Le temps détruit tout

Recentemente, assisti ao filme Irreversible, de Gaspar Noé. Já havia assistido um bom tempo atrás. Completamente fora da minha lembrança estava a frase de fechamento do filme: o tempo destrói tudo.

Começamos por uma cena confusa, barulhenta, violenta. A câmera não para. Por um momento, causa até enjoo tentar acompanhar o que se passa. Conforme o filme avança, voltamos no tempo, ou seja, é tudo de trás para frente. Quanto mais vamos para o fim, mais estamos próximos do começo. As coisas vão progressivamente, em marcha à ré, se acalmando, a ternura dos personagens vai aparecendo, a câmera vai ficando mais “tranquila”. A última cena é da personagem principal deitada em um parque, rodeada por crianças, lendo um livro, sabendo que estava grávida. Não propriamente a última cena, mas a penúltima. A última cena é realmente um branco, um lusco-fusco do qual você não consegue extrair muita coisa. Até onde a câmera regride? Talvez a um outro começo, mais distante.

Por que o tempo destrói tudo? Como sabemos, o tempo é irreversível e só flui em uma direção: para frente. Por “frente” quero dizer que o tempo é orientado para o futuro. Sei que o futuro, a rigor, não existe. Mas tampouco o passado — na verdade, este existe na memória. E a memória é uma forma de reorganizar o que já se passou. Ela é para “trás”. Outra forma de pensar sobre esse “para frente” é recorrendo a um conhecido conceito da física: a entropia. Com o passar do tempo, os sistemas, como corpos físicos — inclusive os corpos humanos —, vão progressivamente “decaindo”. Decair significa, por exemplo, envelhecer. A pele já não é mais a mesma. As articulações tornam-se mais rígidas. A visão, mais precária, embaçada. A energia física vai também cedendo, pois os músculos já não são repostos com a mesma velocidade, se é que são repostos. A memória e o raciocínio vão também se transformando, já que partes do cérebro, como a massa cinzenta, diminuem. Não há como “rebobinar” essas coisas. Pois o tempo não roda para trás.

A energia dispersa-se com o tempo. Para manter a matéria organizada, é preciso trabalho. Um castelo de areia leva tempo e esforço para ser construído. Mas basta um vento forte para fazê-lo desaparecer. A areia não vai, por si mesma, “reorganizar-se” novamente como castelo, isto é, com aquela forma. Assim, uma forma de pensar o “para frente” do tempo é considerar a dispersão irreversível da energia. O aumento da dispersão, ou das possibilidades (potencialidades) das partículas que constituem a matéria. Um gás numa seringa pequena tem muito menos possibilidades (limitadas pelo ‘trabalho’ do êmbolo) que um gás disperso na atmosfera.

Reversible (Le temps detruit tout) - Hrvoje Hirsl

A força do filme de Noé é nos mostrar uma inversão desconfortante: o fim triste dos personagens, quando visto a partir do começo feliz, reforça a fragilidade da vida. É muito pior olhar um acontecimento feliz quando já sabemos seu desfecho. Ele começa o filme com um círculo fechado. Vemos o desfecho, e então tudo o que se segue dele é desapontamento, luto, tristeza, pois sabemos, de partida, que tudo será destruído. Mas é só ao final do filme, quando vemos, de fato, o começo, é que sentimos isso.

Na nossa vida, não agimos assim. Agimos com a esperança de que ela siga como um projeto continuamente aberto. Pois, a princípio, não sabemos como será seu fim. Esperamos que seja positivo. Mas só saberemos, se é que saberemos, ao final. Sabemos que, independente de nossa vontade, seremos ‘dispersados’ pela entropia.

Quando aumentamos bastante a escala do tempo, a destruição é quase inevitável, pois aumentamos o tempo de ação da entropia.

Talvez seja esse o desconforto produzido pelo filme: ele faz o tempo andar para trás justamente para nos lembrar de que, fora dele, isso não é possível. Podemos voltar às imagens, às lembranças, aos momentos anteriores. Mas não podemos desfazer o que veio depois. Não há qualquer possibilidade de restituição.


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