A última avó

O que podemos pensar da vida quando nossos avós morrem? Quando nasci, logo morreram três de meus avós – os dois por parte de mãe, e meu avô por parte de pai. A impressão que tenho é que, quando isso ocorre, você tem um pouco da sensação de que o círculo inferior a você está começando a se fechar. Nesse caso, de duas uma: ou o círculo final é você mesmo, sendo uma questão de tempo; ou você passa esse círculo da vida para frente, na forma de filhos e, depois, netos, bisnetos, etc. Em ambos os casos, todavia, você se sente, por fim, novamente ligado ao fluxo da vida – à ascendência e (se for o caso, não é o meu) à descendência.

Quando eu nasci, a vó Luiza (ou, para todo mundo que a conhecia, simplesmente “Dona Nenê”) já era velha. Neste, ela completaria 99 anos (nasceu no dia 03 de setembro de 1916). Perdeu o marido por volta dos 68 anos ou um pouco menos. Sempre viveu no sítio, e tinha um modo psíquico de funcionamento de pessoas que eu nunca mais tive a oportunidade de conhecer. Sóbria o tempo todo, mesmo no momento de sua morte. Nunca foi de hospital, e, claramente, era “o homem” da família. Com ela, aprendi não muita coisa – não porque ela não tivesse o que ensinar, muito pelo contrário; mas porque acabei “puxando” mais para outro ramo da família…

Lembranças, porém, tenho muitas. Por exemplo, quando eu era uma criança chegando aos 11 ou 12 anos, inventei que deveria “ensinar” minha avó a ler e escrever. Então, paciente, ela tentava aprender o que eu achava que “ensinava”. Sempre no mesmo lugar: no sofá da sala, aquele antigo sofá de couro desgastado onde ela, toda tarde, assistia à televisão. Naquela sala da infância, sempre calma, com um cheiro característico que não consigo mais descrever mas só lembrar, perto da cristaleira onde eu sempre teimava em burilar, ali eu abria os livros e cadernos e tentava fazer minha avó escrever. E ela tinha uma calma… me explicava, calmamente, “Fernando, a vó não sabe escrever, vamos parar com isso…”; e eu seguia…

Eu adorava a cozinha da casa de minha avó. Aquela cozinha, ainda hoje, me lembra uma espécie de fortaleza de simplicidade, ao mesmo tempo em que ordenada. Adorava ficar na cozinha fechada, com o fogão de lenha aceso, o vento batendo lá fora… Adorava a sopa de feijão de minha avó, onde ela colocava um ovo inteiro, às vezes recém-saído da galinha, para cozinhar… era uma sopa rala, com um pouco de macarrão, mas nunca mais eu comi algo daquele jeito. Ia à missa… talvez por conta dela e das amigas, todas senhoras muito católicas, eu tenha tido a vontade de ir para o seminário para ser padre. Ela ia todo sábado, e sentava-se no último banco. Dona Nenê era uma das pessoas mais discretas que já conheci na vida.

Ela era dura comigo, mas nunca, jamais, consegui sentir um remoto sinal de raiva de minha avó. Nunca. Ela foi minha segunda mãe, com quem eu passava praticamente a maior parte de meu tempo depois que voltava da escola. Minha infância teria sido um terror vazio sem ela. Por muito tempo eu só ficava na companhia de idosos, pois minha avó me ensinou a amá-los… nunca vou esquecer aquelas tardes em que eu ficava deitado, brincando, escutando minha avó e a Dorvalina, a “Matirde”, e tantas outras senhoras que adoravam, adoravam!, conversar…que prazer!

Pois hoje minha avó faleceu. Neste exato momento, ela está sendo sepultada lá no interior de São Paulo, de onde ela nunca saiu – exceto para ir à cidade, de onde trazia bolachas e a “compra do mês” que ela pegava com o dinheiro da aposentadoria. Ela ia de ônibus, com uma bolsa xadrez de couro. Uma pessoa independente, autônoma, sóbria, altiva, centrada, trabalhadora, uma pessoa que eu NUNCA ouvi reclamar, NUNCA ouvi desistir do que quer que fosse, por mais simples que, hoje, eu vejo que aquilo era. Eu espero que ela descanse em paz, que ela agradeça a Deus pela longa vida que levou, e eu quero agradecê-la por tudo o que ela deixou em mim (fisicamente, tenho certeza de que meu “narigão” vem da linha dos Nozella…E, nessa jornada que é a vida, tenho certeza de que NUNCA, nós que somos descendentes, conseguimos dar de volta o que recebemos. Eu, pelo menos, não aprendi isso, ou simplesmente não consigo fazer. Sei que poderia ter sido um neto melhor, sobretudo um neto mais próximo, mas nada disso apaga minha gratidão pela minha avó, que sempre estará na minha vida, nas minhas lembranças, nisso que sou.

Luiza Erotides Nozella Bendassolli, 03.09.16 – 06.06.2015

O galo

Na véspera de natal notei uma diferença ao acordar. Havia, em algum lugar no bairro, um novo visitante, por sinal bastante ruidoso: um galo.

Não há como não ter estabelecido conexões remotas. Praticamente em toda minha infância eu acordava com o som de um galo cantando. O som tornou-se habitual.

Depois de desperto, fui tentar descobrir de onde, afinal, provinha o som e estava o ilustre ‘cantor’. Foi então que descobri que a ave estava na casa em frente ao prédio onde moro.

Achei estranho, pois o galo estava simplesmente solto no quintal da casa, e, ao contrário dos galos que conheci na infância, esse, apesar de caracteristicamente belo (robusto, preto e com cristas vermelhas), estava visivelmente confuso. Então, além de ‘cantar’ com o surgir da alvorada, ele fica fazendo a mesma coisa o dia todo. Acho que ele estava, imaginariamente, conclamando seu pelotão de galinhas, mas não havia sinal de nenhuma… Era um galo sem galinhas, um galo sem galinheiro, um galo deslocado e perdido.

