Sobre desistir – parte 2

O problema surge quando nos deparamos com um “ponto de não-retorno”, aquele momento em que permanecemos por tanto tempo no caminho de uma escolha passada, baseada em um desejo que talvez também pertença ao passado. Quanto mais avançamos nessa trajetória, mais, em teoria, sentimos que há algo a perder caso optemos por desistir. Por vezes, toda uma vida é construída sobre essa escolha, consolidada até o ponto em que algo essencial dentro de nós se extingue – algo que antes dava sustentação orgânica à nossa existência. Nesse momento, resta apenas a forma, o invólucro de um desejo que já não nos serve, como um casulo abandonado.

É como caminhar por uma estreita ponte de madeira e, de repente, perceber que os degraus terminaram. Sem suporte, começamos a cair, e a sensação é de um precipício infinito, onde só existe a queda. Frente a esse vazio, uma estratégia possível – e paradoxal – é não fazer nada: apenas continuar. O lado positivo de uma trajetória construída é sua própria inércia. É como desligar o motor de um carro no alto de uma colina; a energia potencial acumulada é suficiente para fazê-lo deslizar por bons quilômetros, mesmo sem engatar a marcha. Então, você simplesmente deixa o carro seguir.

É evidente que essa “estratégia” de enfrentamento não é das mais saudáveis. Em algum momento, ela transforma a pessoa por dentro, silenciosa e gradualmente. Imagine esta cena: você é um recipiente vazio. Alguém, ou algo, começa a despejar concreto dentro de você. O processo é lento, iniciando pelos pés. Demora muito, mas, com o tempo, o concreto alcança o coração. E continua a subir. Devagar. Sem que você perceba totalmente, embora consiga sentir de alguma forma, acaba completamente tomado – transformado em pedra. Firme, sólida, absolutamente “certa” de si mesma. Terrivelmente persistente.

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Snow Storm: Steam-Boat off a Harbour’s Mouth, 1842, J. M. W. Turner

Persistir na adversidade. Eis uma verdade cultural quase universal. Se você adiciona a isso uma conotação religiosa, então chega à conclusão de que persistir na adversidade não é algo fortuito, mas, sim, uma provação divina, como ocorre com o personagem bíblico Jó. Deus nos sustenta enquanto atravessamos uma intempérie. Quando era seminarista, lembro-me de ter um santinho no qual uma trilha na areia começava com duas pegadas e terminava com quatro. Nos momentos difíceis, sem perceber, Jesus caminhava ao seu lado. Ou algo assim. Na essência, a ideia era de que não estamos sozinhos ou abandonados quando acreditamos que tudo está perdido.

Tenho plena consciência da força que uma crença como essa imprime em uma alma atribulada. Em versões seculares, a mesma moral é repetida incessantemente, como nos filmes de Hollywood. Acredito que a cultura americana seja o melhor exemplo de uma versão secularizada da história de Jó. Por lá, a subjetividade é tão pressionada a persistir, tão enclausurada em uma ideia espartana de força e coragem — de jamais jogar a toalha — que a única válvula de escape para racionalizar a desistência é a linguagem da patologia mental. Fulano não conseguiu “vencer na vida” (leia-se: persistir, resistir) porque sofria de depressão, crises de ansiedade, problemas de atenção, e assim por diante. Como toda cultura, a americana — e, por extensão, sua projeção no imaginário global via filmes hollywoodianos — é um espartilho tão apertado que se confunde com a própria carne.

Ao homem, como gênero, é legado o triste destino de uma virilidade constantemente posta à prova. Ao menor sinal de intenção de desistir de algo, a acusação logo vem em forma de questionamento do caráter masculino. Às mulheres, como gênero, é atribuída a preferência pelo “macho alfa”, uma aberração de indivíduo completamente doutrinado na cartilha da persistência, do “enduring”, das criativas e infindáveis estratégias de “coping” para continuar na luta, como um gladiador. Não há lugar para homens considerados fracos em uma cultura de pedra como essa — de resto, algo que também se observa em muitas outras culturas ocidentais, especialmente naquelas com uma história marcadamente ascético-religiosa.

