Estética como ética

Assisti ao filme A grande beleza, de Paolo Sorrentino. Há muitas críticas sobre o filme disponíveis na internet, boa parte das quais enfatizando a semelhança do filme com  A Doce Vida, de Federico Fellini. Em ambos os casos, o cenário é Roma. Em ambos os casos, supostamente, a incapacidade de o personagem principal (no caso de A grande beleza, Jep Gambardella [Toni Servillo]) adaptar-se ao mundo ao redor, à mundanidade. Na Roma de 2013, a mundanidade resum-se ao consumo e às excentricidades da classe abastada.

Sem me desviar muito do eixo das críticas, inclusive da que, para mim, fez mais sentido (a de Calligaris na Folha de quinta, 26), queria registrar algumas impressões.

1) O vazio sentido por Jep em meio, paradoxalmente, à abundância, ao exagero das cenas e imagens – um contraste fantástico entre um barroco (romano), repleto de obras de arte, e o vazio. Nossa vida resume-se ao espaço delimitado por um parênteses, uma suspensão, entre a dor e momentos fugazes de prazer inesquecíveis (ou, como diria a “santa” Maria do filme, “as raízes”);

2) A estética como um modo de estar no mundo, de tornar a vida suportável. Não se trata de futilidade, como muitos críticos observaram: a futilidade de uma Roma submersa no consumismo, no desfrute, no gozo sem qualquer “seriedade” (como se algum gozo tivesse seriedade, não é?!). Trata-se de fluência: a fluência da vida, dentro do parênteses que a delimita, no fluxo da ilusão;

3) A ilusão tem um destaque fundamental no filme, a meu ver. E é sempre importante lembrar que ilusão não é sinônimo de mentira, de engodo, o avesso da realidade: no filme de Sorrentino, a ilusão é o próprio líquido amniótico da existência. Uma espécie de estética da ilusão, o sincronismo das imagens perfeitas;

4) O vazio do filme não tem a ver apenas com um passado feliz que não pôde se realizar no presente (Jep tem um amor de juventude, e, logo no início do filme, é comunicado de que ela havia acabado de morrer); tem a ver com o que fazer enquanto “esperamos” a morte. Sim, não adianta fugir; não há para onde correr – a morte é como tudo termina, é “o outro lado” comentado por Jep ao final. Mas, antes da morte, há “o lado de cá”, e, neste, o que fazer? Trabalhar? Ser uma pessoa séria, respeitada, proeminente? Criar e cuidar dos filhos? Do lado de cá, na visão de Jep, existe apenas uma coisa: momentos felizes soterrados sobre um monte de blá, blá, blá; e momentos de medo e dor, também eles sedimentados sobre um monte de blá, blá, blá (sic). E a ética de Jep é, justamente, a ética da estética, a ética da ilusão.

5) Talvez os críticos do “consumismo” e da mundanidade não consigam enxergar isso: de que não é possível haver uma posição isenta, uma perspectiva a-temporal que nos diga, com certeza doutrinal, de que certas ações, certos rituais, são “fúteis”. Ora, qual seria o inverso da futilidade? A penitência? A vida regrada, ordenada, “certinha”? A vida pequeno-burguêsa, ou, ao inverso, a vida modesta? O que quero dizer, e que acho que é uma leitura possível do filme, é que, no conteúdo encerrado pelo parênteses da vida, só nos resta a ilusão, e, nesta, a estética.

Malária

O homem

Dogville

Ontem assisti novamente a Dogville, do Lars von Trier. Acho que é a terceira vez que assisto. Ao contrário das outras vezes, porém, não havia percebido a sagacidade do final, justamente a parte dos créditos. Eis que a achei na net. Infelizmente, não dá para reproduzir aqui porque o Youtube não permite, mas você pode assistir diretamente no endereço original. A música é de David Bowie – e esta sim reproduzo abaixo (caso queira só ouvi-la sem a cena dos créditos de Dogville, embora se perda bastante o efeito pretendido). Tente imaginar, se você já assistiu a este filme, o porquê deste final…

Persistência e esperteza

Passado

Confesso que não dei bola quando o último filme de Woody Allen foi lançado no ano passado. E a coisa passou para mim. Ontem, depois de ler uma coluna de Matheus Pichonelli na Carta Capital, fiquei tentado a assistir o filme. E o fiz hoje.

