Renúncia

Bento 16 anunciou sua renúncia ao pontificado. Para os mais de 1 bilhão de cristãos espalhados pelo mundo, surpresa: decerto, ninguém imaginava que um papa pudesse, tivesse a audácia, de abdicar de sua posição – a que pouquíssimos ao longo da história da Igreja alcançaram.

glamour da notícia tem a ver, é claro, com o fato de se tratar de um papa. Porém, todos os dias, mundo afora, pessoas renunciam, abrem mão de algo a que consideram importante e valoroso. A renúncia tem a ver precisamente com isso: com deixar algo que se considera importante. Em tese, ninguém renuncia o que gera desprazer, dor, sofrimento.

A renúncia tem a ver com um sujeito que se afirma, que escolhe; a renúncia pressupõe a liberdade, a autonomia. Uma relação entre a pessoa e o papel que desempenha. Foi Ratzinger que renunciou Bento 16. Pode tê-lo feito, como alguns analistas sugerem, para assegurar a permanência da centro-direita no comando da Igreja. Mas como renunciar ao que Deus nos legou como missão? Assumindo nossa fraqueza, nossa pequenez, nossa incapacidade? Mas, ao nos escolher, Deus já não sabia disso? Jesus não teria escolhido Pedro justamente por isso, por sua fraqueza, sua personalidade titubeante?

O ato de Ratziger me fez pensar no por que de nossas renúncias. Pois, como disse, não renunciamos o sofrimento, mas o prazer. Pois até conseguimos pensar no porquê de certas escolhas que fazemos (quero certa carreira para ter dinheiro; escolho casar porque amo…); mas qual o porquê da renúncia, do deixar para trás?

1) Renúncia como ato de auto-aniquilamento. Ratzinger, com seu gesto, mostra que papas podem, perante o mundo, assumir suas limitações, chamando a responsabilidade de outros mais “preparados”; mostra, ainda, que até mesmo missão dada por Deus pode ser “revista” (a misericórdia de Deus aceitando nosso lado “humano”). Com isso, Ratzinger assume-se menor que Bento 16. Abre espaço para outros, para um outro movimento histórico (a Igreja é maior que Ratzinger…);

2) Renúncia como recomeço: deixo tudo o que tenho para trás para recomeçar uma vida nova, em novo patamar. Veja-se o caso da renúncia de S. Francisco de Assis: renúncia à “vida terrena” em nome da vida eterna, a vida do espírito. De acordo com o que lemos na mídia, Ratzinger, após deixar o pontificado, vai “recolher-se” em oração num mosteiro no interior do Vaticano, “desaparecendo” da vida pública. A renúncia de um estado de coisas nos dá a possibilidade de reorganizar nossa vida;

3) Renúncia como um tipo de negação da vida. O estado máximo de renúncia é a própria morte. Pois, ao longo de nossa vida, vamos acumulando coisas ao nosso redor; renunciar a estas coisas é diminuir o peso dos próprios investimentos que fazemos na realidade. Renunciar simplifica a vida. O extremo da renúncia é quando abrimos mão de nossa própria vida. Ainda no terreno religioso, falamos dos mártires…

Não posso esconder que fiquei perplexo com a decisão de Ratzinger. Ao mesmo tempo, ela me inspirou a pensar – e o que pensei não se limita a isto que escrevi aqui. Por um breve instante, quero esquecer tudo o que li a respeito do episódio e, principalmente, as versões mais “inteligentes” de analistas, que buscam as “estratégias” ocultas, políticas, etc., levadas em conta por Ratzinger. Se calarmos por um instante essas vozes “savantes”, podemos pensar em muitas outras possibilidades de interpretar e aceitar o que fez Bento 16.

Sobre o amor

Estive em Assis (Assisi, em italiano), a cidade-natal de São Francisco (de Assis…). A pequena cidadezinha é absolutamente maravilhosa. Li em algum lugar que “há pouco a fazer ou a ver em Assis”, mas discordo completamente: a vista é repleta de reflexão; a cidade é silenciosa, mas de um silêncio particular, que nos chama, nos convoca na verdade, a pensar. Claro que, para isso, é preciso superar o tempo presente: é preciso, por exemplo, esquecer ou abstrair o fato de a pequena cidade ter sido capitalizada pelo turismo, e de que você se esbarra, a todo momento, com gente de todo canto em busca de seus “15 segundos de flash”. Mas tudo isso é, com um certo esforço, superável.