Sobre desistir – parte 1

Na nossa cultura, desistir raramente é visto de forma positiva. A persistência é amplamente valorizada e exaltada como virtude. Quando alguém desiste de algo, as explicações costumam apontar para falta de força de vontade, caráter, ânimo, “estamina” ou coragem. O desistente é frequentemente percebido como fraco e pouco confiável.

Reconheço que, em determinadas situações, desistir pode ser prejudicial. Por exemplo, quando o objetivo é tornar-se pianista, é inegável que será preciso enfrentar muitos desafios. Essa escolha, por si só, já carrega uma exclusão: ao decidir seguir esse caminho, você voluntariamente aceita abrir mão de diversas gratificações imediatas em troca de uma possível recompensa futura. Um obstáculo – ou mesmo uma série deles – não deveria, por si só, ser motivo para abandonar um propósito.

O problema é que, em geral, tomamos decisões sem saber o que enfrentaremos pelo caminho. Voltando ao exemplo do pianista, no momento da decisão, imaginamos uma plateia extasiada aplaudindo nossa performance magistral. O resultado idealizado, antecipado no instante da escolha, é muitas vezes o combustível inicial. Porém, quanto mais fantasioso for o objetivo, maior pode ser a frustração ao lidar com a realidade. Assim, uma das razões para desistir é perceber que o caminho é difícil, tedioso, ou exaustivo demais para ser trilhado.

Persistir, por sua vez, é também uma forma de renúncia. Mas renunciar não é o mesmo que desistir. Renunciar significa aceitar os sacrifícios inerentes a uma escolha, adiando recompensas que, aliás, podem nem se concretizar. Afinal, o futuro é incerto, o sucesso não depende apenas de esforço, e as idealizações frequentemente sucumbem à dura realidade. Desistir, por outro lado, é algo completamente diferente.

Desistir implica abandonar uma decisão já tomada. Esse ato pode ocorrer em diferentes níveis: desistir de uma carreira, de um relacionamento, de um sonho. Também existem desistências cotidianas, como abandonar uma fila no supermercado ou deixar de procurar promoções entre diversas lojas. Em casos mais extremos, pode significar desistir de viver.

A desistência muitas vezes envolve cálculos racionais de custo-benefício: investimento versus retorno. Mas há algo mais profundo no ato de desistir. Trata-se da relação com o que realmente desejamos. Quando conhecemos nosso desejo, somos capazes de justificar, para nós mesmos e para os outros, o sofrimento temporário em prol de um bem maior no futuro – como o exemplo do pianista renomado. Esse mecanismo também é evidente nas religiões, onde pessoas renunciam a prazeres terrenos em busca da promessa de recompensas divinas.

De forma semelhante, persistir – o oposto de desistir – é sustentado pelo desejo. A questão central, então, é compreender o sentido do que se deseja, e não apenas seu significado social. Essas dimensões, no entanto, estão profundamente entrelaçadas. Pensemos no caso de muitos jovens brasileiros que aspiram ser médicos. Será que esse desejo é puramente pessoal? Difícil acreditar. Desde cedo, esses jovens são expostos a ideais e valores que exaltam a medicina, muitas vezes transmitidos pela família, pela mídia ou pelos pares. Com o tempo, os significados sociais associados à profissão vão se internalizando e se confundindo com o desejo individual. Em outras palavras, o que começa como uma expectativa externa pode se transformar na própria vontade do sujeito, carregando nuances particulares.

Sob a perspectiva do desejo, desistir significa abrir mão de uma escolha que parecia pessoal. Então, por que desistimos? Uma possibilidade é que o desejo que julgávamos nosso era, na verdade, o desejo de outra pessoa – dos pais, por exemplo. Nesse caso, desistir significa abandonar não apenas uma decisão, mas também uma parte de si mesmo que antes parecia central à sua identidade. Trata-se de um ato que exige enorme coragem, muito diferente da visão estereotipada de fraqueza frequentemente associada à desistência.

