Focas e bestas

Uma vez eu li um livro no qual o autor, que discutia sobre “ética animal”, propunha a existência de três tipos de posturas éticas em relação animais: (1) há aquela pessoa que NUNCA sentiu nada pelos animais, tratando-os como objetos indiferentes; (2) há pessoas que têm dentro si uma sensibilidade adormecida: basta um pouco de reflexão ou de estímulo para fazerem despertar seu respeito e sentimentos pelos animais; (3) há aquelas que SEMPRE, desde quando saíram do berço, sentem algo pelos animais.

Hoje vi este filme abaixo. Imediatamente, fiquei imaginando os covardes matando esses bichos. E, sabemos, o fazem da forma mais cruel possível. Acho que a razão traz consigo responsabilidades: SABEMOS, ou deveríamos, que torturar os animais e matá-los é uma atrocidade. Sabemos disso, não há dúvida. Mas, claro, o conservador que me lê pode pensar: ué, mas deveríamos também saber que maltratar uma criança, matar outro ser humano, roubar ou coisa que o valha, são atividades inaceitáveis, pois desestruturam o equilíbrio social e fazem os outros sofrerem. Mas, há uma diferença: trata-se de seres humanos racionais, cientes do que estão fazendo (exceto o psicopata mais doente). Nossa relação com os animais é diferente: eles não têm razão, eles não compartilham conosco o mesmo campo ético; mas, ao mesmo tempo, e por conta justamente disso, merecem nosso respeito – pois temos possibilidade de escolha.

Aos covardes do mundo que fazem mal aos animais, aos conservadores mais desalmados, lamento fazer parte da mesma espécie que vocês! Eu me envergonho de dividir o mesmo “dom” da racionalidade que vocês.

Quanto vale um pardal?

Uma metáfora muito forte, que comove a todos ou que mobiliza nossos afetos mais ocultos, é a de um pássaro sendo solto de uma gaiola. Ver o animal voar, depois de ter sua liberdade tolhida ou mutilada, é algo com o qual nos identificamos – afinal, também somos, sob muitos aspectos, criaturas cativas.

Hoje pela manhã tive essa sensação atualizada. E em circunstâncias especiais: estava passeando com minhas duas cachorras em uma praça pública perto de minha casa. Acidentalmente, quando passava debaixo de uma árvore, notei que havia um passarinho (um pardal) preso por uma das pernas. Quando prestei mais atenção, percebi que ele não estava preso por puro acaso ou acidente: ele havia sido preso ao galho por uma linha – na verdade, praticamente por um novelo inteiro de linha!

Imediatamente, subi em um banco, quebrei o galho e comecei uma dolorosa (para mim) tentativa de libertar o passarinho. Ele havia sido efetivamente bem preso: foi passada em torno de todos seus pequenos dedinhos uma linha que os prendia ao galho. Cortei o feixe principal de linhas e fui, ao longo de uns 20 minutos, soltando uma-a-uma, até que finalmente consegui o livrar das amarras. E, claro, esse momento foi muito gratificante, pois, ao soltá-lo, ele voltou imediatamente a voar. Mais impressionante, durante todo o tempo em que fiquei me esforçando para libertá-lo, ele ficou imóvel, como que agradecido. Não há nada que pague isso.

O que fez alguém fazer aquilo? Minha primeira hipótese é de que se tratava de uma atividade popularmente conhecida como “macumba”. A segunda hipótese é de que se tratou de algum exercício de maldade, no seu estado mais puro. Num caso como no outro, creio que posso usar a palavra “mal”. E não a uso em sentido religioso, mas em sentido prático: no sentido de uma ação cuja motivação é fútil ou extremamente egoísta, maquiavélica, desprezível.

Sei que podemos olhar a realidade de muitas formas. Para muita gente, o que importa é atentar-se ao que é “útil” para os seres humanos: por exemplo, fatores macro-econômicos, política, taxa de emprego, saúde e educação. Não discordo. Porém, se colocarmos um “zoom” nas práticas cotidianas mais imperceptíveis, vamos ver que muito da natureza humana se deixa revelar aí – alguém que faz isso com um pardal, que, não fosse a sorte de eu tê-lo visto, a esta hora estaria ainda lá se debatendo para escapar (o que dificilmente iria acontecer), será com certeza conivente ou apático a tudo o que diga respeito às outras esferas da vida em sociedade. O mal, o desprezível, a ignorância, a crueldade, a covardia, a mesquinharia, tudo isso acontece, antes e acima de tudo, nesses pequenos micro-gestos, mergulhados no caldo de nosso cotidiano e desprovidos de qualquer conteúdo ético mínimo.