Confesso que, de quarta (24) até hoje (26), o galo me irritou um pouco, pois ele realmente ‘cantava’ muito. Isso só aumentou minha curiosidade: afinal, que raios fazia um galo em plena zona urbana?

A princípio, deduzi tratar-se de algum novo ‘bicho de estimação’. Exótico, é fato, e bastante improvável, mas minha ingenuidade (ou esperança) me iludiu dessa forma. Depois, algo de mais sinistro (e provável) me ocorreu: esse galo ali estava para, em algum momento entre natal e ano novo, ser morto e comido.

Tentei apagar a última hipótese. De repente, o galo some. Pensei: mataram e comeram o bicho! Mas, horas depois, eis que ele reaparece, e hoje pela manhã eu novamente acordei com seu canto ao mesmo tempo imponente (como lhe é característico), mas confuso, dúbio…e, em alguma medida (pude senti-lo ou meramente imaginá-lo), amedrontado. O canto de quem, como eu, não estava entendendo nada do que se passava.

Sai à tarde. Imediatamente quando chego ao prédio e o portão se abre, escuto o galo – mas, desta vez, claramente ele estava tentando fugir. Imaginei que seus anfitriões pudessem estar tentando capturá-lo para levá-lo para fundo do quintal para que ele pudesse ‘dormir’ (segunda ingenuidade minha). Ao subir o elevador e chegar ao apartamento, escuto um ruído diferente do galo. Algo como um ruído desesperançoso, última súplica a uma dúvida cuja resposta ele nunca terá. A dúvida do porquê. Na verdade, acho que a própria dúvida sobre “o que”.

[…]

Na mitologia, o galo representa a ressurreição solar. Ele anuncia o nascimento do sol, o fim da escuridão, o raiar da alvorada, a entrada de um novo dia depois de um período de trevas.

Na tradição cristã, representa a nova luz, a missa da meia-noite, aquela na qual se anuncia o nascimento de Cristo. A missa do galo…

Em alguns países (Japão, França, Portugal), o galo é símbolo em importantes rituais nacionais. Em Portugal, por exemplo, era costume levar um galo à missa: se ele cantasse, era sinal de que a colheita seria boa.

O galo simboliza, portanto, a ave da alvorada, a ave do anúncio da recuperação da vida sobre a terra, representada pela luz. É a ave da vigília – não como a coruja de Minerva, símbolo da filosofia, que enxerga à noite e está sempre atenta, mas da vigília do despertar, a vigília da reverência à manifestação do sol. Representa Apolo, deus do sol.

[…]

Muitos povos, Brasil incluso, desenvolveram, ao longo de sua existência na Terra, o estranho (mas ritualístico hábito) de devorar presas para delas extrair sua potência. Canibalismo tribal.

A cultura brasileira, rica em sincretismos variados, consegue unir tudo em tudo: se se come um galo, nas vésperas ou após o natal (ou antes do ano novo), isso prenunciará um futuro “cheio de luz, paz e sabedoria”. Então, várias pessoas se reunem, matam um galo, o devoram cozido de uma panela… e, pronto, basta esperar a boa-aventurança.

A cultura brasileira, ao mesmo tempo em que reconhece, em algum nível, a simbologia, a mitologia, a imaterialidade contida em um signo (neste caso, uma ave), também passa ao ato, transcende o nível delicado do símbolo e mergulha na concretude mais visceral, carnal. Nesse sentido, é ignorante em um nível essencial, um nível que pressupõe a transposição de um nível corpóreo (significante) para um nível incorpóreo (significado / o lekta dos estóicos), mediada pelo corpo (pelo comer e pela integração a si).

De outro lado, e aqui reside a essência de minha argumentação, não seria no mínimo algo muito hipócrita sacrificar uma vida para celebrar o ‘futuro brilhante’ de outra vida, individual e mesquinha? Na Bíblia, Abraão sacrifica seu próprio filho a Deus. No Novo Testamento, Jesus (cordeiro) é imolado em nome de Deus (seu pai). O sacrifício. Mas, neste caso (do galo), estamos diante da mesma magnitude espiritual?
Eu sei, eu sei – todos nós, em festas como as de natal, mergulhamos em uma profunda (eu me incluo) ignorância, um manto de esquecimento e indiferença magnânimos: desde a velha estória de festejar em família, mas pouco se lixando para a família ao lado, até festejar “a vida”, o “renascimento”, às custas da morte. E, repito, em condições que nada têm a ver com “sacrifício” em nome de uma “causa superior” que não seja o entupimento ganancioso de bocas fanfarronas e, depois da algazarra festiva “pela vida, paz e pela harmonia”, das latas de lixo.

Em algum lugar alguém deve ter dito o quão hipócrita é uma cultura, e que tal hipocrisia, de alguma maneira, constitui parte expressiva dessa mesma definição de cultura. A cultura é nossa morada, nosso mergulho no coletivo, mas também, ou sobretudo, na barbárie (ainda que hoje ela pareça branda e ‘civilizada’).

Obs.: a sorte, para os humanos, é que a cultura é também o registro de sua vitória (aparente) sobre a natureza. Meus vizinhos, no seu fulgaz momento de canibalismo coletivo, devem, inconscientemente, ter se sentido poderosos. Sorte deles (sorte nossa?) de que a ‘presa’ não era um animal feroz, muito mais forte e menos acuado que um galo. É nessas horas que vemos como o ser humano é patético (como indivíduo) e privilegiado (como espécie).

