O crivo da estética absoluta

Para pensar sobre si, é necessário ser poético, bem dotado intelectualmente, gênio? A dúvida é prática: pense em poetas e grandes escritores. Ou em escritores de um modo geral, nem precisam ser os clássicos. Eles decerto escreviam porque tinham uma raiz que descia fundo na terra em busca de água e minerais, ou tinham uma vasta folhagem que embelezava sua árvore. Pode ser que fossem ambos. Porém, humanos como nós, deviam ter dúvidas, angústias, até mesmo desespero, ou curiosidade, desejo, vontade de explorar o mundo simbólico.

Quem não dispõe de talento (e vou usar a palavra deliberadamente) o que faz com as mesmas e humanas dúvidas, incertezas, medos, angústias e com o desespero, ou com a alegria, a vontade de explorar ideias, o prazer de sublimar a lama interior e a habilidade de transformá-la em escultura a ser apresentada na arena do outro? Como essa pessoa “comum” toma a si própria, extrai os minerais e a água de seu solo existencial e os lança ao ar, para cima, ao mundo?

O vocabulário que uma pessoa tem para elaborar a si própria talvez não venha dela, não no sentido de algo eminentemente privado: ela o reelabora a partir do que obteve “de fora”. Mas o nível dessa elaboração é prova de quê, exatamente? Talento eu já usei acima. Mas, para quem “não tem talento” (por isso eu disse que usaria a palavra propositalmente, para tensionar isso), resta pensar, falar e articular de que forma? E se essa pessoa não fizer muita coisa com tudo o que lhe ocorre? E se ela se grudar a alguma narrativa coletiva (religiosa, política, histórica etc.) e mal conseguir articular alguma singularidade, sem sequer ter a noção disso?

É realmente uma dúvida legítima que eu tenho, uma que inclusive me deixa ambivalente em relação às coisas que eu mesmo escrevo neste espaço. Se não há “literatura” no que está aqui escrito, e eu de fato não acho que haja, então esse material tem qual qualidade ou finalidade?

Nietzsche disse em algum lugar que deveríamos ver ou tratar nossa vida como uma obra de arte. Pense nisso: uma obra de arte!

Falando sobre outra coisa, Dostoiévski uma vez escreveu sobre aquilo que, na opinião dele, seria o inferno: ser incapaz de amar. Eu já diria que o inferno é você ter um turbilhão dentro de si, disforme, esfomeado, um mar de água (ou o fantasma de muita água), ou um animal predador, e não conseguir achar a caça, não conseguir conduzir essa água, fazer algo com ela de útil do ponto de vista psíquico, pois, por alguma razão, realmente “falta” essa “capacidade”, ou você a idealiza a ponto de tudo te paralisar.

Obra de arte: ou é uma obra-prima, ou não será nada? É como se uma cópia vendida na praia, feita por algum “amador” e custando 15 reais, não fosse real, fosse, na verdade, uma impostura (algo que existe, degradado, no lugar de outro algo superior/original). E aí, paradoxalmente, em vez de surgir o silêncio, o turbilhão interno fica ainda pior: a cobrança para deixá-lo passar se torna cada vez mais inatingível e, como resultado, propaga-se uma sensação de irrealidade por todos os lados. O preço desse sistema é paradoxal: há um recuo do “tudo” para o “nada”, pois o nada é, na verdade, prenhe de tudo.

