O absurdo, como conceito filosófico, talvez tenha sido popularizado por Camus. Mas existe uma outra leitura desse mesmo conceito, proposta por Thomas Nagel, no contexto de uma discussão sobre o sentido.
Quando pensamos na nossa vida, nas coisas imediatas que temos de fazer ou dar conta, a vida possui muito sentido – conseguimos, se questionados, dar uma razão para fazermos o que fazemos. Se questionados sobre por que trabalhamos, além de certa ironia, podemos responder: “Porque preciso de dinheiro”. Ou então, se alguém nos pergunta por que estamos indo à praia no fim de semana (após certa irritação com a pergunta aparentemente sem sentido), justificamos dizendo que queremos relaxar. Para praticamente qualquer coisa em nosso cotidiano é possível chegar a uma boa justificativa. Aparentemente, nenhuma de nossas ações é não intencional. Aliás, mesmo que alguma ação não tenha uma razão inicial clara para ser justificada, quando temos de falar sobre ela em retrospectiva (como quando alguém nos faz essas perguntas esquisitas), acabamos encontrando uma razão retroativa.
A coisa fica mais intrincada quando levamos nossos questionamentos para esferas mais amplas do sentido. Por exemplo, podemos constatar, com certa amargura ou desespero, que daqui a, digamos, 150 anos, todo mundo que está vivo neste exato momento (ou nascendo neste momento) estará quase certamente morto. Mesmo que os gurus aloprados do Vale do Silício ou oligarcas russos encontrem uma “fórmula para a imortalidade”, como vivem correndo atrás, serão obviamente apenas alguns poucos. Isso não invalida a constatação de que, de um ponto de vista mais amplo, nossa vida é apenas uma minúscula e ridícula fração de oportunidade. Foi, creio eu, Marco Aurélio quem observou que, no futuro, no longo prazo, ele seria completamente esquecido – todos os grandes homens do passado, não importa seus feitos, seriam riscados do mapa para sempre após suas mortes. Se isso é válido para um imperador do calibre de Marco Aurélio, imagine para o resto de nós, pequenos mortais.
Quer dizer, há um paradoxo aqui: nossa capacidade de lançar perguntas e de nos questionarmos o tempo todo pode nos levar de cara ao absurdo. Sabemos que precisamos levar nossa vida cotidiana, tomar banho, ir ao trabalho, estudar, alimentar-nos etc. Ao mesmo tempo, somos capazes de adotar um ponto de vista mais amplo a partir do qual as justificativas que normalmente orientam nossas ações passam a parecer arbitrárias, contingentes ou insuficientes. Não é que o trabalho, os estudos ou os projetos pessoais percam automaticamente seu valor. O problema é que conseguimos nos distanciar deles e perguntar, indefinidamente, por que deveriam importar. E cada resposta parece abrir espaço para uma nova pergunta.
É claro que, quando ampliamos ainda mais a escala da reflexão, surgem constatações difíceis de ignorar. O próprio universo, ao que tudo indica, não foi feito para nós, não parece possuir um propósito intrínseco e, segundo os modelos cosmológicos atuais, também terá um fim – ele próprio, se as teorias estiverem corretas, se apagará para sempre daqui a alguns trilhões de anos (é muito tempo, mas, para o que nos interessa aqui – para os confins de até onde chega o questionamento humano – isso pouco importa). Segundo a teoria atual, o universo se apagará e, junto com ele, o próprio tempo talvez deixe de existir, para não dizer nada do resto dos sistemas planetários. A Terra, por exemplo, será engolida pelo nosso Sol, apagando tudo: histórias, maravilhas e feitos humanos extraordinários.
A vida, vista de dentro, consegue se ancorar em tarefas a serem feitas e nas narrativas culturais que, desde que a humanidade começou a se estruturar como um grande organismo semiótico, nos sustentam. O dilema é que, se formos avaliar nossa vida concreta, inscrita e material segundo critérios cósmicos ou similares, seremos fatalmente esmagados. E esse esmagamento pode, paradoxalmente, levar a um tipo de niilismo em que nada importa, já que tudo é passageiro, impermanente, “fake”, provisório. Ora, por que trabalhar se, no final, vou acabar morrendo, e tudo o que fiz ao longo da vida vai, muito provavelmente, se apagar no véu do tempo? Alguns podem sonhar em ser famosos, mas mesmo pessoas famosas – digamos, Mozart – no longuíssimo prazo também desaparecerão, juntamente com suas obras. De uma perspectiva ampla, conseguimos perceber intuitivamente que a vida e seu sentido, as coisas que fazemos, as lutas que travamos e os dilemas que enfrentamos parecem arbitrários, baseados em escolhas, convenções, rituais e tradições. Outros, diante da mesma constatação, podem adotar a via do cinismo e do oportunismo: se tudo é provisório, então vou aproveitar o máximo que puder.
Algumas consciências se deitam à noite satisfeitas com o fato de terem conquistado alguma coisa, imposto sua vontade sobre outras pessoas, tirado algum tipo de vantagem ou exercido alguma forma de poder. Outras consciências se deitam satisfeitas por terem seguido as regras, obedecido, evitado conflitos e feito sua parte no grande esquema das coisas.