Autoconhecimento e sincronia

Estava pensando que o tal do ‘auto-conhecimento’ provém da experiência pessoal do manejo consigo próprio, nas mais variadas situações.

Por exemplo, em algum ponto do percurso da vida, você descobre uma espécie de ‘zona de segurança’ psicológica que diz, única e exclusivamente, respeito a você próprio.

Em tal zona, você consegue monitorar e sentir, tudo ao nível intuitivo, que não deve se meter em algumas situações afetivamente custosas.

Seria isso o que certa vez Freud identificou como um dos fundamentos do funcionamento psíquico, a tendência a manter o nível mais baixo possível de dispêndio de energia psíquica?

É verdade que ele falava de inconsciente. E de que, muitas vezes, falamos de um mero cálculo de custos e benefícios. Mas pense assim: se você sofre quando perde um cachorro de estimação, então por que, para começo de conversa, ter um cachorro?

Evitar a experiência, antecipando o que ela vai lhe consumir de energia, é, naturalmente, uma solução meia-boca, pois, afinal, no exemplo do cachorro, a despeito de um dia ele morrer, isso não apaga anos de agradável e intensa experiência afetiva com ele.

O cachorro é só um exemplo. Posso dar outros. Se você lida mal com o conflito interpessoal, então, evite situações em que você vai se expor – mesmo quando se é forçado a isso, em alguma medida, pelo fato de você ocupar algum papel que implique em confronto.

Mas o que isso significa? Significa, em alguma medida, fingir-se de morto? Ou desenvolver uma persona ‘paz-e-amor’, tornar-se alguém incapaz de envolver-se em um embate, em defender uma ideia polêmica? Fingir na frente da pessoa, falar pelas costas?

Também significa outra coisa. Significa que você se conhece minimamente e sabe como ‘modelizar’ suas características de modo a não se violentar em demasia no contexto. Se o preço disso é, no exemplo acima, ser percebido como mais passivo, que seja.

Nietzsche disse em algum lugar (talvez em Humano, demasiado humano) que certas poças de água, destas que ficam à beira da estrada, no alto de uma serra ou algum lugar assim, quando são atingidas por algum objeto (por menor que seja), levam algum tempo até ‘voltar ao normal’ – até acalmar as pequenas ondas d’água impulsionadas pelo objeto lançado. Quando essas ondas se dissipam, pronto!, a poça esta novamente no seu centro habitual.

Quando estamos no mundo, quando agimos nesse mundo (somos afetados e afetamos), por vezes demora um tempo até retornarmos ao nosso estado de equilíbrio habitual. Então, prosseguia Nietzsche, por que se meter em situações em que, corriqueiramente, seu equilíbrio é alterado? Ao preço do que? De uma frenética e por vezes irracional ‘pressão social’ para ser diferente, para mudar, como se o desenvolvimento psicológico, espiritual, social, humano, enfim, qualquer desenvolvimento, só viesse junto com alguma mudança? Ora, vivemos sob o jugo pesado do ‘fetiche da mudança’. Há uma associação quase natural e inquestionável entre mudança e alguma coisa positiva.

A metáfora de Nietzsche, penso, é algo na direção de dizer que o sujeito é quem ele deve ser, ou deve se tornar quem ele realmente deve se tornar (Ecce Homo). Alguém aí poderia dizer que isso é muito romântico, algo que cheira a idealismo alemão. Pode até ser. Estou realmente simplificando. Mas há também a possibilidade de essa intuição conter alguma verdade ética, no sentido de assumir que cada sujeito, cada ser, por mais intrinsecamente ‘social’ que ele seja (embora o ‘social’, na filosofia de Nietzsche, possa ter forte vinculação com a moral, com o ‘espírito de bando’ ou de boiada…), possui um centro de gravidade construído a duras penas, muitas vezes às expensas desse mesmo sujeito – lançando suas raízes no mundo insconsciente, na biografia de cada pessoa, etc. Por alguma razão que no momento desconheço, vivemos numa época histórica de crítica devastadora ao ‘eu’, por mais que muita gente denuncie o ‘ressentimento’ de nossa época, o fato de vivermos no auge do ‘narcisismo’ e do culto ao eu. Mas acho que é muito diferente falar em narcisismo e na possibilidade, fenomenológica e existencial, de ‘possuir um eu’, isto é, uma experiência interior. Na cultura da boiada, que, a meu ver, é, de fato, a cultura em que vivemos, ter um eu é sinônimo de fazer um selfie. Criticos arrogantes confundem essas duas coisas, e nos deixam numa situação de niilismo paralisante!

Hoje eu penso que não há, a princípio, um problema em você não conseguir certas coisas que apenas podem ser conseguidas na arena social. Primeiro, pois ninguém tem qualquer fórmula do sucesso (ah, seja assim ou assado que você vai, com certeza, dominar a gramática social, o gênero discursivo de determinado coletivo, etc., e, consequentemente, vai ser bem-sucedido afetiva e socialmente). Depois, porque ‘vencer’, em graus variados, consiste basicamente em aderir a um espírito de boiada, a identidades pret-à-porter, jeitos e formas de ser prescritas e instituídas. O sucesso é, no seu valor de face mais aparente, nada mais nada menos do que o ajuste fino e isomórfico às expectativas do Outro. Não estou, com isso, defendendo a primazia de alguma coisa vaga e incerta quanto um ‘sucesso subjetivo’, interior (do tipo ‘o que importa é a beleza interior’). Estou apenas dizendo que, se o preço de não ‘vencer’ na arena social é seu equilíbrio, então, bem, talvez se justifique o sacrifício.