Assis é uma “típica” cidade medieval; é cercada por uma muralha, e dá-se a impressão de que, desde sua fundação, ela já nasceu com vocação para o distanciamento, para o afastamento contemplativo. As casas são feitas, literalmente, de pedra, e logo se vê que não vieram para durar pouco. Por toda a parte, encontram-se franciscanos (refiro-me aos irmãos), mais de 800 anos depois da morte de S. Francisco, repetindo e seguindo seus passos: no refúgio da cidade, rezam pelo mundo…(inclusive uma pessoa que, mesmo sem ser frade, perambula pelas ruas com uma “missão penitencial pessoal”, o carismático Massimo Coppo!).

Fotos de Ila (minha esposa) e minhas

Arquitetura à parte, saí de Assis com uma certa dúvida sobre em que consistiria o amor a que tanto fez referência S. Francisco de Assis. Pensei em coisas como estas: seriam os frades, os franciscanos e beneditinos, as irmãs clarissas (não sei se é assim que são chamadas, as adeptas de S. Clara, também imortalizada na cidade), “negadores” da vida, no sentido de que, em estando em Assis, afastam-se da necessidade, pesada e muito presente, de amar no cotidiano, o cotidiano, com toda sua confluência de impedimentos? Seria mais plausível amar à distância, por assim dizer, do que do coração da vida corriqueira? Qual o objeto do amor, qual seu propósito? Amar no (ou do) desprendimento?

Saí de Assis com a sensação de que a experiência induzida em mim por essa cidade precisa de algum nível de generalização, precisa ser transportada de lá para o resto do mundo e para as outras contingências de nossas vidas. É possível “amar” sem a bela e abundante visão dos vales da Úmbria, onde está localizada a pequena cidade? Seria possível amar de dentro de um carro apertado, no engarrafamento de uma grande cidade como S. Paulo,por exemplo? Seria possível amar SEM um objeto definido? Por exemplo, amar a mulher com a qual você está (ou o homem) pelo fato de amar, verbo intransitivo? Amar sem esperar nada em troca (como falou S. Francisco… e tantos outros antes e depois dele), perdoar sem esperar nada em troca, simplesmente deixar-se, entregar-se ao mundo e à sua maravilha (como criação de Deus, na perspectiva cristã)?

Não tenho respostas para nenhuma das questões. Nem do porquê elas vieram a mim, exceto pela minha “exposição” (em elevadíssimo bom sentido) à Assis. Acho que tudo estaria resolvido se, simplesmente, a própria cidade de Assis “se internalizasse” em mim – mas nossa dependência do lugar não é desprezível. Talvez seja por isso que muitos monges/frades não saiam de suas selas, fiquem a olhar para o horizonte, para o “desvelar da criação”, daí voltando novamente para dentro de si-mesmos. Ou talvez eu esteja subestimando a experiência religiosa…e haveria formas mais sutis de transcendência na vida cotidiana. Sem essa transcendência (que você, mesmo sem grandes “treinos” em meditação ou algo que o valha, consegue em Assis!), a vida cotidiana assume talvez sua principal característica: a total falta de sentido/propósito.

Amamos, na vida cotidiana, desde que tenhamos um objeto para este amor: eu te amo se você me amar de volta; faço-te algo se você me der algo em troca; ou faço-te coisas para que você não faça outras para mim…A vida cotidiana, em geral, reflete a “ontologia de um ser social” que é, no fundo, um ser econômico, calculador, instrumental, IMANENTE. Por mais que se fale em “mercado futuro” (na bolsa de valores…), a economia é bastante imanente…só que, ao mesmo tempo em que isso a torna desprovida de grande valor “místico” (o sentido da vida não está, decerto, na economia, ou não deveria estar, contra qualquer bom senso antropológico), ela reflete o que somos na modernidade. E nada mais avesso à Assis. Só um último exemplo: em Assis, cobrar para entrar numa igreja, para conseguir recursos (como nos museus, que vendem coisas para arrancar dinheiro das pessoas), é uma contradição METAFÍSICA!