Experimentos mentais, 7 – A pedra

Muitos bilhões de anos atrás. Atrás é um advérbio. Bilhões é um número. Sem pensar na Terra, houve matéria. Os planetas do sistema solar se formaram. Durante essa formação, trilhões de objetos constituídos no disco de gás e poeira foram arremessados para longe pelas forças gravitacionais dos planetas, especialmente dos maiores. A matéria era formada por rocha e gelo. Trilhões desses objetos foram sendo puxados. Jogados. Chacoalhados. Com o tempo (?), ou seja, com o movimento, formaram uma espécie de cardume de peixes. Cardume é uma metáfora. Nuvem de Oort. Um belo nome, dado por humanos. Na prática, trilhões de objetos orbitando no quase nada ao redor do Sol. Corpos pequenos e grandes. Massa. Velocidades imensas. De algum modo (esse modo é conhecido), tudo estava assim, em movimento governado pelas forças gravitacionais, que, como aprendemos aqui na Terra, pode prosseguir indefinidamente. Eternidade é um substantivo. O que quer dizer? Sem mudança? A manutenção de determinado estado de coisas, de um corpo, de forças? Seja como for, trilhões de objetos, pedaços de tamanhos distintos, uns pequenos, outros imensos, estavam todos flutuando nessa irmandade de excluídos. Antropomorfização, essa característica humana, um truque de linguagem. Mas a galáxia é viva. Galáxia viva, meu Deus, mais uma figura de linguagem. Viva quer dizer que ela pode, sim, exercer força sobre os objetos, os corpos celestiais, inclusive os “dejetos” de um grande esquema aleatório de formação planetária. Aleatório é um termo da estatística. Será que ele descreve realmente o que se passou? Provavelmente não. Mas vamos seguir com as metáforas e palavras. A galáxia, melhor dizendo, a maré da galáxia (desta vez, “maré” também é um termo técnico), ou uma estrela passando por “perto” do cardume de objetos frios, de modo geométrico, ou seja, por eventual disposição entre os corpos e as forças, expulsa um desses objetos do cardume. Dá-lhe um chute. Quantas coisas não podemos colocar nessa imagem, não? Dar um chute. Receber um chute. Um chute é só a aplicação de uma força a partir de duas matérias que calham de interagir entre si. Nem precisam se tocar. A gravidade dispensa contato. Então, com um chute, o objeto é mais uma vez expulso do cardume, da Nuvem, do agregado. Milhões de anos, talvez bilhões de anos. Será que, se você aumentar a janela do tempo, não aumenta também a probabilidade de acontecimentos? A quantidade de oportunidades para que ocorram combinações improváveis de forças e geometria, formas e encontros de formas, tende a aumentar com o tempo. Por milhões, ou bilhões, de anos esse objeto solitário vagou. Aqui a antropomorfização é espetacular, pois logo nos identificamos com esse “lobo solitário”, vagando sozinho pelo sistema solar, como se um pedaço de pedra ou gelo pudesse “pensar”. Mas é reconfortante para nós imaginar que sim. Isso, de alguma maneira, nos vincula a esse ser, digo, a essa matéria (“ser” talvez seja por demais humano). Esse “existente”, essa extensão. Tinha algo como 10 km de tamanho. O que é isso perante a galáxia? Ah, o famoso ponto de referência. Vagando, vagando, indo, ou vindo, não importa. O espaço, com sua vastidão, também dá muita oportunidade para se vagar, se afastar, melhor, simplesmente seguir sob o efeito da força que, lembra?, chutou “nosso amigo”. “Seguir” também já concede a esse existente alguma vontade. Uma queda pela eternidade. Como a linguagem cria intimidade do nada, não é mesmo? Que intimidade. Na verdade, que impostura a minha, tratar esse corpo celestial?, esse objeto?, essa pedra?, como um “amigo”, como um “chapa”. Brasileiros fazem isso quando querem criar uma amizade rápida e oportuna com alguém. Resgatamos, só pela linguagem e por um par ou outro de expressões faciais, corporais, um anônimo e o transformamos em um “chapa”. Isso nos dá uma sensação de que temos poder, não é? Então temos a vastidão do tempo, a vastidão do espaço e forças. E velocidade. Sabemos, desde o primário, que nossa Terra gira em torno de si mesma. Parece que a quase 1.700 km/h, no equador. Também orbita ao redor do Sol a mais de 100.000 km/h. E também é carregada pelo sistema solar, em órbita (uma menção geométrica!), ao redor do centro da galáxia, a mais ou menos 800.000 km/h. Como uma boneca russa, isso não ficaria só nisso. Não aqui. Lá embaixo, os números sempre significam alguma coisa. Mas talvez seja muito pedante ficar colocando mais números. Números. Nós, humanos, adoramos números. Tudo em nossa vida parece passar por números. O mestre dos mestres dos números é o dinheiro. Quanto maior o número (de dinheiro), maior a quantidade de objetos, inclusive pedras (“joias”), à nossa disposição. Somos tentados a colocar números na galáxia. E ali eles são generosos. Mas ajudam, ajudam a configurar o cenário para “nossa” rocha de 10 km, solitária, simplesmente seguindo seu conatus (aha, filosofia agora foi boa, mas me ocorreu de modo inevitável). A vastidão do tempo, do espaço e… da velocidade. E geometria. O pequeno “detalhe” é que essa Terra giratória estava no apogeu da vida. Os dinossauros estavam por aqui. Haviam surgido milhões de anos após uma extinção em massa que eliminara cerca de 90% das espécies então existentes — e levariam ainda mais milhões de anos de insignificância antes de se tornar, enfim, as majestosas fênix do planeta. Uma biomassa imensa. Dentes, escamas, asas, cores exóticas, mandíbulas, bracinhos pequenos, penugens carnavalescas, olhos imensos, pescoços quilométricos. Um mar de exagero, abundância, volume. Palavras, mais palavras. Eram matéria, átomos. Reunidos ao longo de milhões e milhões de anos, em uma paciente Terra, generosa, indiferente. Geometria, de novo, massa e velocidade. Tente acertar um objeto que se movimenta em diversos planos ao mesmo tempo, em velocidades imensas e em trajetórias sobrepostas, mas não idênticas. “Acertar”: mais uma palavra humana. Não havia pontaria. Não havia atirador. Não havia sequer um alvo. Mas lembre-se: estamos na vastidão do tempo e do espaço, um plano perfeito para eventos improváveis. É quando “nossa” pedra, nosso anjo caído, expelido e solitário, no exercício de seu ser-no-espaço, encontra a Terra e, em dois ou três segundos, encerra sua queda de bilhões de anos.