Desistir, nesse contexto, não é simplesmente recuar, mas abrir mão de certezas em troca de possibilidades incertas. Afinal, apoiar nossas escolhas no desejo dos outros oferece uma forma de certeza – ainda que apenas aparente. Os significados, que são herdados socialmente, tendem a ser mais estáveis e definidos do que os sentidos, que precisam ser construídos individualmente, comportando risco e profundas incertezas. Desistir pode ser um gesto profundo e transformador, capaz de desafiar convenções culturais e provocar uma reflexão sobre o que, de fato, constitui o próprio desejo. Na essência, discutir a desistência é discutir o querer – ou o não querer.

O jumentinho branco

Hoje, passando pela rua onde moro, vi um pequeno jumentinho branco atrelado a uma carroça. Isso é algo comum na paisagem da cidade. Quase sempre, fico atraído pelo animal. Gosto de observar sua expressão, que, em geral, transmite uma paciência inabalável. Hoje, ele estava ali, numa rua escura, parado, esperando seu dono buscar algo. Parado, calmo, passivo, obediente. Tão pequenininho, branco, numa rua escura, atrelado à carroça. Sabe-se lá de onde ele veio, sabe-se lá para onde vai. Pode ser perto, pode ser longe (mais provavelmente, longe).

Fico imaginando quando ele nasceu. Pelo que percebo, não é comum ver jumentos brancos pelas ruas. Mas esse jumentinho branco, quando nasceu, certamente chamou a atenção. E hoje, ao vê-lo na rua escura, não havia como não notar, nem como não se surpreender com o contraste: a rua escura, suja, esburacada, e o jumentinho branco, atrelado à carroça, passivo, obediente, resignado, com aquele olhar vazio, sem emoção, exceto pela aceitação do momento.

Logo me lembrei do jumentinho cinza-escuro e encardido do filme Balthazar, de Robert Bresson, sobre o qual já mencionei em outro post. Balthazar é o dócil animal que passa de dono em dono, de situação em situação, ora recebendo carinho e amor, ora (mais frequentemente) sofrendo ódio gratuito, agressão ou abandono. O ser humano faz quase nada, exceto usar o animal como instrumento, uma espécie de trator movido a sangue e músculo. O que podemos dizer sobre um humano que usa outro ser vivo como ferramenta? De certo modo, ele também se torna um objeto, tratando sua própria vida como um processo instrumental: pegar caixas, colocá-las na carroça, levar para um lugar X, despejá-las lá, cobrar por isso. E o ciclo se repete infinitamente, movido pela necessidade de sobrevivência.

Do ponto de vista moral e ético, sei que tratar um ser vivo como objeto só é possível porque um dos entes envolvidos domina o outro. O jumento não foi “criado” pela seleção natural com a “intenção” de ajudar o ser humano a transportar cargas. O uso pelo ser humano não é a razão de sua existência. Isso aconteceu porque, dotado de inteligência, o ser humano descobriu que o jumento é resistente, obediente, manso, passivo, resignado. Não exige grande treinamento, se é que exige algum. Basta mantê-lo preso, usar o chicote para “comunicar” direções e paradas, alimentá-lo e colocá-lo para trabalhar.

No filme de Bresson, Balthazar revela muito mais sobre os humanos que interagem com ele do que sobre si próprio. Não há como não traçar um paralelo entre Balthazar e a figura de Cristo. Imagine Cristo carregando a cruz, enfrentando seu calvário, sendo ridicularizado pelos passantes ou até açoitado. E, depois de toda a humilhação, sendo sacrificado na cruz. Nos evangelhos, não há vestígios de que Cristo estivesse com ódio das pessoas que o maltratavam, nem de autocomiseração ou ressentimento. É como se ele simplesmente tivesse de passar por aquilo. Para alguns, isso seria sinal de fraqueza, de ser um “cordeirinho” diante do mundo; para outros, é a expressão de uma coragem inabalável. Algo semelhante a Sócrates, que aceitou seu destino sem resistência. E a Balthazar, que, na foto que mencionei em outro post, aparece em seus últimos momentos de vida. Ele fora baleado porque seu “dono”, na ocasião, o usava para contrabandear mercadorias e foi interceptado pela polícia. Na imagem, Balthazar está cercado por cordeiros.