Muitas vezes, a morte do ‘eu social’ é o único caminho para o reencontro com aquela ‘zona de segurança’ de que falei na abertura deste post. Quantos de nós queremos, ou mesmo podemos, perpretar essa ‘morte’…essa já é outra estória. O fato é que existe um nível de ‘qualidade de vida’ que só é experienciado nesse nível mais íntimo do eu consigo mesmo. E se você, por alguma razão, prefere, vamos dizer, perder a alma do que perder o brilho e o holofote, então, meu caro, boa sorte, pois sua vida será, em vida mesmo, um inferno!

Do porquê de usarmos os afetos em situações de desempenho

Existe um traço da cultura brasileira que é praticamente inegável, se visto com cuidado: temos certo hábito, automático como qualquer comportamento orientado pelo script cultural, de falar de alguma particularidade de nossa vida privada para tentar lidar com situações em que se esteja diante da expectativa de peformance/desempenho.

Por exemplo, quando não se atinge certo patamar objetivo de desempenho, estabelecido com base em critérios de comum acordo e ‘normais’ do ponto de vista organizacional ou da atividade, logo se vêem justificativas de cunho personalista: “É que estive doente”; “É que isso é uma questão com a qual não me sinto bem em lidar”; “Não fiz isso, mas veja quantas vezes eu passei a noite trabalhando com algo que você me pediu”; “Não consegui, mas veja como sou compromissado com o trabalho, como estou aqui a todo momento para lhe prestar minha ajuda”; etc.

Quais explicações para essa junção, sobreposição, por vezes subsunção, da performance pelo afeto?

1) Não temos, por aqui, em nossa cultura, uma disseminação generalizada do individualismo moral observado em outras culturas. Temos, em contrário, uma mistura entre aspectos desse tipo de individualismo – que, em geral, é indiferente à ‘pessoa’, portanto mais voltado à impessoalidade do desempenho (meu chefe não está ‘cobrando isso só de mim’ – faz parte do processo de trabalho, etc.) – com viéses de uma cultura bairrista, paroquialista, centrada na figura do senhor e do escravo, na metáfora do ‘homem cordial’ tão bem analisada por S. B. de Holanda. A mistura entre esses elementos nos traz, no cotidiano das relações, um tipo de ‘personalismo afetivo’. Tal personalismo faz diluir as cobranças e orientações instrumentais das relações laborais em um caldo de ‘afetividade compreensiva’, do tipo protecionista, personalista, com os conhecidos sentimentalismos ritualizados que temos em nossa cultura – como amigos-secretos no final do ano, mensagens efusivas e ‘calorosas’ de demonstração de afetos em aniversários, ou então quando a pessoa exibe uma foto sua no what’s app, bem ao modo selfie ou big brother de si mesmo;

2) Devido a uma certa propagação, cujas origens precisariam ser melhor esclarecidas no plano sociológico e psicológico, de que ‘performance’ tem a ver com exploração, tem a ver com o ‘ser usado no trabalho’, isto é, tem a ver com um ‘outro’ que nós, brasileiros, conhecemos como o ‘senhor’ (da Casa Grande & Senzala) – ao mesmo tempo aproveitador e cordial. Daí que se espera que esse ‘senhor’, quando for pedir algo, que o faça com a mansidão cordial, com “jeitinho”, com aquele canto de boca religioso, quase como uma criança a pedir doce para a mãe. Por motivos antropológicos que desconheço, o ‘senhor’, como metonímia ou metáfora das relações de poder, tornou-se uma espécie de pai complacente, sujeito, paradoxalmente, a todas as tensões e ambivalências típicas de uma relação pai-filho: amor-e-ódio. Portanto, no trabalho, a cobrança por desempenho, se ocorrer, deve ser de modo ‘estratégico’, um verdadeiro marabalismo relacional;

3) Existe, como parte disso tudo que coloquei acima, uma gramática relacional moldada pela afetividade de tipo prêt-à-porter, além de um estilo de relacionamento baseado na criação de pactos e vinculações ocultas, em redes e históricos de favores e retribuições, mais uma vez uma apropriação, talvez ‘mui’ brasileira, da ‘dádiva’ – teoria tão bem explicada por M. Mauss: “Eu te dou cobertura hoje, você me dá amanhã”. Como, em dado momento, quem cobra é quem, de certo modo, recebeu algo da pessoa no passado, então fica difícil instituir ou introduzir uma lógica de puro ‘gerencialismo eficiente’ numa relação que não comporta, interna e externamente, esse tipo de orientação. Se se introduz uma lógica de cobrança impessoal, ou de desempenho impessoalizado, tem-se um problema a lidar, pois a cultura do paroquialismo, da afetividade compassional, vai reinterpretar a situação como ofensiva, disparando, em consequência, comportamentos grupais de tipo corporativista, porém, um corporativismo afetivo, do tipo bode expiatório (‘nós que nos amamos’, e ‘ele, que odiamos’). Ou então a situação vai ser reinterpretada de modo mais cínico, com explicações (ou auto-racionalizações, auto-justificações) sobre “a injustiça do capitalismo”, “a vida é mais que o trabalho, o que importa são as relações”, etc. Ou ainda, para piorar o quadro, se sai com o velho comportamento “para inglês ver”, com um fingindo fazer o que o outro pede, ou fingindo “entender e tentar melhorar” o baixo desempenho. Chega a haver um descaso cínico com o desempenho esperado.

Claro, haveria outras explicações. Inclusive, certamente há reparos a fazer na leitura do fenômeno tal como a coloco acima. Mas, temos de pensar melhor sobre esse traço de nossa cultura, essa tendência, sobretudo em certos tipos de setores (como no setor público, por exemplo), de estimular a auto-comiseração, o auto-pietismo, a solidariedade orgânica, a afetividade como escudo e como forma de reinterpretação do desempenho. Claro que não é 8 ou 80, mas o ‘uso dos afetos’ pode ser profundamente reativo (embora, paradoxalmente, é uma grande característica de nossas relações profissionais, com benefícios legítimos), conservador, perverso. Pode, em certo momento, passar a representação de que, no trabalho, “estamos muito mais convivendo do que fazendo coisas objetivas que levam a resultados objetivos”.