Cena do documentário What exactly killed the Dinosaurs? Earth. BBC Earth Science
Fonte aqui

Experimentos mentais, 6 – Ela

Acordou para mais um dia comum. Havia passado a noite aconchegada a seus irmãos, irmãs e outros membros de seu grupo. Fora uma noite tranquila e fria, mas de lindo luar, e o calor repassado de corpo a corpo a aquecera. Havia, dentro dela, dois novos cervos em gestação. Sim, estava grávida. Não sabia disso, mas sentia algumas pequenas mudanças em seu corpo, especialmente uma fome maior. O silêncio das árvores que os abrigavam caía como uma manta que a tudo absorvia. De tempos em tempos, um vento delicado brincava com as folhas ao redor. Dormiu quase a noite toda com o focinho enfiado entre as cabeças cruzadas. A manhã foi chegando devagar. Primeiro, uma lâmina de um laranja muito claro, quase ingênuo, atravessou galhos e troncos até, sem querer, atingir o topo de sua cabeça. Ao fazê-lo, mesclou-se ao alaranjado de seu pelo. Funcionou como um interruptor, não apenas para ela, mas também para o restante do grupo, que começou a se desfazer quando um esticou as pernas e empurrou outro, que levantou a cabeça e soltou um pequeno berro. Sem pressa, seus irmãos e companheiros foram se levantando, desfazendo pouco a pouco o agrupamento compacto de pelagens, como um grande algodão-doce desfiado pelas mãos de uma criança serena. Ela foi uma das últimas a se levantar. A essa altura, as frestas solares já eram mais amplas e generosas, iluminando o chão nevado da floresta. Alguns passos adiante, alcançou a trilha que haviam descoberto dias antes, formada por muitos e muitos cascos como os dela — centenas de outros cervos que eram como sentinelas daquela floresta remota. Sentinelas que não vigiavam nada. Eram como partes móveis da floresta, não se distinguindo desta exceto por características como essas: seres vivos andando, buscando comida, interagindo e vivendo. Ela continuou pelo estreito fio de terra, penúltima na fila que já se formara e se movia. Balançou as orelhas, e seus olhos grandes e ovalados refletiram as luzes do dia. Tinha um focinho preto que combinava com as quatro patas, também pretas; a parte interna de suas pernas formava um contraste branco com o restante do corpo. Meio sonolenta, meio desperta, viu-se diante de uma bifurcação. De um lado, a floresta permanecia cerrada, formada por árvores de tronco fino e galhos e folhas abundantes. Na outra direção, havia um campo aberto, onde a grama estava disponível: comida fácil e garantida. Estranhamente, ou não, nenhum de seus companheiros seguiu naquela direção – preferiram o outro lado da bifurcação, que levava a um pequeno lago congelado e a mais árvores e galhos. Ela seguiu em uma marcha lenta até a borda que separava a floresta cerrada do campo aberto. Não havia ninguém ali. Abaixou a cabeça e começou, sem cerimônia, a raspar a grama com os dentes. Estava fria, um pouco rígida pela geada, mas comível – já estava habituada àquilo. No meio da refeição, ainda com a cabeça abaixada, escutou um estalo vindo de algum lugar. Instintivamente, correu pela trilha de volta, protegendo-se entre as folhas, e ficou ali por algum tempo, apenas observando. Sua tranquilidade fora perturbada por um lance de apreensão que, no caso dela, significava pupilas dilatadas, coração disparado e movimentos específicos das duas orelhas, que giravam como pequenas antenas. Nesse estado, a floresta e o entorno se destacaram como objetos de percepção, pois, antes disso, ela era uma coisa só com o ambiente. Aos poucos, porém, o silêncio voltou a imperar. Sentindo-se novamente segura, voltou, relutante e lenta, para a borda da floresta. Olhou para todos os lados. Não viu nem escutou nada. Tornou a abaixar a cabeça e a comer a grama. O coração foi cedendo progressivamente até retornar à sua linha de base. Novamente sozinha, e já inteira no campo de visão de um olho à distância, seguiu o curso de sua natureza. O céu já estava claro, mas filtrado pela neblina da manhã ainda se desfazendo. Quando inclinou a cabeça para alcançar um novo tufo de grama, sentiu uma pancada descomunal na cabeça – um golpe metálico e lancinante, em uma fração de segundos. Soltou um berro agoniado, reflexo automático dos órgãos internos. Nesse berro, saiu sua última troca gasosa com o mundo. A bala, chumbo retirado da mesma terra sobre a qual ela pisava, fora forjada num lugar muito distante dali, dentro de um forno enorme. Depois, fora transportada por navio e por vários caminhões até chegar às mãos de um par de olhos, que a guardou; depois, foi transferida para outro par de olhos em troca de um pedaço de papel; então foi colocada num bolso, no porta-luvas de um carro, no armário de uma cozinha e, finalmente, no cano de uma arma. O par de olhos contemplava o mesmo campo aberto que ela. Respiravam o mesmo ar. Mas ele tinha pensamentos, estratégia, tática e, eventualmente, um propósito. Naquele encontro impessoal, frio e distante, a cabeça em que estava aquele par de olhos tinha uma única finalidade: mover o pedaço de metal que segurava até um ângulo que se alinhasse à cabeça dela. Seus olhos, os filhos em gestação, o caminho que a levara até ali, o calor trocado com os irmãos durante a noite: tudo se tornou nulo quando o estalo opaco e industrial da arma e da bala se encontrou com o ruído final de seus pulmões. O silêncio caiu mais uma vez, e o solo se empapou de sangue ainda quente.