Alguém, como eu, passa e vê o jumentinho; ao vê-lo, pensa nas coisas que pensei. Outra pessoa poderia ver o carroceiro e enxergá-lo como um sobrevivente, catando os restos pela cidade para manter a si mesmo e à sua família vivos – vítima da exclusão social, econômica e política de um país à margem do capitalismo. Antigamente, quando essas duas interpretações surgiam em minha mente, eu me culpava por tê-las. Achava que deveria me concentrar apenas no carroceiro como objeto de minha inquietação, e mais, deveria atribuir a isso uma consciência política, acompanhada de uma força para “fazer algo”. Hoje, não sinto mais essa culpa. Hoje me deixo afetar pelo que posso ser afetado. Hoje tento não me culpar pelo que sinto. Somos muitos no Brasil; somos muitos aqui, nesta cidade onde vivo. Se cada um sentir algo, seja pela parte que for, isso já seria o mínimo necessário para mudarmos nossa visão de vida, do mundo, das pessoas e dos outros animais.

A sujeição da linguagem

Há uma passagem de um livro de R. Barthes em que ele discute o “fascismo da língua”. Segundo ele, o fascismo não consiste em impedir alguém de falar, mas em obrigá-lo a dizer algo. Ao falar, o simples ato de usar a língua já me insere em uma relação de poder. Assim, para Barthes, falar não seria apenas um ato de comunicação, mas também de submissão. Ao me expressar, já estou me sujeitando às estruturas normativas da minha língua. Soma-se, de um lado, a autoridade de quem faz uma afirmação e, de outro, o gregarismo de quem a repete.

A característica gregária da língua estaria presente nos próprios signos que a compõem. Um signo precisa ser reconhecido. O interlocutor que me ouve precisa validar o que estou dizendo — não apenas o conteúdo, mas também a forma. Sem esse reconhecimento, o circuito cotidiano da compreensão não se completa.

O mais interessante é que essa sujeição se aplica mesmo quando “falamos conosco”, no monólogo interminável de nossos fluxos de pensamento, no diálogo interno que constitui a consciência. Mesmo ali, na intimidade, nos sujeitamos. Há, internamente, uma “autoridade” que profere um determinado discurso (o “eu”?) e outra que o reconhece, conferindo-lhe alguma verossimilhança. Esse processo pode ganhar contornos obsessivos, paranoicos ou neuróticos, nos quais a repetição desempenha um papel crucial.

Portanto, para tentar escapar da sujeição, existem duas possibilidades: experimentar ou silenciar-se. De fato, o silêncio é uma forma de evitar as camisas de força embutidas na linguagem, com suas estruturas de poder e necessidade de reconhecimento pelo outro. Seria o silêncio, tanto interno quanto externo, uma forma de resistência? Já a experimentação consiste em explorar as franjas, as bordas e as fronteiras dos discursos institucionalizados.

Fragmentos dispersos, 9

Vácuo de sentido. Não me recordo se foi Aristóteles quem disse que a natureza não suporta o vácuo, o nada. Aproveito-me da ideia. Quando seu trabalho não tem sentido, há um vácuo. E ele precisa ser preenchido. Alguns trabalhos são tão absurdos que não há, afetivamente, possibilidade de atribuir-lhes sentido. A menos que a pessoa se rebaixe ou racionalize. Invente histórias para si mesma. Mas não creio que isso dure muito. Outra possibilidade, diante do vácuo de sentido, é recorrer às drogas. Não por acaso, elas estão em contínua ascensão. Drogas que tornam o trabalho suportável ou que incrementam sua performance para atender ao frêmito de determinados setores ou ramos profissionais. Agora, pense na seguinte situação: um trabalhador que mal ganha o suficiente para sustentar sua família é obrigado, diariamente, a subir em torres de alta tensão — sozinho ou, no máximo, com um colega em terra firme. O tempo todo lidando com a altura e a eletricidade. Um corpo pendurado num cabo, frágil como uma pena num redemoinho. Suspenso. Pode-se até tentar atribuir sentido a isso (isto é, ressonância afetiva ou reconhecimento social). Mas tal esforço não resiste ao tempo, à repetição. Então ela aparece: a “pinguinha”, antes de subir. Estratégia para suportar. Drummond dizia que “todo mundo tem sua cachaça”. Pois é. Às vezes, literalmente.