Para finalizar, mas sem concluir…:

A) Não acho que a ‘performance’ tenha, apenas, a ver com uma representação do trabalho como castigo, como obrigação, como algo ‘chato’ que se faz para enriquecer alguém. Tem a ver com o poder de agir, com o fazer, com a intervenção sobre a realidade circundante. Diluir isso em uma nuvem de passionalidade, além do que coloquei acima, pode ser corolário de uma estratégia, não necessariamente deliberada, de ‘ocultar o real do trabalho’, isto é, o que realmente se está ali fazendo (ou se deveria/poderia ali fazer);

B) Falar de si, dar justificativas pessoais para um resultado não alcançado, é, em certo sentido, um tipo de narrativa de auto-engano, de auto-justificação. Uma tentativa de conseguir a pena e a compreensão do outro. Uma forma de controle, portanto. Claro que as relações humanas não são ‘mecânicas’, mas acho que o trabalho não é lugar para grandes amizades, grandes aprofundamentos sentimentais/afetivos; o trabalho é onde ocorre o embate entre um ‘eu’, um ‘outro’ e o ‘real’. Daí que tenho pavor das manifestações superficiais de coleguismo, dos rituais de emoções superficiais. O trabalho não é, necessariamente, um lugar para sermos ‘aceitos ou rejeitados’, onde vamos tentar sanar coisas que não têm a ver com o trabalho. Não estou dizendo para segmentarmos nossa vida: no trabalho e fora dele, só estou mostrando o lado nem tão cor-de-rosa de fazer do trabalho uma arena para se recuperar uma “grande família humana perdida”.

Uma queixa extemporânea: onde está a tragédia, onde estão as virtudes, onde estão os ‘grandes homens’? Estamos nos tornando nanicos sentimentalóides, movidos a ‘paixões de ocasião’, numa enfadonha busca por aceitação, ‘espírito de grupo’, coleguismo de ‘nivelação por baixo’, de ‘pactos narcísicos’, e assim por diante…

O eterno e o efêmero

Na vida humana há um entrelçamento fantástico entre o eterno e o efêmero. Entre a vida cotidiana, com suas banalidades, e a vida longa, a vida plena, onde as grandes decisões e os grandes acontecimentos se dão.

A vida cotidiana, banal, é a vida da ida ao supermercado, da troca de uma lâmpada queimada; a vida eterna, sem conotações religiosas (embora pudesse também haver!), é a vida que imaginamos para nós no futuro, nossos sonhos, o nascimento de grandes projetos, incluindo filhos, em suma, a vida eterna abarca o campo do sentido (na acepção de propósito [por quê] e direção [para onde]).

Tenho a sensação de que, para cada esfera de nossa vida, há um binômio, um par, um duplo, uma simbiose entre o efêmero e o eterno, a vida se dando entre a leveza e despretensiosidade de uma pluma e a seriedade, a dramaticidade, de um evento vital decisivo (o nascimento, a morte, a doença, um casamento, uma separação, um acidente, ou meramente uma inspiração, um desprender-se momentâneo em direção ao sublime – seja ele religioso ou não).

Por exemplo, na vida profissional. Ora, você deve, seja qual for seu campo de atuação (tomo sempre o meu próprio como referência, pois é nele que está vinculada toda minha experiência de vida), viver no interjogo de um duplo: de um lado, você tem de participar de reuniões, sentado em cadeiras desconfortáveis, em salas deprimentes (verdadeiros não-lugares), com pessoas com certo desânimo de ali estar ouvindo sobre critérios e normas de produtividade do seu Programa de Pós-graduação. De outro, você tem o conhecimento, a amplitude que ele supostamente lhe dá, a super-visão que ele te oferece, o gosto e o sabor elevado de grandes ideias, grandes feitos, grandes mudanças promovidas no cotidiano, seu e de outros – e, claro, “a fama” (palavra pouco usada no metiê acadêmico… talvez seja mais polido falar de “reconhecimento”).

Outro exemplo: nosso próprio corpo. Mal nos damos conta, mas a cada dia a vida vai jogando a duplicidade de sua essência, banal e eterna, de modo irreversível. Nosso corpo, aliás, é a prova viva, a materialização definitiva, de uma fusão de milhares de anos, pela qual somos, simultaneamente, nulidades e talvez uma das espécies mais brilhantes deste planeta – independente de você pensar que isso é um tipo de “especismo” (tendência de julgar uma espécie superior à outra, no caso, a humana). Deságua em nosso corpo as forças profundas e irrefreáveis da ontogênese e da filogênese, a sensação da singularidade (e sua manifestação objetiva) com o atravessamento anônimo, cego, despótico e indiferente da “vida genérica” da espécie.

Nossa vida, nosso corpo, é a manifestação do enlace entre o eterno e o efêmero.

Basicamente, há três modos de o eterno se colocar no nível da vida-corpo: primeiro, como disse, pelo próprio substrato da espécie (nosso DNA – já pensou o que “ele” teve de passar para chegar a esse estágio de programação e execução?); segundo, pelas nossas obras, e aqui penso em amplos conjuntos de atividades humanas, da arte à arquitetura, passando pela literatura, pela ciência, mesmo pelas ideias religiosas transmitidas de geração a geração; em terceiro lugar, a eternidade se manifesta em um filho, réplica mitológica do “À imagem e semelhança de…” (Deus, do pai, da mãe, em suma, daquela sepa específica pela qual se diferenciaram as diversas “linhagens” humanas: a família). Para a grande maioria dos humanos, ter um filho é o modo mais visceral, mais concreto, ao mesmo tempo mais metafísico, de lidar com o efêmero e o eterno, com a sensação de que se é absolutamente essencial (para criar o filho e no seu amor, depois de grande), e, ao mesmo tempo, radicalmente dispensável – e, mesmo quando se sabendo dispensável, narcisicamente feliz por ter “contribuído e deixado sua parte”. Um filho, lógico, jamais suplantará seu pai e sua mãe, nesse sentido mais profundamente “ontológico”.