Abbas Kiarostami, 24 Frames - The Culturium

Cena do filme 24 Frames, de Abbas Kiarostami
Photograph: © CG Cinema & Kiarostami Foundation
(fonte)

Fragmentos dispersos, 10

Ser rico. Li certa vez, em um livro sobre a psicologia do dinheiro, uma definição simples de riqueza: fazer o que você quiser, na hora que quiser, com quem quiser. À primeira vista, isso parece algo infantil. É a criança que quer as coisas imediatamente, do jeito que deseja, cercada pelos amigos que escolheu. Talvez, porém, essa seja mesmo a essência da riqueza: o afrouxamento dos limites, ou ao menos seu alargamento; a coincidência entre desejo e gozo; a possibilidade de existir dentro de uma ambiência lúdica, leve, moldada em torno daquilo de que se está “afim”. A riqueza descola o sujeito do trabalho de reprodução da própria vida biológica. Ela o encapsula em atmosferas controladas, organizadas segundo suas preferências e caprichos (em linha do que discute Peter Sloterdijk). Basta observar nossos compatriotas às vésperas de uma grande loteria acumulada: começam imediatamente a divagar sobre o que fariam, sobre como suas vidas mudariam completamente. É quase uma fantasia de ressurreição em vida. Depois do sorteio, contudo, a realidade volta a cair sobre cada adulto como um bloco de concreto. A vida nua, crua e repetitiva reaparece, exigindo novamente que todos abandonem o breve sonho de voltar a ser crianças.

Encontre sua base. Quando cada um de nós encontra seu “pote da sorte” (e aqui não me refiro à loteria) tende a se tornar mais inteiro nas relações cotidianas. Explico. É preciso encontrar algum espaço de sustentação, uma válvula de escape, algo de onde seja possível extrair energia ou sentido suficientes para continuar vivendo sem enlouquecer. Pense, por exemplo, na análise. A terapia pode funcionar como esse lugar de decantação: você deposita ali suas angústias, elabora seus impasses, organiza minimamente o caos interno. Se tudo correr razoavelmente bem, não precisará exigir atenção emocional de desconhecidos nem descarregar reatividade sobre qualquer pessoa ao redor. É isso que estou chamando de “pote da sorte”. Uma metáfora, evidentemente. Mas vale perguntar: qual é o seu? Lembro de uma amiga, também docente, que dizia encontrar isso na dança. Era dali que extraía o mínimo de sentido necessário para atravessar aquilo que, para muitos de nós (para mim, certamente), frequentemente se aproxima de um calvário: a vida acadêmica institucionalizada. A consequência era simples. Ela chegava mais leve ao trabalho porque já não esperava dele aquilo que ele dificilmente poderia oferecer. O trabalho pode fornecer salário, reconhecimento parcial, rotina, alguma estabilidade. Mas raramente entrega sentido para a vida.

A vida é uma impossibilidade coletiva. Essa frase aparece no final de Climax, de Gaspar Noé, e ficou comigo desde a primeira vez que vi o filme. A história acompanha um grupo de dançarinos isolados, intoxicados e progressivamente lançados ao colapso. As situações mais absurdas acontecem: violência, paranoia, morte. Ao final, surge outra frase: “a morte como experiência extraordinária”. Desde então, toda vez que me vejo imerso em grandes aglomerações urbanas, ou simplesmente atravessando as cidades brasileiras em que vivo e circulo, essas ideias retornam. Porque, se você olha ao redor com algum cuidado, é difícil não se espantar diante do absurdo da nossa vida coletiva. Um carro desgovernado sobe na calçada e mata uma pedestre. Ônibus lotados transportam trabalhadores exaustos, indo e vindo para lugares que talvez já não façam sentido nem para eles próprios. Carrões passam carregando pessoas bem vestidas, protegidas por vidros escuros e por certa arrogância silenciosa. Calor, poluição sonora, casas improvisadas, publicidade obscena disputando cada centímetro do espaço urbano. Carrinhos vendendo comida duvidosa. Milhares de pessoas hipnotizadas por pequenas telas luminosas, assistindo a vídeos curtos, ruidosos e descartáveis. A lista poderia continuar indefinidamente. E toda vez que me vejo no meio disso tudo, chego à mesma conclusão: ou tenho síndrome do pânico, ou sou perfeitamente normal – apenas vivendo dentro dessa impossibilidade coletiva.

Viver e existir

Há muitos anos eu acompanhava uma australiana que resgatava morcegos vítimas de acidentes — presos em cercas, enredados em redes, atropelados por carros e outros infortúnios do mundo humano. O que me capturava ali não era apenas a ação da pessoa, que se desdobrava para socorrer os animais, mas também o desfecho da história. Ela narrava tudo: desde o momento em que encontrava o morcego em campo, passando pelos cuidados em casa (curativos, alimentação, às vezes o encaminhamento a um veterinário) até a eventual soltura de volta à natureza. Em alguns casos, porém, aparecia no final da tela a sigla “RIP” (“rest in peace”), indicando que o animal não havia resistido aos ferimentos.

