos compartilhados, estruturados por relações, trocas e cooperação.
Mas há também vidas que parecem existir quase inteiramente sozinhas — talvez muitos insetos, talvez pequenos répteis domésticos como essas lagartixas. A lagartixa doméstica, com algo como uns cinco centímetros de comprimento, quase translúcida, dependente de uma minúscula poça de água para se hidratar ou de pequenos insetos para se alimentar, está simplesmente ali: lançada na vida. A esmagadora maioria desses animais nasce já sob a probabilidade de perecer rapidamente. E perece sem testemunha.
Elas não disputam nada, não performam nada, não reivindicam lugar algum. Apenas se movem pela casa, muitas vezes de forma errática, como se ainda não soubessem exatamente o que fazer. O instinto existe, sem dúvida, mas parece lento, impreciso. Com fome, mas sem capacidade de luta, ficam paradas ou se deslocam pelas partes mais úmidas da casa, talvez em busca de água, talvez apenas reagindo a estímulos mínimos. Até que, silenciosamente, a morte chega. Assim como surgiram, desaparecem. O organismo vai cessando pouco a pouco, sistema após sistema, até que nada mais reste. E ali ficam. Trata-se de uma espécie de desamparo sem contrapartida simbólica.
Claro que essa interpretação parte de um humano, capaz de pensar, projetar cenários e produzir significação. Ainda assim, essa imagem me faz lembrar de algo que o filósofo Peter Sloterdijk discute em Esferas III — Espumas. Segundo ele, os seres humanos vivem sustentados por instalações simbólicas — redes de sentido, narrativas, instituições e vínculos que funcionam como atmosferas de levitação existencial.
Sem essas estruturas, caímos novamente ao chão. Perdemos a posição vertical, mas não no sentido físico, e sim no sentido simbólico. Deixamos de ser sustentados por significados compartilhados. Nessa situação, passamos a habitar um mundo que não é muito diferente daquele da pequena lagartixa. Um mundo em que já não sabemos o que nos move, no qual caímos numa zona de indiferença e solidão sem testemunha, mantidos vivos apenas pela persistência quase automática do corpo biológico.
E é claro que a potência de um ser humano não se compara à clausura existencial de um pequeno réptil. Ainda assim, tenho a intuição de que existe algo estruturalmente semelhante no ponto de partida: nascer não significa, automaticamente, habitar o mundo. O mundo já estava aí muito antes de nós.
Para que possamos realmente viver, precisamos construir ao nosso redor uma espécie de microambiente simbólico — uma pequena atmosfera habitável. Um mundo que seja, de algum modo, nosso mundo. Essa atmosfera nunca é completamente fechada: ela é interconectada e porosa, sempre em comunicação com outras atmosferas humanas.
“Existir”, portanto, não é suficiente para estar vivo.
Quando, por alguma razão, a vida se torna maior do que a existência, quando continuamos biologicamente vivos, mas perdemos as estruturas simbólicas que nos sustentam, sentimos na pele algo próximo da crueza do mundo. Não no sentido moral de crueldade, mas no sentido etimológico da palavra: aquilo que é cru, não mediado, não elaborado. Dar-se conta de que se está vivo, mas sem projeto, sem sustentação simbólica que nos permita levitar sobre a terra — e aqui não falo de descolamento pura e simples, mas da suspensão produzida pelas redes de sentido do mundo humano — não é uma experiência confortável.
Talvez seja suportável para um budista, para quem tudo se concentra no momento presente, na respiração, numa integração quase oceânica com o cosmos. Para o restante de nós, porém, suspeito que não seja uma sensação particularmente agradável. Pois, ao contrário da pequena lagartixa, e devido aos processos civilizacionais que acompanharam a emergência da modernidade, somos continuamente convocados a nos justificar, a nos explicar, a nos reenunciar diante dos outros e, sobretudo, diante de nós mesmos. Ou, como diria novamente Sloterdijk, estamos presos numa teia de mobilização infinita.