Seja como for, Assis é mais do que um simples destino num guia de turismo; para mim, Assis foi uma verdadeira experiência religiosa, mas sem religião, se é que me entendem…

Cultura da criança

“A família brasileira não lê. Nós temos a internet que pode ser a fonte da vida e do conhecimento, mas o computador é usado como brinquedo. Muitos pais não percebem, mas seus filhos se tornaram idiotas”

A frase acima foi dita por Ziraldo ao UOL, por ocasião da Bienal do Livro que acontece neste instante em SP. O pai do “garoto maluquinho” acerta ao identificar a parte de um fenômeno bem mais profundo. Na frase, está contida a ideia de que os filhos, por cada vez mais não saberem ler, estão destinados, para ganhar a vida, a jogar futebol ou então a lutar no UFC.

Analogias ou metáforas à parte, há uma outra parte do mesmo fenômeno, interligada com esta. Os pais fazem dos filhos o centro de suas vidas. Talvez, pelo fato de terem vivido num período de transição (daquela época em que criança tinha lugar de criança para uma época em que os pais, movidos por culpa, querem dar à criança tudo o que não tiveram), esses pais não saibam, não queiram ou simplesmente não consigam tirar seus rebentos de seu foco primário de atenção, perdendo, inclusive, para o trabalho (aliás, um grande “adversário” da família é justamente o trabalho…veja o caso crescente de jovens que optam por não terem filhos ou os adiarem até “se estabilizaram na carreira” – ou entrarem num concurso público!).

Nossa sociedade parece, de mais e mais, uma sociedade voltada para as crianças, para o “futuro e a esperança”, como se diz frequentemente em relação às crianças. Nossa vida social está se tornando tão ridícula que “a melhor parte de nós” é devotada aos filhos – isto é, o sujeito, ao ter para si que está cuidando bem de seus filhos, sente-se que alcançou uma espécie de “glória” terrena, mesmo com todos os sofrimentos implicados em ter um filho. Bom, há quem diga que ter um filho é o gesto máximo de altruísmo. Eis aí uma coisa que ninguém vai me convencer a acreditar!

Com a falência ou, sendo otimista (ou polido), com a mutação do significado de “viver juntos em sociedade”, os projetos ou ideais de construção da subjetividade voltam-se, mais uma vez, para a esfera privada, aquela da criação dos filhos. A criação destes, e as fantasias envolvidas, passam a nutrir a própria união dos casais, que muitas vezes já não têm mais outra fonte de contato entre si que não essa (pois já faz tempo que o casamento deixou de ser uma obrigação moral). Filhos tornam-se, paradoxalmente, mediadores e motivos de uniões e separações. Alguém pode dizer que um filho é “trans” casamento: larga-se do esposo/mulher mas os filhos continuarão a ser filhos…

A questão é que mimamos nossos filhos em exagero. Infantilizamos nossos filhos, mesmo quando já adultos. Estamos criando uma sociedade de imbecis, adultos mimados, dependentes, com dificuldade de lidar com o sofrimento, incapazes de assumir algo que seja um pouco maior do que seus egos paparicados. Visite um shopping no final de semana e vai entender: ou você vê “famílias” (leia-se, pais e filhos) curtindo as vitrines e as “alamedas de serviços”, ou você vê casaizinhos felizes, adolescentes, vivendo seu momento de fantasia às custas dos pais, em casa (e “felizes e aliviados”, por saberem que seus filhos estão “seguros” no shopping).

Minha dúvida é: o que fazem as duas principais “instituições” responsáveis pela transição para a vida adulta, universidades e organizações de trabalho? Quem me responde?

Em uma coluna sua recente, Contardo Calligaris nos ajuda a pensar em possíveis respostas (ou em mais dúvidas!…)

Egocentrismo e infantilização

Inspirado por coluna recente do filósofo Paulo Ghiraldelli, a qual recomendo que o leitor leia antes de ler este post, escrevo algumas idéias sobre a relação entre egocentrismo e infantilização no desenvolvimento cognitivo (e moral) de certa juventude contemporânea…

Egocentrismo, em matéria de desenvolvimento cognitivo e mesmo moral, consiste em a pessoa colocar as referências de seu pensamento nela própria, nas questões que ela, a partir de sua percepção pessoal, julga que é o certo e o valioso. Em termos culturais, o egocentrista cognitivo tem dificuldade de interagir com o ‘outro generalizado’ da cultura. Não é por menos que, nos dias de hoje, proliferam as redes sociais, pois nelas tudo o que acontece é um grande monólogo assistido por ‘colegas virtuais’.