Cheguei a escrever para ela certa vez. Parabenizei-a pelo trabalho de resgate e voluntariado, mas também perguntei por que, sabendo da morte de um entre os milhares de animais que atendia quase diariamente, ainda assim optava por publicar o vídeo e encerrar a história com aquele “RIP”. Lembro-me de que ela respondeu algo simples: fazia isso para testemunhar a existência daquele ser.

Só muito tempo depois fui compreender melhor o sentido dessa resposta. Hoje percebo que certas coisas me sensibilizam profundamente — por exemplo, o anonimato de alguns seres, sua insignificância aparente, a ausência quase completa de testemunhas sobre sua existência e a indiferença cósmica diante de seu destino.

Penso, por exemplo, nas lagartixas que ocasionalmente aparecem dentro de casa. Algumas são tão pequenas que é possível quase pisar nelas sem perceber. Aqui em casa elas surgem de tempos em tempos e, na maioria das vezes, acabam perecendo, seja por desidratação, seja pela falta de alimento. Em um ambiente doméstico, pouco ou nada se pode fazer para alterar esse desfecho.

Hoje mesmo quase pisei em uma. Quando percebi sua presença, dei-me conta da fragilidade daquele corpo: minúsculo, com os olhos ainda mal abertos (ou talvez revelando sinais de desidratação) e um rabinho enrugado, como a manga amassada de uma camisa. Ali estava aquele pequeno animal, incapaz de comunicar qualquer coisa e, ao mesmo tempo, comunicando a brutalidade do real. Esse pequeno ser passou a simbolizar para mim algo que eu chamaria de ontologia da simplicidade.

Uma existência sem contrapartida, sem interação significativa, sem reconhecimento. Outros animais mais complexos (excluindo aqui o ser humano) vivem em coletividades organizadas, com redes densas de interdependência. Pensemos nas formigas, por exemplo. Muitos seres participam de mundos compartilhados, estruturados por relações, trocas e cooperação.

Mas há também vidas que parecem existir quase inteiramente sozinhas — talvez muitos insetos, talvez pequenos répteis domésticos como essas lagartixas. A lagartixa doméstica, com algo como uns cinco centímetros de comprimento, quase translúcida, dependente de uma minúscula poça de água para se hidratar ou de pequenos insetos para se alimentar, está simplesmente ali: lançada na vida. A esmagadora maioria desses animais nasce já sob a probabilidade de perecer rapidamente. E perece sem testemunha.

Elas não disputam nada, não performam nada, não reivindicam lugar algum. Apenas se movem pela casa, muitas vezes de forma errática, como se ainda não soubessem exatamente o que fazer. O instinto existe, sem dúvida, mas parece lento, impreciso. Com fome, mas sem capacidade de luta, ficam paradas ou se deslocam pelas partes mais úmidas da casa, talvez em busca de água, talvez apenas reagindo a estímulos mínimos. Até que, silenciosamente, a morte chega. Assim como surgiram, desaparecem. O organismo vai cessando pouco a pouco, sistema após sistema, até que nada mais reste. E ali ficam. Trata-se de uma espécie de desamparo sem contrapartida simbólica.

Claro que essa interpretação parte de um humano, capaz de pensar, projetar cenários e produzir significação. Ainda assim, essa imagem me faz lembrar de algo que o filósofo Peter Sloterdijk discute em Esferas III — Espumas. Segundo ele, os seres humanos vivem sustentados por instalações simbólicas — redes de sentido, narrativas, instituições e vínculos que funcionam como atmosferas de levitação existencial.

Sem essas estruturas, caímos novamente ao chão. Perdemos a posição vertical, mas não no sentido físico, e sim no sentido simbólico. Deixamos de ser sustentados por significados compartilhados. Nessa situação, passamos a habitar um mundo que não é muito diferente daquele da pequena lagartixa. Um mundo em que já não sabemos o que nos move, no qual caímos numa zona de indiferença e solidão sem testemunha, mantidos vivos apenas pela persistência quase automática do corpo biológico.

E é claro que a potência de um ser humano não se compara à clausura existencial de um pequeno réptil. Ainda assim, tenho a intuição de que existe algo estruturalmente semelhante no ponto de partida: nascer não significa, automaticamente, habitar o mundo. O mundo já estava aí muito antes de nós.

Para que possamos realmente viver, precisamos construir ao nosso redor uma espécie de microambiente simbólico — uma pequena atmosfera habitável. Um mundo que seja, de algum modo, nosso mundo. Essa atmosfera nunca é completamente fechada: ela é interconectada e porosa, sempre em comunicação com outras atmosferas humanas.

“Existir”, portanto, não é suficiente para estar vivo.

Quando, por alguma razão, a vida se torna maior do que a existência, quando continuamos biologicamente vivos, mas perdemos as estruturas simbólicas que nos sustentam, sentimos na pele algo próximo da crueza do mundo. Não no sentido moral de crueldade, mas no sentido etimológico da palavra: aquilo que é cru, não mediado, não elaborado. Dar-se conta de que se está vivo, mas sem projeto, sem sustentação simbólica que nos permita levitar sobre a terra — e aqui não falo de descolamento pura e simples, mas da suspensão produzida pelas redes de sentido do mundo humano — não é uma experiência confortável.