Há outras formas de vivenciar a eternidade, embora essas possam se dar como engodo. Por exemplo, o próprio consumo é uma forma de viver o eterno e o efêmero, com este último se passando, na consciência do sujeito, pelo primeiro (isto é, o efêmero do consumo sendo interpretado como eterno). Num comercial de carro, você é, como consumidor, levado a “viajar” em ideias de liberdade, de perfeição, de potência, de força, de design, de beleza… mas, em dois ou três anos, você se vê com um produto que já precisa ser trocado, tamanha a “efemeridade” com que suas peças e seu conjunto é feito. A própria propaganda, aliás, lhe dará novamente o insumo para julgar que seu atual carro está, na verdade, ultrapassado, que precisa ser trocado – você vive, nesse momento, a consciência (falsa, mas profundamente conectada com as sensações e às ideias que até parece verdade!) do efêmero, mas não se atém a isso, não se delonga nessa sensação, pois ela é logo engolfada por um novo carro, pelo “cheirinho” de novo…

A arte soube captar a relação entre o eterno e o efêmero. A arte, inclusive, já foi deveras criticada por supostamente ter, em várias de suas correntes, abandonado a miragem do eterno e ter se voltado, perigosa e arriscadamente, para o efêmero (o que dizer, digamos, da chamada “art pop”?). Mas há muitos movimentos que sugerem o inverso na arte, e isso, penso, praticamente desde seu nascimento. A arte eterniza o efêmero. A pintura de uma mera paisagem, ou de uma folha, o minimalismo obsessivo de certos pintores ou ainda escritores, institucionaliza a passagem do efêmero, da plumagem da vida cotidiana, digamos assim, para o eterno, para uma “forma ideal” – para, faceiramente, citar uma conhecida colocação de Platão.

Por fim, podemos optar por viver no efêmero. Podemos optar por, digamos, viver “em festa”, em celebração. Podemos abrir mão da busca pelo eterno, pela inscrição de nosso nome num grande e relativamente estável gênero (profissional, cultural, etc.). Podemos, simplesmente, “deixar rolar”, deixar ser. Claro que não conseguiremos fazer isso de modo profundo, a menos que, de fato, façamos nossa vida algo “insustentavelmente leve”. Digo que talvez não possamos, pois, como disse no início, sempre estaremos no interior de um enlace, de um duplo. Até podemos correr para a primeira igreja da esquina, ou então nos voltarmos para nossa própria espiritualidade; podemos, sim, podemos. Ali, numa simples casa-igreja (ou mesmo num suntuoso templo), teremos contato, de modo imediato e quase “pop”, à imensa fragilidade e, paradoxalmente, à insuperável “consistência” de nossa vida como espécie. Se a pessoa não se deixar alienar (pois, acredite, o mero pensamento da finitude e da fragilidade huamana serve para nos tornar susceptíveis e imbecis), ela terá ali um momento de contemplação do sublime.

Mas contemplar o sublime, muitas vezes, não é suficiente para fazer você voltar à realidade, ao cotidiano, a seu movimento miúdo, a sua “corriqueiralidade”. Você tem de ser forte para, digamos, vislumbrar o sublime no âmago, no interior mesmo, do cotidiano. Só um exemplo para terminar. Imagine o trabalho, o emprego: ambos poderiam ser muito mais do que eles efetivamente são. Muitas vezes, a pessoa passa horas, dias, semanas, anos, décadas… a vida toda, fazendo a mesma coisa (ou coisas diferentes, não importa…). Se você parar para pensar, por mais que lhe digam que seu trabalho é “profundamente cheio de sentido”, ele é efêmero: o melhor presidente de empresa será, logo mais, substituído; a empresa mais sólida e orgulhosa de sua marca pode (e, provavelmente, será) vendida, mudada de nome, dividida, fragmentada, tratada como um pedacinho de ações numa bolsa de valores qualquer. Mas ele também poderia ser sublime, não? Como? É impossível responder a isto se pensarmos como indivíduos, como seres singulares, “especiais”, diferenciados; só responderemos a esta questão se, paradoxalmente, esquecermos de quem somos, se nos abrirmos para uma anônima e inexplicável impessoalidade. Talvez seja isso. Talvez, para encerrar, o sublime seja exatamente isso: a impessoalidade, o anonimato, a insignificância ao nível do indivíduo com nome X ou Y, identidade A ou Z.

Como pode ser potente, o anonimato.

Improdutivismo acadêmico

Faz tempo que tenho evitado entrar na discussão sobre o produtivismo exacerbado que vivemos hoje na ciência brasileira (mundial, claro), mais particularmente nas ciências humanas, e na psicologia – onde me insiro.

A tese, por mais que haja variações, é de que nos preocupamos muito mais com a quantidade de artigos em nosso currículo do que com a qualidade, o conteúdo. A resposta do “sistema” não demorou a aparecer, e temos hoje uma “métrica” que avalia também (quantitativamente, diga-se de passagem) a “qualidade”.