O que é uma tese. Quem atua no mundo acadêmico precisa elaborar teses constantemente. Uma tese é, por vezes, uma marcha à ré: pensar algo de forma inversa ao que se acredita no cotidiano. Um exemplo disso foi uma pergunta feita por um psicanalista do trabalho, C. Dejours. Em vez de questionar “por que as pessoas adoecem no trabalho?”, ele inverteu a lógica: “Por que as pessoas não adoecem no trabalho (com tantas razões para isso)?” Et voilà. Dessa pergunta surgiu uma nova disciplina que investiga os efeitos da organização do trabalho sobre a saúde mental. Agora imagine, algumas décadas atrás, alguém formular a pergunta: “Fumar não estaria associado ao câncer de pulmão?” Hoje, isso soa banal. Mas, à época, a pergunta era disruptiva. Criava um corte, uma ruptura no conhecimento comum. Com o tempo, especialmente nas ciências humanas no Brasil, fomos ficando mais modestos. As perguntas passaram a se concentrar no como — por exemplo: “Como é ser mulher no trabalho?” Esse como reflete uma curiosidade sobre vivências. É o trunfo da fenomenologia, sem dúvida importante, pois o universal manifesta-se no singular. Porém, quando tal postura entra na engrenagem da indústria do saber (nossas universidades), carrega consigo um enfraquecimento do espírito. Ou uma resignação covarde. Ou, quem sabe, uma incrível chatice.

Perguntas sem resposta. Creio que foi Lacan quem sugeriu que o sujeito se estrutura em torno de uma pergunta. Uma inquietação que ele endereça ao Outro. Então, qual é a sua pergunta? Ela pode ser inconsciente. Talvez só se revele como vestígio, como metonímia, ou na forma de angústia, sofrimento, tédio, resignação ou ressentimento. Talvez, ao polir muito a prata, você comece a enxergar o metal. Sob camadas de oxidação, há uma penumbra que esconde o essencial, o valor genuíno. Boa parte do que ouvimos durante o dia é como essa camada escura sobre a prata. Toca você, mas não é o toque que gostaria de sentir. Há algo deturpado, turvo, opaco. Você espreita frestas e orifícios, tentando enxergar o que realmente se esconde atrás de cada véu. Alguns dizem que não há nada atrás de nada. Eu discordo. Achava, também, que tudo era apenas interpretação, versões possíveis. Não. Há uma pergunta. Disse recentemente aos meus alunos de pós-graduação: já pensaram se, num mundo ideal, sua tese fosse exatamente a consciência e a abertura para essa pergunta? Isso vale para a vida singular e, muito provavelmente, para qualquer fenômeno científico de interesse.