Talvez seja suportável para um budista, para quem tudo se concentra no momento presente, na respiração, numa integração quase oceânica com o cosmos. Para o restante de nós, porém, suspeito que não seja uma sensação particularmente agradável. Pois, ao contrário da pequena lagartixa, e devido aos processos civilizacionais que acompanharam a emergência da modernidade, somos continuamente convocados a nos justificar, a nos explicar, a nos reenunciar diante dos outros e, sobretudo, diante de nós mesmos. Ou, como diria novamente Sloterdijk, estamos presos numa teia de mobilização infinita.

Experimentos mentais, 5: a panela

Ele trabalhava fazia algum tempo numa siderúrgica. Era responsável pela limpeza da divisão de alto forno da usina. Era um trabalho extremamente exigente, pois além de conviver em um ambiente com alta temperatura, ainda tinha o barulho, a poluição visual e outros imensos riscos ocupacionais. Tinha de tomar muito cuidado. Já fazia esse tipo de trabalho há quase duas décadas. Portanto, não era mais um novato, nem em idade nem em experiência laboral. Ao longo desse tempo, porém, sua vida havia mudado muito. Não só fora da usina, mas internamente, no seu coração. Ele não sabia explicar muito bem quando, como nem por que começou a sentir um peso enorme dentro de si. Quando começou nesse ramo de atividade, a despeito das agressivas condições de trabalho, ele se sentia leve, ágil, capaz de identificar quaisquer problemas e de se antecipar em sua solução. Não era um empregado absolutamente exemplar, nem brilhante. Mas também não era dos piores. No início, tinha certeza de que, mesmo não sendo reconhecido como gostaria, ele estava fazendo sua parte. Mantinha seu setor o mais limpo e organizado quanto possível. Também no início, tinha um tipo de frio na barriga quando chegava ao trabalho. A siderúrgica, embora fosse um lugar inerentemente hostil, despertava certo temor nele. Não sabia explicar, mas era uma sensação de entrar dentro de um monstro, e de se sentir pequeno em relação a ele. Sentia-se ao mesmo tempo fascinado e amedrontado por esse monstro. Bom, na prática, havia motivos para amedrontar-se. Ao longo de seus anos de trabalho havia testemunhado muitos acidentes. Alguns fatais. Bom, mas isso já faz tempo. Agora, nada disso parecia importar muito mais. Tinha algo mais sério para se preocupar, esse peso interno cada vez maior dentro si. Não entendia a razão desse peso crescente. Não havia mudado nada em sua rotina diária. Mas era óbvio para si mesmo que algo estava muito fora do lugar. Ele era movido pela energia de seus músculos, que por sua vez ele sabia que vinha dos alimentos que, mesmo sem vontade, tinha de comer todo dia. Mas só isso. Quanto ao resto, ele sentia como se não fosse mais senhor de si mesmo. É engraçado, ele pensa. Pois realmente não conseguia identificar nada de extraordinário. Nada tinha ocorrido de diferente com ele. Mesmo assim, o peso foi surgindo como a sombra do fim de um dia – você está deitado na cama, diante da janela, meio acordado, meio adormecido. Num momento está claro, noutro já há uma penumbra. Entre um cochilo e outro, quando você de fato recupera a consciência já está noite. Foi assim com ele. E o peso gera mais peso. Há uma inércia, um momento nesse peso: ele tende a se retroalimentar. Nunca chegou a falar disso para ninguém. Não era casado, não tinha filhos, e era de muito poucos amigos. Tinha um ou outro colega com quem esporadicamente trocava umas palavras. Quando não estava no trabalho, costumava ficar em casa deitado num sofá. Até receber entregadores do supermercado havia se tornado uma tarefa penosa para ele. Pensava o tempo todo nesse peso, mas sem pensar. Quer dizer, ele sabia que estava pensando sobre o peso, mas pensava em termos do peso, por assim dizer. Pensava com o peso. Então, ele não se separava do problema. E o peso aumentando mais e mais. No trabalho, já não conseguia fixar a atenção em algo fora de si. Seu corpo, por sua vez, continuava fazendo o serviço de sempre. No fundo, sabia que isso era um imenso risco para ele naquela ocupação. Afinal, há limites para o automatismo do corpo na execução de uma tarefa. Em certa ocasião, sem falar exatamente desse peso obscuro, comentou com um colega que não se sentia mais tão empolgado sobre o trabalho. Esse colega lhe sugeriu que participasse de uma reunião do sindicato. Acabou indo em uma. Ouviu, mas era como se não estivesse presente. Ele não era uma pessoa de confrontos. Nem de embates, tampouco alguém apaixonado por alguma ideia ou por alguma luta coletiva. Saiu da reunião ainda mais pesado. E foi então que, durante um expediente como muitos outros, sentiu algo tão absurdo, um insight tão cortante, que involuntariamente até deu um recuo para trás no ar. Caiu como um raio sobre ele a certeza de que ele era um bloco de minério! Afinal, ele estava numa siderúrgica, então, a metáfora veio como algo natural. E assim, do nada, tudo começou a fazer sentido. Ele havia se dado conta de que se metamorfoseara num pedaço de ferro gusa. Nunca havia testemunhado em si uma epifania tão avassaladora como essa. Toda a dúvida e os desarranjos de sua vida interior caíram no lugar. Exceto por um detalhe: o ferro gusa deveria estar dentro da panela de gusa, onde então o ferro seria separado das impurezas pelo fogo inescrutável. E foi assim que ele desapareceu na panela, sem deixar o menor traço, sendo logo mais incorporado para sempre numa placa pura de ferro.