Vergonha diante da Itália (shame in face of Italy)

O episódio surreal da decisão de libertar Cesare Battisti deixou muitos brasileiros profundamente envergonhados. É provável que nem todo mundo esteja a par do ocorrido, nem, por esse motivo, conscientes da injustiça cometida contra a Itália. Sob o disparate de afirmar que a decisão levou em conta a “soberania nacional”, alimentamos uma mentira coletiva que, certamente, não corresponde senão às nossas instituições e às pessoas que as comandam. Gostaria que os italianos soubessem que a sociedade civil brasileira se solidariza com eles e não é, de forma alguma, conivente com assassinos nem, muito menos, com certa idéia propagada, segundo a qual no Brasil os espertos se dão bem…

Mensagem aos leitores italianos que por ventura passem por aqui:

I would like to send a message to the Italians. I would like you know that we Brazilians, as a Civil Socity, are deeply embarrassed by the decision made ​​by our institutions concerning the non-extradition the murderer Cesare Battisti to Italy. We are very sorry for this, and remain confident that justice will be done.

Animais [por Voltaire]

Que néscio é afirmar que os animais são máquinas privadas do conhecimento e de sentidos, agindo sempre de igual modo, e que não aprendem nada, não se aperfeiçoam, etc.!

Pode lá ser… Então esse pardalzinho que constrói o ninho em semicírculo quando o prende a uma parede, que o constrói num quarto de círculo quando o faz num ângulo e em um círculo num ramo de árvore – faz tudo de igual modo? O cão que ensinaste a obedecer-te durante três meses não estará a saber mais ao cabo desse período do que sabia no início das lições? O canário a quem tentas ensinar uma melodia repete-a logo no mesmo instante, ou não, levarás um certo tempo a fazer-lha decorar? E não reparaste como se engana, com frequência, e vai corrigindo depois?
É só por eu ser dotado de fala que julgas que tenho sentimentos, memória, ideias? Pois bem, não te direi nada; mas vês-me entrar em casa com um ar preocupado, aflito, andar a procurar um papel qualquer com nervosismo, abrir a secretária onde me recorda tê-lo guardado, encontrá-lo afinal, lê-lo jubilosamente. Calculas que passei de um sentimento de aflição para outro de prazer, que sou possuidor de memória e conhecimento.
Transfere agora teu raciocínio, por comparação, para aquele cão que se perdeu do dono, que o procura por todos os lados soltando latidos dolorosos, que entra em casa, agitado, inquieto, que sobe e que desce, percorre as casas, umas após outros, até que acaba, finalmente, por encontrar o dono de que tanto gosta no gabinete dele e ali lhe manifesta a sua alegria pela ternura dos latidos, em pródigas carícias.
Algumas criaturas bárbaras, agarram nesse cão, que excede o homem em sentimentos de amizade; pregam-no numa mesa, dissecam-no vivo ainda, para te mostrarem as veias mesentéricas. Encontras neles todos os órgãos das sensações que também existem em ti. Atreve-te agora a argumentar, se és capaz, que a natureza colocou todos estes instrumentos do sentimento no animal, para que ele não possa sentir? Dispõe de nervos para manter-se impassível? Que nem te ocorra tão impertinente contradição da natureza.
Mas os mestres-escola perguntam o que é e onde está a alma dos animais? Não entendo tal pergunta. Uma árvore tem a faculdade de receber nas suas fibras a seiva que nelas circula, de desabrochar os botões e criar seus frutos; e ainda me haveis de perguntar o que é a alma dessa árvore? Esta beneficiou de alguns dons, como o animal beneficiou doutros, dons do sentimento, da memória, de um certo número de ideias. Quem criou todos estes dons? Quem lhes concedeu todas essas faculdades? Aquele que faz crescer a erva nos campos e gravitar a Terra à roda do Sol.
As almas dos animais são formas substanciais, afirmou Aristóteles; e, depois de Aristóteles a escola árabe; e, depois da escola árabe, a escola angélica; e, depois da escola angélica, a Sorbonne; e, depois da Sorbonne, mais ninguém no mundo.