Mas os argumentos vão ainda mais longe. Graças ao produtivismo, diz-se, estamos sacrificando o ensino, a extensão. Estamos “fatiando” pesquisas que ganhariam em complexidade se articuladas na sua totalidade, e tudo para produzir mais, tirar mais “leite de pedra”, como se diz popularmente. Estamos (professores-pesquisadores) adoecendo. Estamos criando um circuito psicossocial tóxico: concorrência por recursos, por bolsas, por status/prestígio, o que muitas vezes culmina até mesmo em atitudes ilícitas, como plágio, auto-plágio e assim por diante…O produtivismo leva ainda culpa por matar a inovação – se, por exemplo, cruzarmos número de artigos publicados e patentes registradas, a distância é lunar, para não dizer do amontoado de lixo virtual que vamos produzindo agora que não se precisa mais derrubar árvores para fazer o papel em que se materializaria o famigerado “paper”…

No fundo, me pergunto: a quem interessa o tal produtivismo? Mas ocorreu-me que um modo talvez mais criativo de pensar seja perguntando o inverso: a quem interessa o improdutivismo, se é que, de fato, uma coisa é o inverso da outra?

1. Não nego que talvez os que critiquem com tanta veemência o atual sistema de produção acadêmica sejam seres com uma visão profunda das coisas, do conhecimento, alguém que enxerga para além da burocracia weberiana do mundo acadêmico – não seria, aliás, por isso que se alastrou certa tendência a usar ganhadores de Prêmio Nobel para criticar o sistema de produção acadêmica atual? (Ora, se eles, que são tão iluminados, dizem que não seriam “nada” pelas métricas vigentes, então algo deve realmente estar errado com o produtivismo…);

2. Mas também não podemos deixar de conjecturar que o sujeito “improdutivo”, e que critica o “produtivo” (nessa dicotomia aqui usada apenas para efeito didático), talvez tenha uma concepção mais rasa do conhecimento do que pensamos. Fico me questionando: em qual momento da história não havia algum tipo de pressão para que as pessoas provassem a que vieram no trabalho? Lembro-me aqui da tese de A classe ociosa, de Thorstein Veblen. Acadêmicos alegam que precisam de tempo e condições para pensar. Concordo. Mas, assim como o produtivismo debanda para o insano, esse tipo de visão sobre o “improdutivismo” também não poderia nos levar a uma situação inversa, em que produzimos apenas e quando isso nos bate nas ventas, se é que isso acontece? Pois pode haver um professor improdutivo, que não prepara aulas, que repete as mesmas coisas sempre, que simplesmente vai na universidade (se ela for pública) para “dar carga horária mínima” e pegar o resto do tempo para cultivar bonsais em casa ou então ler seus livros, suas poesias ou o que quer que deseje. Pode haver extremos dos dois lados, não?

>> Adendo 1: certas pessoas acham que a “boa produção” é aquele livro escrito após 20 anos debruçado sobre os papéis, e que, quando lançado, revoluciona o mundo. Não há como negar certo viés “aristrocrático” na crítica ao produtivismo, pois qualquer um, desde que tenha as condições mínimas, pode publicar um artigo;

>> Adendo 2: Muitos dos que criticam o produtivismo não revelam, mas eles falam de algum lugar. Por exemplo, alguns falam do lugar de quem olha para isso tudo e diz, de sua “superioridade”: bando de imbecis. Em geral, usam como argumento, explícito ou (na maioria das vezes, implícito), que os clássicos viam muito além do pontinho que representa um artigo, como se este artigo não fosse mais do que poeira cósmica. É a crítica feita da posiçao da arrogância.

3. Acho que existe uma moral no improdutivismo (um tipo de ethos). Num sentido, o improdutivismo, como na antiga ideia de O direito à preguiça, de Paul Lafargue, nos lembra que o trabalho não é tudo. Que o trabalho não é uma atividade que se restrinja ou se plasme, pura e simplesmente, à métrica da produção (quantas peças, quantos botões produzidos, quantos carros vendidos, quantos artigos aceitos para publicação, etc.). Ou então que o trabalho pode ser muito mais do que, neste exemplo, o produto “artigo”. Seja como for, não há trabalho sem um produto, sem algo gerado, uma obra, um serviço, qualquer coisa. O ciclo do trabalho não se fecha se inexistir alguma “produtividade” (no sentido amplo de um sujeito que aje sobre o mundo e o transforma);

>>Adendo 3: Isso significa que, muitas vezes, a crítica ao produtivismo confunde coisas absolutamente diferentes: a produção do conhecimento com sua forma de divulgação. Acho lamentável que muitos transmitam a ideia de que precisamos “produzir artigos” (publish or perish) como se isso fosse a forma par excellence de produzir conhecimento (ou que o fato de “está publicado = conhecimento”). Porém, divulgar críticas ao produtivismo, do jeito que muitas são feitas hoje, leva nossos alunos a desenvolver um trauma sobre a vida acadêmica, a ver com desgosto e antipatia a arte de produzir um artigo – um artigo pode ser bom, pode ser ótimo, pode ser muito inovador, e pode, sim, produzir conhecimento…

Para não me alongar mais (isto é um post, não um ensaio!), quero dizer o que penso sobre tudo isso:

1) Se o produtivismo está nos levando à imbecilização, o improdutivismo implício nas críticas geralmente feitas deveria ser, a meu ver, explicitado, numa relação de gente adulta: de que tipo deveria, então, ser a vida acadêmica? Deveríamos ser mais improdutivos (no sentido já aludido, de ócio, de direito à preguiça, de direito a fazer as coisas do nosso jeito, no nosso tempo)? O que entendemos por “improdutivo”?