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Diálogos, 1

Você tem alguma certeza?

Sim. A primeira: não sou mestre de mim mesmo; não estou no controle. A segunda: posso morrer a qualquer momento. E minha última certeza: não falta nada no mundo.

Mas o fato de todos nós morrermos um dia depende de termos certeza? Faria alguma diferença?

No desfecho final, nenhuma diferença, óbvio. Mas faz diferença para mim mesmo. Ter certeza da minha mortalidade. Pois somente quem não ama é que deseja viver. Quem não ama se apega à vida.

Então você está me dizendo que aceitar a morte depende de ser capaz de amar?

Todo mundo pensa que, ao amar alguém ou algo, não vamos jamais querer morrer. Uma filha, por exemplo, te faz se apegar a vida, certo? Uma carreira reconhecida? Uma obra exuberante? Não faz sentido para a maioria das pessoas dizer o inverso. Porém, o amor causa um adensamento imprevisível da existência. Não dá para se apegar mais à existência, pelo menos não em seu sentido corriqueiro. Amar é, pois, morrer. Pelo menos uma parte de você morre. Por isso, pessoas que não amam têm a liberdade mental suficiente para investirem tempo e energia em simplesmente continuarem vivendo. A vida é fácil para elas. Podem ser grandes executivas, empreendedoras, e sobretudo políticas e burocratas.

Então você acha que não falta nada no mundo? Essa é tua outra certeza?

Não, não falta nada. Pelo menos quando consideramos tudo o que é espontâneo no mundo – e não as coisas humanas, necessariamente. Cada detalhe do mundo, não importa onde nem o que, é perfeito em sua própria natureza. Pois pense: todas as obras e manifestações mais sublimes do espírito humano já estavam contidos no mundo. Mas somos disciplinados a pensar na vida humana como falta. Há mesmo uma estética da falta atravessando muitas perspectivas, por exemplo a psicanálise. O ser é definido com relação ao que lhe falta, e pelo que ele se põe em movimento. Cada detalhe de coisas que estão diante da pessoa é comparado e julgado contra um padrão ideal, sempre gerando um hiato de sofrimento e alienação em relação ao presente. Esse tipo de postura criou uma versão diminuída do ser humano, e de quebra ainda ajuda a promover a economia.

Não considera que tudo isso que está dizendo, essas tuas ‘certezas’, possa estar simplesmente na tua cabeça?

Se você abrir e ler todos os livros do mundo, ou se conseguir conversar com todos os sábios ainda vivos, e ao cabo disso tudo vier para mim e disser que encontrou algo que contradiga o que estou te dizendo, ainda assim não mudarei minha opinião. E te digo o motivo: a realidade não é fixa. Ela é uma versão provisória do real. Pois o real propriamente dito será sempre inacessível para nós humanos, por mais que você me mostre meu cérebro iluminando em uma ressonância magnética. Você não vai extrair dali nada de mais real do que as palavras que estou usando para criar minhas certezas.

Você não estaria tomando a realidade pelas tuas palavras, palavras essas pelas quais você expressa essas tuas certezas?

As palavras, especialmente as bem articuladas, são âncoras provisórias em que nos agarramos para não ficarmos totalmente à deriva. Tome tudo de uma pessoa. Se ela ainda tiver uma ou outra palavra para costurar seu disforme caos interno, então ela estará relativamente protegida da escuridão, do fracasso, da perda de tudo e de todos. Palavras são como as folhas secas sobre as quais formigas atravessam um rio. O desafio, porém, é se você realmente acredita nelas. Se não acreditar de verdade nelas, então nem como folhas elas te servirão. Vão se tornar cascas vazias onde você vai se esconder como um covarde armado.

O ovo que chocou

O que é uma pessoa? Esta é uma pergunta que, na aparência, parece banal. Uma pessoa é, claro, um ser vivo. Um corpo. A materialidade deste último é inegável e, por si só, é condição necessária, embora não suficiente, para que haja uma pessoa. Primeiro, porque esse corpo precisa ser “montado”. Refiro-me a “montar” no sentido de um cavaleiro que monta sobre um cavalo. Há, nesse gesto, o assumir controle sobre o cavalo. Sei que esta metáfora pode ser capciosa, pois, de algum modo, poderia sugerir que nosso corpo precisa ser dominado (a mente dominando o corpo etc.). Mas considere a metáfora de outra forma: montar é assumir. Como uma modelo em uma passarela, que precisa incorporar, vestir, empossar-se, tomar conta de um personagem do qual seu corpo será o veículo, o signo.