As almas dos animais são materiais, proclamam outros filósofos. Mas também não tem tido mais sucesso que os primeiros. Foi sempre em vão que se lhes perguntou o que é uma alma material; viram-se forçados a convir que é matéria passível de sensações: mas quem foi que lha deu? É uma alma material, isto é, trata-se de matéria que dá sensações à matéria; e não saem deste círculo vicioso.

Escutai agora outros animais discutindo acerca de animais; a alma destes é um ser espiritual que morre com o corpo: mas que provas tendes disto? Que ideia fazeis desse ser espiritual que, com efeito, experimenta sentimentos e sensações, memória, e a sua dose de ideias e de combinações de ideias, mas que nunca poderá vir a saber o que é uma criança de seis anos? Em que base imaginais que esse ser, que não tem corpo, pareça com o corpo? Mas, de todos, os maiores animais ainda foram aqueles que afirmaram que a tal alma não é corpo nem espírito. Que rico sistema! Só podemos encarar como espírito algo de desconhecido que não é o corpo; logo o sistema destes cavalheiros vem a dar nisto: a alma dos animais é uma substância que não é corpo nem outra coisa qualquer que seja menos ainda que um corpo.
Qual a origem de tantos e tão contraditórios despautérios? Do hábito que os homens sempre tiveram de examinar e definir o que é uma coisa, antes de saberem se ela existe. Costuma chamar-se à lingueta, que é a válvula dum fole, a alma do fole. Que alma vem a ser esta? Apenas um nome que dei a essa válvula, que desce, sobre, deixa entrar o ar e impele-o para um canudo, quando aperto o fole. Ali não há, pois, alma nenhuma distinta do instrumento. Mas quem faz mover a válvula dos animais? Já vo-lo disse, aquele que faz mover os astros. O filósofo que afirmou Deus est anima brutorum (2) tinha razão; mas não devia ter ficado por aí.

Autor: Voltaire.

Show de horrores

Já faz muito tempo que organizações não-governamentais denunciam a brutalidade com que os animais são tratados pelo ser humano. Um amigo meu, inclusive, costumava dizer que, se conseguíssemos mudar nossa forma de tratar os animais, conseguiríamos mudar até mesmo parte dos nossos relacionamentos com nossos membros de espécie (por exemplo, por que alguém chama outra pessoa de “aquele porco!”, ou “aquela vaca!” – sendo este último algo muito depreciativo).

Na quase infinita série de exemplos de brutalidade contra os animais, destaco a que vi hoje. Uma cadela, no RS, foi mutilada viva num ritual de magia negra.

Ok, como seres humanos, temos “mais com que nos preocuparmos” do que com isso. Veja-se os maus-tratos contra as mulheres, as crianças, os abandonados. Sim, com certeza temos muito a nos envergonhar nesse campo da moral. Porém, menos evidentes são os maus-tratos contra os animais, pois eles, como poderia nos dizer Heidegger, já passaram para o lado das “coisas”, sendo tratados como tais.

Acho que podemos ponderar sobre o caráter de uma pessoa dependendo de como ela trata os animais. Para mim, quanto mais brutal uma sociedade, mais brutais serão os tratamentos dispensados aos animais. Não tenho estatísticas, mas penso que a sociedade brasileira não é a das melhores nesta matéria.

Mas, dentre toda estupidez, esta de sacrificar animais é das piores. Parece que não tem fim a ignorância humana. Não tem fim essa falta de juízo ético, ou então essa tendência a “ser ético” (mentira…mas pelo menos as pessoas se enganam bem com isto!) apenas com o pequeno círculo de amigos e “camaradas” (óbvio: da mesma espécie!).

Obs.: a foto acima, Companheiros, faz parte da galeria ToucanArt.

Glenn Gould, solidão e isolamento

Hoje me veio à memória um filme a que assisti ano passado sobre o pianista canadense Glenn Gould. O nome do filme é “Trinta e duas curtas-metragens sobre Glenn Gould”. 

Glenn Gould, a certa altura de sua carreira, decide não mais apresentar-se em público. Este o incomodava; o piano das salas de apresentação o incomodava; os quartos de hotéis em que tinha de se hospedar durante suas apresentações ao redor do mundo o incomodavam; a filigrana de imperfeições envolvidas em uma performance para um grande número de pessoas o incomodava… Gould queixava-se de uma falta. Como diz ele: “carecia de uma espécie de transcendência mística para eu superar”. Então, resolveu isolar-se de todos, mantendo, com o mundo, apenas um contato (aliás, intenso) por meio do rádio e do telefone.

