Nos últimos posts tenho discutido a questão do sentido, do absurdo e, em menor grau, do ridículo e da ironia. Todos esses conceitos com base em Nagel.
As ações humanas precisam, em geral, ser justificadas. Preciso dizer, primeiro e antes de tudo a mim mesmo, por que faço certas coisas, sinto certas coisas, tomo certas decisões e conduzo um determinado estilo de vida.
Dar justificativas é o mesmo que dar razões. Ou, ao menos, descrever uma ação em termos de outras ações, notadamente linguísticas. Trabalho porque preciso de um salário. Preciso de um salário para poder me sustentar. Preciso me sustentar porque, de outra forma, ninguém o fará por mim e posso passar fome e ficar sem abrigo. Como vimos, esse ciclo virtualmente não teria fim.
Quando a cadeia de justificativas não tem fim, uma de duas coisas pode ocorrer. A primeira é que o sentido de minhas ações, sentimentos e decisões passe a depender de uma recursividade. E, por incrível que pareça, uma vida inteira pode ser justificada dessa forma. Faço X por causa de Y, Y por causa de Z, Z por causa de W, e assim sucessivamente. A segunda é que não exista um fundamento último sobre o qual eu possa fazer repousar essa mesma cadeia recursiva.
Se não há um fundamento último, então duas coisas podem acontecer. A primeira é que eu me isole numa espécie de redoma de justificativas internas. Passo a justificar um dia após o outro, por assim dizer. O horizonte das minhas justificativas torna-se minha própria vida e todas as infinitas tarefas, desafios, medos, desejos e demais elementos que compõem uma existência humana e que, sozinhos, já seriam suficientes para preencher cem anos antes de terminar num cemitério.
Também posso, se não quiser permanecer confinado à redoma da minha vida singular, tentar deslocar a cadeia de justificações para algo maior do que eu: um projeto, uma contribuição para a humanidade, para o meu país, para a minha cidade ou, então, para o signo que encerraria toda cadeia de justificativas: Deus.
A segunda coisa que pode acontecer é que, ao perceber que não existe fundamento capaz de sustentar a cadeia de justificações, eu caia no desespero e passe a relativizar tudo: minha vida, a vida dos outros, a existência do planeta e tudo mais.
Não sei como as pessoas lidam com isso, com o “não acreditar em nada”. Pois, no limite, isso conduziria ao suicídio. Nas situações que imagino serem mais comuns, contudo, talvez conduza a uma espécie de entorpecimento existencial — por vezes acompanhado de drogas, por vezes não. Um certo humor de ser pairando sobre a penumbra da tarde, perdido num crepúsculo contínuo.
Mas, após refletir sobre tudo isso, cheguei a uma conclusão que teve algum impacto sobre minha maneira de enxergar a questão.
É a seguinte: o sentido do que fazemos — e talvez até do que somos — parece surgir no exato momento em que optamos por não fazer mais perguntas e nos contentamos com aquilo que sabemos até determinado ponto. Simples assim.
O sentido emerge, ou se aglutina em nossa consciência, quando nos damos por satisfeitos em algum ponto da cadeia de justificações. Aquietamo-nos ali. Julgamos que aquele ponto basta. Ou, mais precisamente, que ele basta para nós.
Talvez isso não elimine o problema filosófico da justificação última. Talvez o absurdo permaneça exatamente onde sempre esteve. Mas, para viver, parece ser necessário interromper a pergunta em algum lugar e seguir adiante.