Segundo, o corpo precisa ser colocado em situações. Precisa interferir, agir, coexistir, mas essencialmente entrar em contato com o mundo físico e social. Ou seja, o corpo, e por extensão a pessoa, é um meio de ação, uma forma de mediação com a realidade. Interessantemente, nosso corpo é um duplo: mediação entre o “eu” e o mundo, mas também entre o sujeito e si mesmo – como em “eu me vejo”. Quem é esse “eu” que vê? Ele vê o “mim”. Mas o que, ou quem, é esse “mim”? O “eu” vê o “mim” em um espelho, digamos. Nosso corpo é aquilo que gostaríamos de ver? Por que nem sempre conseguimos assumir o corpo que temos? Em outras palavras, por que não conseguimos “montar” nosso corpo? Por que o “eu” está em oposição ao “mim”? Enxergamos uma coisa (um objeto real no mundo, nosso corpo), mas vemos outra no lugar. Esse exemplo evidencia a duplicidade da experiência da pessoa na sua própria corporeidade – mas isso não se limita a ela, obviamente.

Uma pessoa é também uma projeção. Uma projeção de inúmeras possibilidades a serem realizadas. A pessoa é uma potência. E é aqui que gostaria de chegar. Uma pessoa pode ser como uma cesta de inúmeros ovos que podem ou não chocar. A trajetória em que estamos no momento não é nada além de uma possibilidade realizada, dentre tantas outras que não o foram (os muitos ovos que não chocaram) mas que ainda existem no cesto, como potências.

E o que ocorre quando o número de ovos não chocados cresce tanto que a pessoa prefere negar-se a si mesma em vez de empreender em uma direção específica? Ela deixaria de ser uma pessoa? Ou então, quando diz para si mesma: “Todos os ovos têm a mesma probabilidade de chocar. Além disso, um ovo é completamente intercambiável por outro. Qualquer um poderia ocorrer. Tanto faz.”? Com pensamentos assim, a pessoa conclui que sua trajetória atual é tão aleatória e sem valor relativo que poderia muito bem não ter ocorrido. O mundo de possibilidades transforma-se, então, em um mundo niilista. Um mundo de indiferença.

Aqui fica uma reflexão: se você está em uma certa trajetória de vida, ela é, com certeza, um dos ovos que chocaram. Poderia ter ocorrido tudo de forma diferente? Incrivelmente diferente? Sem dúvida. E, se examinar a fundo sua trajetória, descobrirá que, por trás das “grandes decisões” da sua vida, houve dezenas de outras pequenas decisões banais e impensadas (ou pensadas com justificativas duvidosas) que, juntas, levaram à grande decisão.

Você pode viver outras infinitas vidas? Aqui as coisas se complicam. Primeiro, porque talvez não tenha tempo suficiente, independente da sua idade cronológica. Ou energia, inclusive física. Segundo, porque a outra trajetória que viesse a escolher cairia no mesmo problema da anterior: poderia ter sido diferente. De um lado, o excesso de confiança em si mesmo merece escrutínio. Pessoas assim podem estar escoradas em ideais e desejos alheios, nos quais baseiam-se tão intensamente que acabam sendo “montadas” por eles, e não o contrário. Por outro lado, pessoas extremamente inquietas, autocríticas e permanentemente problematizadoras de si mesmas podem agir como apostadores frustrados: sabiam que estavam fazendo uma aposta – e uma aposta pode dar certo ou errado –, mas, quando perdem (no nosso exemplo, quando materializam uma trajetória concreta), ficam inconformadas.

Uma cena do filme Our Sunhi, do diretor Hang Sang-soo, cujo diálogo entre esse dois personagens inspirou este post, especialmente os próximos parágrafos. Credito da imagem aqui.

Como descobrir quem você é? Pegue sua trajetória atual e vá fundo, cave profundamente, vá até o fim, com tudo, com força. Se, nesse processo, você descobrir que algo deu errado, então você saberá quem você é, qual seu limite e o quão verdadeiramente “montado” você está nessa trajetória, ou se, na verdade, foi simplesmente lançado nela como uma moeda jogada ao ar, dependente da pura aleatoriedade. Uma pessoa deveria ser mais do que uma aleatoriedade. Mais do que um mero acaso. Embora a vida seja exatamente isso: uma aleatoriedade que se materializou, deu certo e se firmou como algo que, retrospectivamente, dizemos que valeu a pena. E que fique registrado, apenas para efeito de argumentação: se não houver eternidade, onde a pessoa viveria para sempre tal como é hoje, então é isso que temos: uma única vida.

Agora, pense: diante da última frase, de que só temos uma única vida, qual é a recomendação mais comum? A de que devemos nos reinventar sempre. De que a mudança é a regra, a única coisa “permanente”. E aí, no final da vida, com o intuito de justificar essa visão rasa e cacofônica, típica de uma época volátil como a nossa, a pessoa diz que “viveu intensamente, com muitas experiências”. Sabe o que eu acho? Falta o oposto: gente que não esteja o tempo todo querendo mudar, se reinventar, se “desconstruir”, etc. Gente que vá fundo em algo. Que se radicalize nesse algo e se descubra verdadeiramente no processo. Não precisamos de infinitos ovos para fazer uma omelete saborosa e nutritiva.


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