Para Nagel, o absurdo surge justamente dessa tensão. De um lado, somos capazes de nos levar muito a sério. Aliás, neste ponto, meu inconsciente fala: lembro que, na primeira vez em que voei de avião, sequer passava pela minha cabeça que ele poderia cair. O fato de isso nem sequer ser uma questão para mim, o fato de eu ter aceitado como garantido que aquela máquina faria exatamente o que foi projetada para fazer, me isentava completamente de medo, ansiedade ou pavor em voar. Só mais tarde, quando comecei a questionar o próprio ato de voar e a prestar mais atenção à ocorrência de acidentes aéreos, dei-me conta de que, ao fechar a porta do avião, não há absolutamente nada que garanta que ele pousará em segurança. A partir de então, passei a ter medo de voar. E a mesma coisa vale para muitas outras coisas da minha vida. Fui transformado pelo simples fato de cogitar cenários, probabilisticamente improváveis na maioria dos casos, em que algo pode dar errado.
Levar-se a sério é, em certo sentido, o inverso da postura acima. Para mim, levar-se a sério é justamente acreditar que o avião jamais vai cair, porque sequer se cogita a física e as variáveis humanas envolvidas em colocar uma aeronave no ar. Quando nos levamos a sério, realmente acreditamos naquilo que precisamos fazer e naquilo que esperam da gente. Tornamo-nos, de algum modo, intransigentes com o mero exercício mental de questionamento, de problematização daquilo que tomamos como certo e dado. Jovens acabam com suas vidas porque algum post em rede social os deixou profundamente envergonhados, de tal modo que não conseguem se imaginar vivendo com aquilo manchando sua identidade. Esse tipo de gatilho funciona, para além de questões mentais prévias, como um estopim para uma intransigência com a vida, revelando uma extrema dificuldade de exercitar a ironia, isto é, essa posição em que, de um lado, você sabe que algo é “para inglês ver”, mas, de outro, sabe que precisa “to play along”.
Assim, o segundo lado do absurdo, para Nagel, é justamente o contraste entre levar-se a sério e, ao mesmo tempo, saber que pode questionar as próprias escolhas, a própria vida, a vida dos outros, a sociedade, as empresas, até mesmo o próprio universo – questionar a ponto de perceber que nenhuma dessas coisas parece repousar sobre uma justificativa final e definitiva. Podemos continuar perguntando “por quê?” indefinidamente, sem jamais alcançar um fundamento último que encerre a discussão.
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O que fazer diante do absurdo?
Sabemos da solução de Camus: revoltar-se. Para Nagel, a postura diante do absurdo é aquela capturada pela via da ironia, como já aludi acima. Mesmo sabendo que, no fim das contas, nada do que fazemos terá importância decisiva na escala do universo, que seremos esquecidos e que somos um corpo que pode virar pó em um piscar de olhos, ainda assim continuamos vivendo. Isso porque somos capazes de oscilar entre engajamento e distanciamento, entre investimento e dúvida.
Como não temos qualquer capacidade de influenciar o cosmos, alterar as leis fundamentais da física ou controlar a maior parte dos eventos que nos cercam, cabe-nos simplesmente continuar vivendo: ir à praia no fim de semana, preencher planilhas de Excel no trabalho, participar de reuniões maçantes ou assistir a aulas enfadonhas. Enfim, seguir vivendo um dia de cada vez.
O ponto é não enxergar nisso o famoso espectro da alienação. Filósofos como Schopenhauer diziam que as pessoas se lançavam em festas, distrações e jogatinas porque não conseguiam ficar sozinhas consigo mesmas, momento em que fatalmente teriam de se haver com sua própria condição. Não se trata, eu acho, de negar nossa genuína capacidade de questionamento e reflexão. O problema surge quando essa capacidade reflexiva se torna recursiva e potencialmente infinita: por que trabalho? Para ganhar dinheiro. E por que ganhar dinheiro? E por que isso importa? E depois disso? É possível continuar fazendo perguntas quase indefinidamente, com o provável resultado de corroer as razões que sustentam nosso engajamento cotidiano.
A capacidade reflexiva precisa conviver com a vida cotidiana. Não é possível viver apenas na posição radical de questionar tudo e suspender a própria existência. Tampouco parece possível viver fingindo que não vamos morrer, que tudo o que fazemos possui valor eterno ou que podemos nos anestesiar indefinidamente por meio de distrações. Nagel aborda a questão de um ponto de vista lógico: o fato de não existir uma justificativa final para a vida não leva, necessariamente, à conclusão de que minha vida concreta não possui sentido.
O fato de você se emocionar profundamente ao assistir a um filme de que gosta muito, mesmo sabendo que ele é ficção, que os atores são celebridades que não se importam com você e que aquilo movimenta interesses econômicos gigantescos, não invalida a experiência concreta que você teve ao vê-lo. Aplicado à vida, eu sei que tudo é mais complicado. Ainda assim, a mensagem de Nagel parece ser mais ou menos esta: o sentido não depende de uma justificativa final.