O apego à vida

Fazia quatro dias que estava de pé em cima do telhado de um rancho. Foi levado até ali por puro instinto e sorte. A água do rio mais próximo subiu tanto que invadiu centenas de casa pelo caminho, incluindo a sua, da qual foi arrastado por um nado improvisado. Durante quatro dias ficou sem comer, sem beber e sem a menor chance de relaxar. Se descuidasse minimamente, caía sobre a água. E, caindo, muito provavelmente acabaria morrendo afogado. Quatro dias de músculos tensos, de dor nas quatro patas, cada uma delas com uma ferradura. Tais ferraduras, que em terra serviam de apoio firme, ali em cima do telhado eram uma ameaça de morte, pois tornavam tênue o ponto de contato com o telhado. Equilibrava-se sobre a parte firme deste último, composta por uma única madeira estreita e comprida. Não bastasse o malabarismo, também não parava de chover. Assim, encharcado, com fome, com dor e sede, ele permaneceu sobre o telhado. Ninguém veio em seu socorro, pelo menos não no início. Havia, como todo cavalo, sido projetado para desbravar a terra aberta, não para se manter rígido sobre um telhado, um ponto tênue que o segurava na fina navalha da vida. Portanto, não entendia absolutamente nada do que estava acontecendo. Só sabia que precisava ficar parado. Não podia dormir. Quatro dias de agonia, espanto, medo, paralisia instintiva, equilíbrio fatal. Fitava o entorno com seus olhos doces, obedientes a um mestre agora ausente. Encarava resignado a água. Via algumas pontas de casas despontando aqui e ali, elas também tentando ficar emersas. Os restos de alguns postes de luz. Virá alguém em seu socorro? Ele obviamente não poderia responder a esta questão. Mas sua intuição animal o fazia aguentar. Assim como o absurdo o arrancou do chão firme e da vida cotidiana de trotadas e trabalho duro, o absurdo o mantinha no cume do telhado. Naquele momento, sentiu-se profundamente sozinho. Abandonado. Um plácido, profundo e resignado sentimento animal. Não obstante, não saberia fazer outra coisa que não permanecer vivo. Manter sua vida, não importa a razão. Não era por saudade de seu antigo dono, nem por amor às pradarias em que trotava. Nem por apego a outros companheiros cavalos. Nem pelo capim que comia todo dia. Ou pela longa vida que ainda poderia ter pela frente. Era simplesmente porque não lhe parecia natural, instintivo, se deixar engolfar pela água suja. Não havia nele nenhum vestígio de impulso ao nada, à morte. Poderia ter morrido, é claro, mas se isso tivesse acontecido não seria por sua própria vontade. Estava agarrado à vida. Nada mais importava. Seu corpo simplesmente parecia saber o que fazer. Da água suja e mortal precisava escapar. Subir, escalar, ir até o último refúgio possível, fosse onde fosse, e ali permanecer. Sua permanência era sua prova de amor à vida, o amor animal, puro e profundo. Abaixo de si, o terror, a destruição.

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Seres não pensantes

A vida na Terra, desde seu surgimento, é uma série de singularidades que nunca mais vão se repetir. Neste exato momento, um número quase-infinito de eventos estão acontecendo. Destes, pouquíssimos serão lembrados, sequer reconhecidos. E infinitos eventos ocorreram no passado.

Porém, cada evento singular é passível de ser identificado, descrito, até mesmo documentado. Se houver um Deus, com certeza ele representa as infinitas possibilidades de acontecimentos singulares, e cada uma dessas infinitas possibilidades são não apenas por ele antecipadas, mas especialmente acolhidas e dignificadas.

Nos recôndidos mais distantes da história, animais circularam por esta Terra. Cada um viveu esse mistério que é a vida. Interagiram com o ambiente, extraíram deste os recursos para se manterem vivos, interagiram entre si, muitos se reproduziram, outros vagaram solitários por vastidões sem fim. Olharam para as estrelas, mesmo que delas não tivessem a menor consciência. Do Cosmos receberam os raios do Sol, laboriosamente convertidos em formas de energia por eles assimiláveis, transmitidas em uma cadeia de minúsculos seres construída sobre milhares e milhares de séculos.

Os que tinham coração, este lhes bombeava um sangue viscoso e nutritivo. Um músculo insistente, que ora batia acelerado, fazendo seus detentores subirem planícies e colinas íngremes, ora batia como se fosse parar, deixando o organismo naquele estado de vigília, uma zona entre a vida e a morte. Os que tinham cérebro, este lhes integrava todas as maravilhas físicas e cósmicas que irradiavam por todos os lados e que, graças a alguns desses cérebros, eram enfim apreendidas naquilo que realmente eram. E mesmo os cérebros que não faziam isso também tiveram seu papel, ajudando essa multidão anônima de seres a relembrarem o local onde nasceram ou então onde estavam as frutas mais doces.