Em termos de percepção, o egocentrista não consegue ir muito longe de sua própria pele. Obviamente, muito de nosso conhecimento provém de nossas experiências, o que alguns estudiosos chamam de ‘first order experience’, quando vivenciamos uma situação dentro dos limites existenciais que, não obstante estejamos num contexto sociocultural, podemos (ou pretensamente pensamos) chamar de nosso, afinal, quem sente um cheiro somos nós (com nosso equipamento olfativo), quem vê uma outra pessoa somos nós (com nosso equipamento viso-perceptivo), quem ‘sente’ uma dor, uma emoção, etc., somos nós (por meio de nossos aparatos psicomotores, psicofísicos e assim por diante).

Contudo, há algo no pensamento que nos obriga a sair de nós próprios, em certo sentido. O pensamento é profundamente marcado pela semiótica do outro – pensamos com as ‘vozes’ de outros. Nossa linguagem ‘privada’, como demonstrou Wittgenstein, é uma grande ficção: a linguagem (essa matéria-prima essencial com a qual nos constituímos como sujeitos) é inteiramente social. O que ocorre é que nos apropriamos da linguagem em sua faceta social, devolvendo a esse mesmo ‘social’ uma estilização própria, a qual será, então, utilizada por outros como equipamento cultural. Mas, quando se é um egocentrista, não se consegue discernir o que há do outro em seu próprio pensamento, e então este é confundido como sendo algo brilhantemente inédito. Como consequência, e numa imagem, é como se a pessoa fosse como uma Idade Média ambulante, acreditando que ela é o centro do universo (ainda que, moralmente, publicamente, não assuma isso).

Muitas pessoas não conseguem ir além delas próprias. Quando são chamadas a falar em ‘terceira pessoa’, simplesmente embrutecem, ficam de ‘bico’, como uma criança. Aliás, a criança, egocêntrica por natureza (Piaget explicou isto), não consegue, cognitivamente, discernir ela e o outro – a partir do ‘eu’, generaliza o mundo que é, na verdade, uma espécie de projeção de seu mundo, e não do mundo mais amplo, marcado pela alteridade. Adultas, estas pessoas tendem a tomar o mundo delas como a medida de todas as coisas; tendem a julgar e a medir o mundo a partir de questões que são pessoais, no sentido mais egocêntrico do termo. Por meio de uma metonímia, confundem a parte pelo todo. Isso porque são, em geral, incapazes de empatia com o outro, incapazes mesmo de se verem a si próprias com outro olhar que não o seu olhar egocêntrico.

Ainda em termos cognitivos, e pensando no contexto de sala de aula, o jovem egocêntrico, muitas vezes desassistido por seus professores (eles também fruto de geração egocêntrica), não consegue desenvolver a capacidade de articular as idéias de outros (os autores). Não conseguem mergulhar em sistemas de pensamento e entender de que se trata tal sistema. Em vez disso, repetem alguns bordões, algumas leituras de orelha-de-livro, e nem isto muitas vezes fazem bem. Acometidos de dificuldades básicas de escrita e pensamento (problemas no ensino médio?), não conseguem redigir um texto escrito para um outro capaz de lê-lo (no caso, o professor). E, provando da surpreendente infantilização de nossa época, questionam a ‘capacidade didática’ do professor: se eu não consigo entender um autor, articular ideias, redigir um texto coerente, etc., a culpa só pode ser do professor. Isso lembra muito certa perversidade de filhos agindo na janela de culpa dos próprios pais, graças a qual conseguem muitas de suas conquistas. Ambos, professores e alunos, são igualmente responsáveis pelo processo de ensino-aprendizagem.