Algumas idéias de Gould me chamaram a atenção. Primeira, ele dizia que para cada uma hora que você passa com um ser humano, você precisa de X horas sozinho. Segunda, ele era fascinado pelo Pólo Norte e pelo tipo de vida que lá se podia ter, em completo isolamento. No filme, aliás, há uma bela cena de Gould desaparecendo (ou aparecendo) no branco da neve do nórtico. Impossível não sentir que o vazio é completamente “abundante”, “cheio”.

No Norte, Gould sentia haver uma virtude quase indescritível: a virtude da “extrema observação” – como tudo era muito distante, quando as pessoas se encontravam, elas provavelmente deviam prestar muita atenção umas nas outras. Engraçado, não? Hoje, vivemos em imensas cidades em que um amontoado de gente se esbarra em cada canto, cada qual falando sem parar umas com as outras, quase sempre fazendo vistas grossas aos detalhes e às sutilezas do que é dito (ou não dito).

Muito certamente essas idéias de Glenn Gould me vieram à mente hoje impulsionadas pelo sentimento secular (?) de pertencer a uma multidão solitária.

Acham que isso é “negação da potência de vida”?… uma frase bem nietzschiana, por assim dizer. Mas o próprio Nietzsche vivia a maior parte de sua vida como um nômade. Aliás, ele adora as alturas das montanhas (não é de uma que desce Zaratustra?). Recolher-se ao isolamento, a meu ver, não implica em negar a Vida (com “V” maiúsculo)…talvez signifique, sim, negar um tipo particular de vida… .

O Brasil e os outros

O Brasil cresceu, em 2010, algo em torno de 7%. Enquanto isso, olhe o crescimento de outras economias, grande parte das quais muito pouco comentadas por aqui ou mesmo alhures (até onde eu parcamente sei…).

Contradições do Natal

O ser humano é realmente uma espécie contraditória. Nestes dias de festas, é comum a maioria de nós abrandar o coração e ampliar a gentileza, especialmente ao desejarmos os melhores votos uns aos outros. E não há como negar que é realmente fascinante ser afetado por um momento coletivo e social como esse, carregado de representações as mais positivas.

Na vida cotidiana, porém, como funciona o “clima natalino”? Vou dar um pequeno exemplo. Fomos ao supermercado fazer compras. Isso foi ontem. Não é de se surpreender que, dada a festividade (com um claro componente gastronômico!), as pessoas tenham ido, “todas”, ao supermercado ao mesmo tempo.

Aí começa o show de horrores. Por exemplo, você vai pagar suas compras num caixa que parece menos “congestionado” e, de repente, aparece uma pessoa com dois carrinhos cheios. Alguém ficou “guardando fila” para ela. Outro exemplo: a pessoa que está passando suas compras, mesmo notando a balbúrdia ao redor, não tem a gentileza de ajudar a funcionária do caixa (já por demais atordoada de trabalho) a empacotar suas coisas. Mais um pequeno exemplo: pessoas deixando muita mercadoria nos carrinhos, especialmente mercadorias que não poderiam ficar fora da geladeira. Provavelmente, o olho foi mais “gordo” do que o olho que se surpreende com os $$$$ a pagar. Os exemplos poderiam ir longe…

Uma conclusão “gerencial” – esses pequenos atos de indelicadeza da vida cotidiana contribuem, somados ao despreparo e ao desânimo de funcionários (ou a seu cansaço e mal-estar), para que o simples ato de fazer compras na véspera de natal se torne algo da ordem do “desperdício”.

Uma conclusão “antropológica” – não é engraçado, contraditório, sermos tão “carinhosos” pelo embalo do “clima de natal” e, na prática (como no exemplo que dei das compras), sermos egoístas, mesquinhos, indelicados com o outro, “esfomeados” para corrermos para encher nossos carrinhos e comemorarmos, no mais cândido sentimento de solidariedade, com nossos “entes queridos”? Sei lá, para mim, o Natal parece estar se tornando algo só “da família” (dos iguais).

Feliz Natal meu amigo!


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