Os que tinham um sistema nervoso, e imagino que fossem muitos, podiam sentir o que nós humanos chamamos de dor. Mas pouco importa o que nós humanos chamemos essa reação que faz evitar algo. A dor é a universal que nivela todos os organismos vivos minimamente complexos. A dor é sempre vivida de modo singular. Ninguém ou nada pode sentir dor por procuração. Essa mesma dor tem como complemento o prazer, mais uma palavra humana que basicamente descreve uma sensação física que tende a induzir a repetição de um comportamento. Na vasta maioria do reino animal, essa repetição está na base da transmissão de algumas células que têm o pontencial de gerar outros seres iguais aos exemplares originais.

Tenho um imenso interesse por animais não conscientes. Eles são a ESMAGADORA regra deste planeta, jamais a exceção. A única exceção é uma espécie que só se tornou dominante por causa de um órgão pensante. O pensamento é a ruptura com o imediatismo da existência. Pensar é romper com o mistério da vida. Para esse cérebro pensante chamado de “humano”, qualquer mistério é uma fonte de questionamento, um tópico de investigação. Um ainda-não que, em questão de tempo, será dissecado em explicações racionais.

Os animais não conscientes são os verdadeiros “donos” deste planeta. Até porque chegaram primeiro. Infelizmente, não bastassem as diversas extinções naturais em massa, estão sendo submetidos a novos níveis de tortura e destruição pela espécie que tem um cérebro pensante, a única efetivamente capaz de produzir o mal absoluto por escolha própria. Tal espécie se arroga o poder de tutelar os animais não pensantes, destruindo-os, seja como meio de alimentação, lazer/diversão, “avanço científico”, ou pura maldade (= algo que não precisava acontecer, mas acontece porque o humano assim o deseja). Não há quase mais nada “selvagem” na natureza. Em cada canto mais remoto deste planeta haverá a presença da espécie pensante – que se adapta até ao fundo do mar, tamanha sua astúcia e resiliência.

Na base do exponencial desenvolvimento tecnológico da espécie pensante estão seus próprios interesses. Bombas atômicas foram inventadas não para defender o planeta de um eventual meteoro ou de “alienígenas”, mas para reforçar o poder de uma tribo sobre a outra. As sofisticadas técnicas de previsão do tempo não servem, primariamente, para proteger animais não pensantes de esbarrarem com eventos climáticos catastróficos. Servem para prever ações pela espécie pensante a fim de proteger suas plantações e propriedades. A espécie pensante chegou mesmo a inventar deuses, acreditando que, após esta vida, haverá um paraíso onde alguns viverão eternamente. Por certo porque não consegue conceber que uma tal “maravilha” deva morrer e ser esquecida para sempre.

A espécie humana melhorou inimaginavelmente suas condições de vida. Mas faz tudo pensando em si mesma. Do ponto de vista do planeta, essa espécie é completamente supérflua. Se não tivesse surgido, tudo estaria na mesma. A espécie humana não fez nada de significativo pelo planeta, exceto arruiná-lo. Ou quando cria desgraças para ela própria vir com a “solução”. A espécie humana, do ponto de vista do planeta, não é senão outra mutação fracassada. Os últimos a sair da selva para as cidades, onde usam bonés e armas semi-automáticas, para usar uma expressão de G. Carlin.

Conforto-me com o pensamento de que há um Deus. E, como disse antes, esse Deus está registrando tudo. Esse Deus sabe, no fundo, “o que está rolando”. Ele escuta cada grito, cada vida dizimada, seja por uma pedra aleatória ou por complexos matadouros “humanizados”. Quero crer que esse Deus é tão sintonizado com a verdadeira natureza do Cosmos que é até mesmo capaz de amar cada ser humano individualmente, uma tarefa desafiadora.


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