O aspecto que mais me chamou a atenção na reflexão de Ghiraldelli é de que nem o trabalho está mais cumprindo seu papel de passagem à vida adulta. Pois, de fato, o que é ser adulto? Na nossa imagem ocidental ‘clássica’, duas coisas principais ‘transformam’ alguém em adulto: o trabalho e a constituição de família. Por que o trabalho nos tornaria adultos? Primeiro, pelas responsabilidades que ele exige de nós; depois, porque, no trabalho, somos continuamente confrontados com nossos limites e incapacidades, e a elas temos de reagir, em vez de corrermos para debaixo da saida de nossos pais. No trabalho, além disso, somos colocados diante de conflitos sociais de ordem bastante séria, como a divisão de pessoas conforme o quanto ‘contribuem’ para a sociedade (o que culmina, entre outras coisas, na divisão de classes). O trabalho é, em certo sentido, o lugar do confronto, do embate, da imposição de si e da dominação.

Ora, quando o trabalho não cumpre seu papel de “civilizar as crianças” (em sentido amplo), o que pensar da própria educação, a qual, em nossa sociedade, acaba se justificando em nome do trabalho? Professores dizem: “Olha, vocês devem tratar a situação de sala de aula como um trabalho, pois lá, no trabalho, não vai ser moleza não!”. Será verdade? Será que nossos alunos, quando não estão muito a fim de levar a sério uma aula (pois seu interesse é no diploma), eles estão arriscando seu futuro? Qual futuro? Um futuro num mercado de trabalho igualmente infantilizado? (Uma prova disso: a abundância de literatura de auto-ajuda que existe hoje nos contextos corporativos, e certa cultura de “pragmatismo”, que desvaloriza a reflexão e coloca, cada vez mais, o peso decisivo de tudo nos “resultados”, não importa como são obtidos!).

Um pouco mais de reflexão sobre este assunto pode ser encontrado aqui.

Desconfiança

A prática cotidiana da observação (ou projeção, poderia sugerir um psicanalista) da vida em coletividades tem me levado a desenvolver uma profunda desconfiança (há, com certeza, exceções, mas não vou me ater a elas neste relato) em relação a:

1) Pessoas que dizem que estão ‘sem tempo’ porque estão ‘trabalhando muito’, que o trabalho lhes ‘consome a vida’, que ‘temos de rever’ esta ‘perversidade’ das organizações no mundo de hoje, sempre a nos exigir mais e mais engajamento, mais e mais trabalho, atividades, etc.

1.1) Ao falar dessa maneira, penso que tais pessoas têm é muito tempo para si, e criam tais racionalizações para colocar um paliativo sobre sua inércia, ou então para justificar, para elas próprias, a impossibilidade de desenvolverem um patamar de atividade que desejam em seu íntimo;

1.2.) Alternativamente, existem pessoas que, de fato, trabalham muito – e, neste caso, quando elas falam sobre isso, talvez seja porque não querem, no fundo, trabalhar tanto, mas criticam, denunciam para um “outro generalizado” essa sua incapacidade de controlar a própria vida, de colocar-se limites.

A) Acredito que, quem trabalha bastante, mas está de bem consigo mesmo em relação a isso, não fica, qual um ‘profeta’, a dizer o que as outras pessoas deveriam fazer. Para mim, há um cheiro de forte conservadorismo nisso, a tentativa de manter uma espécie de status quo pessoal, o autoritário desejo de regular a vida dos outros ou então de fazer sermão, ou ainda um monólogo consigo própria – quando imagina que está acrescentando algo de novo a uma conversa.

2) Pessoas que critiam o ‘produtivismo’ acadêmico, que denunciam a ‘cooptação capitalista’ de pesquisadores em relação à quantidade (em detrimento da qualidade). Claro que, neste caso, estou me referindo à categoria de docentes/pesquisadores, onde tais queixas e ‘críticas’ são comuns.

2.1.) Ao falar desta maneira, vale, penso eu, o mesmo princípio de 1.1.: elas estão dizendo isso para si próprias, estão tentando racionalizar sua própria baixa produção ou, então, estão tentando dizer a elas mesmas que estão fazendo uma coisa sem saber direito porquê – e que, no fundo, não acham certo. Ou, caso mais conspiratório, estão tentando convencer os outros a produzir menos – enquanto elas continuam a surfar nos ‘mega-n’ publicados. Conheço um punhado de gente que publica bastante (inclusive internacionalmente) e, aqui entre nós, fica escrevendo ‘ensaios críticos’ contra o produtivismo;

2.2.) Novamente, num tom conservador e autoritário implícito, tentam, com seu discurso, ventilar uma idéia de ciência e de profissão que é, no fundo, delas, não necessariamente das outras pessoas. Quantitade é, sim, possível com qualidade, pois há (desculpem a redundância) pessoas e pessoas.