2) A improdutividade significa, para além de tudo o que eu disse acima, variabilidade. Tanto é assim que podemos facilmente dizer quem é produtivo (pela métrica), mas definir alguém “improdutivo” é mais difuso, por mais que você pense que não, que seja fácil. Pois uma pessoa pode ser improdutiva para uma coisa, mas muito produtiva para outra;

3) Repetindo: produzir muito, academicamente, não é privilégio de nossa época. Pegue grandes tratados de filosofia, por exemplo, e você não vai encontrar ali poucas páginas. O leitor pode argumentar que, digamos, 3 mil páginas escritas por Espinoza são muito mais duráveis historicamente do que 100 artigos Qualis A1. Aí temos um critério de valor. Mas não há como negar que o trabalho acadêmico gera sofrimento, gera angústia, gera dilemas sobre a relação com o saber, e não há saber sem que este seja passado, materializado, objetivado num “produto” (pode ser um artigo, um livro, um aluno formado, etc. etc.);

4) A questão-chave para mim é a seguinte: se há a “liberdade individual”, se uma pessoa não pode ser impedida de NÃO publicar, se há, como diria Adam Smith, uma mão cega a guiar nosso egoísmo (ação moral), o ponto é: quais as consequências para o coletivo de uma série (homogênea/convergente) de ações individuais (no caso, tudo mundo correndo e se atropelando para publicar nos mesmos lugares, das mesmas formas, com os mesmos objetivos)? Quais “distorções” geram os comportamentos individuais não limitados (pois, de fato, não estamos numa ditadura)? E o inverso: que consequências surgem se deixarmos as pessoas em sua própria dinâmica, no seu próprio ritmo, na sua própria concepção sobre o que seja o mundo acadêmico e aquilo que ela deve dar em troca? No fundo, a velha luta entre o prescrito e o real…

Prefiro ouvir a falar (#38)

Mais uma vez, saindo do estilo de minhas indicações (majoritariamente, dos anos 80s). Mas vale a pena a interpretação. De onde tirei? Cena final de Defiance (s1e5).

Dia 23

Gosto de muitas coisas no mês de junho, em especial no Nordeste brasileiro, onde vivo no momento. A começar pelo fato de que é nesse mês, precisamente dia 23, hoje, que faço aniversário. Fazer aniversário é sempre algo magnífico. Já ao acordar você se sente agraciado. Dia desses uma aluna, em uma aula sobre a visão do cristianismo/protestantismo sobre o trabalho (primeiro, Santo Agostinho, depois, na Refoma, com Lutero e Calvino), lembrou-nos sobre a “teoria” da Graça. Para começo de conversa, não merecemos nada; Deus nos dá numa espécie de “voto de confiança”. Gosto dessa idéia. Gosto profundamente da ideia de que somos absolutamente nada, como seres humanos, apenas salvos pela Graça e recuperados pela Fé. Não sou mais religioso (já fui seminarista); mas isso ainda me afeta. Então, no dia de nosso aniversário, somos confrontados com esse fato metafísico: somos uma nulidade viva, podendo, no momento ao menos, desfrutar (não há palavra melhor!) a vida em sua simples ocorrência (não precisa de nada: festa, bebida, simbólico: é um fato que se impõe no silêncio mais absoluto: a vida).

Depois, há algo que gosto tanto quanto: vésperas do feriado (no Nordeste) de S. João. As maravilhosas festas juninas e, mais especialmente ainda, as fogueiras de S. João. Se você já esteve aqui no Nordeste nesse período, vai perceber. O cheiro de pinho queimado é simplesmente… indescritível. Não sei explicar ao certo de onde vem essa minha fascinação. E o cenário hoje é impecável, de meu ponto de vista: chuva e um cheiro de fumaça no ar – fraco, infelizmente, mas perceptível. O suficiente para me deixar extasiado. O cheiro me lembra algo de colonial, de rural, de campestre. Talvez tenha a ver com minha infância (sempre!), pois nasci e fui criado, até os 11 anos, no campo. O cheiro de madeira queimada, sob a noite disforme da cidade, me lembra de onde eu vim, de minha origem, por assim dizer. O campo é, para mim, sinônimo de retorno, de religação com algo absolutamente superior a mim. O campo é o retorno à natureza, o retorno ao barro de que sou feito. Para mim, o feriado de S. João é a coisa mais sublime, aquele momento esperado do ano. Mesmo que eu não vá (e não vou) às festas típicas aqui da região (bem diferentes das festas juninas do interior de SP, em geral, nas paróquias….que saudades!), eu vivo plenamente o “espírito da coisa”.

O cheiro das fogueiras entrando casa a dentro… sinto-me como se tivesse voltado a ser criança, quando o mundo era, paradoxalmente, pantanosamente complicado, opaco, um tijolo caindo na minha cabeça, mas repleto de possibilidades. Aliás, acho que só percebemos as possibilidades quando avançamos na vida, quando já optamos por muitas coisas, deixando, consequentemente, muitas outras para trás. O cheiro das fogueiras me lembra de certo ponto de centramento que perdi em alguma curva monótona da vida.

A madeira, a chuva, o fogo, a destruição ardente. O fogo é fantástico: ele transforma, ele engole, ele é uma força entrópica que nasce e morre em si mesma. Do fogo, de sua provação, nasce algum tipo de “virtude”. A destruição pelo fogo é, exceto nos casos lamentáveis de trajédias, sublime: o fogo nos mostra (junto a muitas outras ‘oportunidades’) que tudo é volátil, destrutível, provisório, leve, supérfluo. Por que o fogo é prova de virtude? Por que quem passa por ele alcança algum tipo de graça? Por que fênix ressuscita das cinzas? Renasce do fogo? O fogo é um portal, um meio de a energia sair de um estado para outro. O fogo é movimento. Transformação.

A verdade é que, dia 23, meu aniversário, às vésperas do dia de S. João, com as fogueiras a queimar, a chuva a cair, a sensação é de … felicidade.


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