Experimentos mentais, 6 – Ela

Acordou para mais um dia comum. Havia passado a noite aconchegada a seus irmãos, irmãs e outros membros de seu grupo. Fora uma noite tranquila e fria, mas de lindo luar, e o calor repassado de corpo a corpo a aquecera. Havia, dentro dela, dois novos cervos em gestação. Sim, estava grávida. Não sabia disso, mas sentia algumas pequenas mudanças em seu corpo, especialmente uma fome maior. O silêncio das árvores que os abrigavam caía como uma manta que a tudo absorvia. De tempos em tempos, um vento delicado brincava com as folhas ao redor. Dormiu quase a noite toda com o focinho enfiado entre as cabeças cruzadas. A manhã foi chegando devagar. Primeiro, uma lâmina de um laranja muito claro, quase ingênuo, atravessou galhos e troncos até, sem querer, atingir o topo de sua cabeça. Ao fazê-lo, mesclou-se ao alaranjado de seu pelo. Funcionou como um interruptor, não apenas para ela, mas também para o restante do grupo, que começou a se desfazer quando um esticou as pernas e empurrou outro, que levantou a cabeça e soltou um pequeno berro. Sem pressa, seus irmãos e companheiros foram se levantando, desfazendo pouco a pouco o agrupamento compacto de pelagens, como um grande algodão-doce desfiado pelas mãos de uma criança serena. Ela foi uma das últimas a se levantar. A essa altura, as frestas solares já eram mais amplas e generosas, iluminando o chão nevado da floresta. Alguns passos adiante, alcançou a trilha que haviam descoberto dias antes, formada por muitos e muitos cascos como os dela — centenas de outros cervos que eram como sentinelas daquela floresta remota. Sentinelas que não vigiavam nada. Eram como partes móveis da floresta, não se distinguindo desta exceto por características como essas: seres vivos andando, buscando comida, interagindo e vivendo. Ela continuou pelo estreito fio de terra, penúltima na fila que já se formara e se movia. Balançou as orelhas, e seus olhos grandes e ovalados refletiram as luzes do dia. Tinha um focinho preto que combinava com as quatro patas, também pretas; a parte interna de suas pernas formava um contraste branco com o restante do corpo. Meio sonolenta, meio desperta, viu-se diante de uma bifurcação. De um lado, a floresta permanecia cerrada, formada por árvores de tronco fino e galhos e folhas abundantes. Na outra direção, havia um campo aberto, onde a grama estava disponível: comida fácil e garantida. Estranhamente, ou não, nenhum de seus companheiros seguiu naquela direção – preferiram o outro lado da bifurcação, que levava a um pequeno lago congelado e a mais árvores e galhos. Ela seguiu em uma marcha lenta até a borda que separava a floresta cerrada do campo aberto. Não havia ninguém ali. Abaixou a cabeça e começou, sem cerimônia, a raspar a grama com os dentes. Estava fria, um pouco rígida pela geada, mas comível – já estava habituada àquilo. No meio da refeição, ainda com a cabeça abaixada, escutou um estalo vindo de algum lugar. Instintivamente, correu pela trilha de volta, protegendo-se entre as folhas, e ficou ali por algum tempo, apenas observando. Sua tranquilidade fora perturbada por um lance de apreensão que, no caso dela, significava pupilas dilatadas, coração disparado e movimentos específicos das duas orelhas, que giravam como pequenas antenas. Nesse estado, a floresta e o entorno se destacaram como objetos de percepção, pois, antes disso, ela era uma coisa só com o ambiente. Aos poucos, porém, o silêncio voltou a imperar. Sentindo-se novamente segura, voltou, relutante e lenta, para a borda da floresta. Olhou para todos os lados. Não viu nem escutou nada. Tornou a abaixar a cabeça e a comer a grama. O coração foi cedendo progressivamente até retornar à sua linha de base. Novamente sozinha, e já inteira no campo de visão de um olho à distância, seguiu o curso de sua natureza. O céu já estava claro, mas filtrado pela neblina da manhã ainda se desfazendo. Quando inclinou a cabeça para alcançar um novo tufo de grama, sentiu uma pancada descomunal na cabeça – um golpe metálico e lancinante, em uma fração de segundos. Soltou um berro agoniado, reflexo automático dos órgãos internos. Nesse berro, saiu sua última troca gasosa com o mundo. A bala, chumbo retirado da mesma terra sobre a qual ela pisava, fora forjada num lugar muito distante dali, dentro de um forno enorme. Depois, fora transportada por navio e por vários caminhões até chegar às mãos de um par de olhos, que a guardou; depois, foi transferida para outro par de olhos em troca de um pedaço de papel; então foi colocada num bolso, no porta-luvas de um carro, no armário de uma cozinha e, finalmente, no cano de uma arma. O par de olhos contemplava o mesmo campo aberto que ela. Respiravam o mesmo ar. Mas ele tinha pensamentos, estratégia, tática e, eventualmente, um propósito. Naquele encontro impessoal, frio e distante, a cabeça em que estava aquele par de olhos tinha uma única finalidade: mover o pedaço de metal que segurava até um ângulo que se alinhasse à cabeça dela. Seus olhos, os filhos em gestação, o caminho que a levara até ali, o calor trocado com os irmãos durante a noite: tudo se tornou nulo quando o estalo opaco e industrial da arma e da bala se encontrou com o ruído final de seus pulmões. O silêncio caiu mais uma vez, e o solo se empapou de sangue ainda quente.

Abbas Kiarostami, 24 Frames - The Culturium

Cena do filme 24 Frames, de Abbas Kiarostami
Photograph: © CG Cinema & Kiarostami Foundation
(fonte)


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