B) Eu acho que, quem quer produzir, que produza; se isto que está fazendo é ‘quantitativismo vazio’, problema de quem está fazendo. Não consigo imaginar reais pesquisadores, gente que, efetivamente, contribui para o seu ofício (é óbvio que todo mundo não contribui da mesma maneira…e, sem ser polido/hipócrita, há quem não contribua, pronto!), ficar criticando que ‘estão produzindo muito’. A questão é outra. Como se diz, o furo é bem mais embaixo. Imaginem alguém contemporâneo a Freud dizendo, por Viena afora (como uma Maria chorona): “Nossa, a vida é mais do que ficar escrevendo o dia inteiro” (pois Freud devia escrever muito ao longo de um dia…).

3) Pessoas que dizem que ‘há coisas mais importantes na vida’ do que o trabalho, que este não é nada exceto uma forma de ganhar a vida (e não de ‘perdê-la’), que devemos ‘olhar mais a lua e as estrelas’, que devemos ‘ficar com quem amamos’, que devemos encontrar outras ‘prioridades na vida’, balanceando mais as coisas.

3.1.) Quem diz isso pode, no fundo, não gostar muito de trabalhar (não há nenhum problema nisto, afinal, o embate entre ‘princípio de prazer’ e ‘princípio de realidade’ é quase algo “constitutivo” do ser humano), ou então não entende nada sobre seu papel na vida de algumas pessoas. São grandes metafísicos enrustidos, pois devem ter algum critério substantivo para dizer o que é ou não ‘importante verdadeiramente’ na vida. São cristãos disfarçados, sem o saber. Caso tivessem algo mais substancial a dizer, o diriam, em vez de repetir bordões criados pela mídia e pelas revistas de auto-ajuda;

3.2) Novamente, podem, inconscientemente, estar dizendo a si próprias que não deveriam trabalhar tanto, ou então que não há problema, perante seu próprio superego, de não trabalhar tanto, ou de trabalhar ineficientemente ou (para ficar com um termo menos ‘capitalista’) de uma forma que seu próprio ritmo pessoal estabeleceria se pudesse.

C) Acho que cada um estabelece o que é prioridade e importante em sua vida. Vivemos numa sociedade relativamente pacificada, cujas fronteiras nos permitem, relativamente, pensar em coisas ligadas a nosso cotidiano (como as três que menciono aqui) – se é assim, se não vivemos em uma sociedade totalitária, metafísica, ideal, então cada vida se justifica por si, mesmo que esta vida esteja imersa dentro de um contexto social, econômico, histórico. A babozeira de que a ‘história sabe mais do que nós’ nos coloca na boca palavras vazias, discursos ocos, como os que destaquei acima.

Moral da história: viva e deixe viver. Não vale a pena brigar com o mundo e com as outras pessoas. Vale muito mais a pena tentar pensar consigo mesmo o que é válido e valioso para você. Uma vez descoberto, é sustentar isso, com todas suas consequencias, na vida social, na vida pública. Repito: não vivemos um “estado de exceção”: vivemos com relativa tranquilidade, em nossos pequenos feudos protegidos. Então, por que travar guerras contra pessoas que, a rigor, não estão nem aí para nós?

Força de vontade

1.  Força de vontade, em nossa cultura, é frequentemente associado a coisas como perder peso, deixar de fumar, conquistar um sonho/objetivo, vencer no esporte; ou seja, associado à mudança de hábitos e a ideais a serem conquistados, a limites a serem superados (especialmente, limites pessoais, individualistas);

2. O mesmo se pode dizer do uso da expressão ‘força de vontade’ aplicada a casos em que não faríamos determinada coisa se não fosse por um ato de vontade, um ato contrário a alguma força de natureza desconhecida mas que nos faz fazer algo que, conscientemente, não faríamos. Neste sentido, ter força de vontade diz respeito ao sujeito moral, àquele que é responsável por seus atos;

3. Força de vontade, novamente em nossa cultura ocidental, está associado à ‘força’ em sentido mais estrito: força fisiológica. Neste caso, ter força de vontade é ser, fisiologicamente, capaz de lançar-se em um determinado curso de ação sustentado pelo corpo biológico (se estou relativamente em forma, sou capaz de perpetuar uma ‘força’ que, de outra forma, não conseguiria). Isto lembra aquelas propagandas de vitamina C, em que a pessoa que usufrui da mesma consegue enfrentar, com ‘vontade’, um dia pesado;

4. De algum modo, há uma relação tensa entre vontade e desejo: enquanto este vai por si, aquela precisa ser desenvolvida, sustentada, mantida (fala-se, por exemplo, “Eu tenho vontade de”…, mas isto seria mais corretamente dito como “Tenho desejo de…” [embora se guarde aqui alguma conotação sexual e, portanto, se opte pela primeira alternativa]). Talvez seja (em parte) por isso que o tema é debatido em filosofia moral;

5. E quanto à vontade em sentido mais cotidiano? O que você faz quando não está com ‘vontade’ de sorrir, de conversar com uma pessoa qualquer? Quanto, num evento coletivo (uma aula, uma reunião, etc.), prefere ‘deixar passar’, sem sentir-se com ‘vontade’ de defender seu ponto de vista (admitindo que você conheça e tenha um ponto de vista ao qual se pode chamar de seu)?

6. A apatia, a acédia, a preguiça, o torpor da inação, o deixar-se levar não apenas pelo fluxo do próprio pensamento (inverso à ação, neste caso), da situação, da atividade, do evento coletivo a se desdobrar na sua frente. Penso que isso ocorre, afora razões de ordem psicológica, pelo fato de estarmos imersos em muitas situações sem sentido, desconectadas de aspectos mais amplos e profundos de nossa existência. Vivemos, muitas vezes, apenas encenações que não demandam de nós uma ‘força de vontade’ eticamente necessária. Não seria muito chato ter ‘força de vontade’ em qualquer momento? Um ativismo sem fundamento, sem finalidade, absorto em 4 paredes?

7. É impressionante, pois, a cada ato seu que não é assentado em alguma vontade, é o fluxo do mundo, das pessoas e das coisas, do tempo em suma, que se impõe; é a fisiologia que se desdobra – somos pura fisiologia na ausência da vontade. É claro que esta última, a fisiologia, tem vontade própria. Em certo sentido, foi isso que Schopenhauer nomeou de a ‘vontade da natureza’, essa força cega, mas absurdamente forte e insistente, logo depois chamada de pulsão de morte por Freud. A vida, a fisiologia, tende a buscar sua perpetuação; sua ‘força de vontade’ é descomunal. Schopenhauer era um ‘desconfiado’ da vontade;

8. De onde vem a vontade? Não é, decerto, a ‘motivação’ do pensamento gerencial moderno, impregnado e imbecilizante (pois é óbvio que, ao não se ter vontade na empresa, a mais valia não é extraída – no mundo público, exceto em alguns casos de ambição pessoal, a falta de vontade é absurda, pois muitas pessoas, ao terem sua vida material resolvida, simplesmente exibem, para si e para os outros, que sua vida perdeu o sentido, virou um deserto, preenchido com pequenos consumos); a vontade vem…bom, isto é assunto para outro post, em algum momento.

Economia criativa em São Paulo

Acaba de sair um relatório bem completo e interessante da Prefeitura paulista sobre as indústrias criativas na cidade de São Paulo (“Economia criativa na cidade de São Paulo: Diagnóstico e potencialidade). São dados recentes e animadores sobre o setor. Os interessados podem acessá-lo aqui.

Aperto de mãos (março 2012)

O que significa este aperto de mãos? Dois presidentes, 16 anos da história contemporânea do Brasil. Gosto muito de pensar nos gestos particulares que remetem a conjunturas bem além. Não se trata de um mero aperto de mãos de dois indivíduos; há muita história entre esse aperto de mãos. Semioticamente, plenamente carregado. Obviamente, não destaco o momento do aperto de mãos (março, atual conjuntura); olhe através do aperto em questão: veja o passado, imagine o futuro. Acho que este gesto é um nano-episódio de nossa história (repito: desde que você olhe além do imediatismo do gesto).


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