Para mim, o filme foi pior do que avaliou Pichonelli, e melhor do que o fez ontem André Forastieri, em coluna também dedicada ao filme. Não acho que o filme tenha sugerido (e voilà minha catarse…), simplesmente, que o presente é pior que o passado, e que nossa atual geração é vazia, obcecada por assuntos miúdos, seduzida por intelectuais arrogantes e esnobes, tratando o passado pelas mercadorias que ele nos deixou no presente (a própria Paris, por exemplo?!).

Ele fez algo muito pior, sugerindo que não há como escapar – que, uma vez no presente, vamos sempre achar que uma época anterior foi melhor, e logo vamos querer voltar para ela (ou, no caso de personagens do filme, de “ir” para ela). A vida é simplesmente um saco, e vai ser um saco no presente ou no passado, pois, uma vez chegando neste, ele vira presente e… vira um saco!

No entanto, presente e passado convivem juntos. Negociamos entre ambos, por assim dizer. Além disso, o passado idealizado deve ter lá a ver com nossos sonhos infantis. Quando crianças, sempre achamos os adultos mais “poderosos” que nós; até chegamos a achar (eu, pelo menos, o fiz!) que eles têm vidas misteriosas, enigmáticas… interessantes. Não me recordo, como criança, de achar que a vida dos adultos era um saco. Passamos a ver assim quando vamos ficando mais velhos. Quando adolescentes, achamos a vida de nossos pais um grande saco: os criticamos por falta de “amor verdadeiro”, por falta de “risco”, por serem ultrapassados (muitos pais ainda não sabem usar iPads e coisas do gênero…). Mas, paradoxalmente, quando adultos, achamos que nossa vida na infância era mais feliz.

Penso que, coletivamente, é a isso que muitas vezes nos entregamos: à idealização de um passado coletivo, grupal, no filme representado pela belle-époche, ou então pela boêmia dos anos 1920, na Paris borbulhante, viva, pulsante. A Paris de hoje é, sob certo ângulo, uma vitrine a céu aberto, dependendo (não desprezadamente, suponho) do turismo para sobreviver. Mas essa mesma Paris poderia ser uma espécie de Atlântida do “pequeno” grupo de humanistas ainda existentes no mundo (espécie em extinção?).

Mas concordo com Forastieri: chiclês demais! W. Allen diz que sempre toma como certo um público inteligente, mas não foi assim que me senti ao assistir o filme. Talvez isso tenha sido “proposital”, considerando que o filme é um sucesso de bilheteria e, desculpem-me, mas é quase óbvio que quem assistiu não foram apenas os “intelectuais” da época. Com isso, pode-se ter gerado certo “tapa na cara” de quem assiste ao filme. Neste ponto acho que Pichonelli acerta.

O filme é desconfortante, abunda na petulância e arrogância, mas, paradoxalmente, talvez esteja aí sua razão de ser.

O cavalo de Turim (2)

Como prometi, aqui segue um post um pouco mais demorado sobre o filme do diretor húngaro Bela Tárr, vencedor do Festival de Berlim do ano passado. Aviso que este post tem um conteúdo “spoiler”.

Apesar de o filme ser sobre o suposto cavalo defendido por Nietzsche, não há qualquer outra referência ao filósofo, exceto na própria idéia do filme. Há, por exemplo, um trecho em que um personagem desenvolve um monólogo no qual discute que, tanto os homens, como Deus (que, supostamente, “supervisiona” estes últimos), são responsáveis pela destruição “de tudo aquilo em que colocam suas mãos”. Provavelmente, uma referência à própria destruição do planeta.

E o planeta se manifesta o tempo todo. Particularmente, a natureza. Venta durante todo o desenrolar dos 6 dias em que acompanhamos a rotina férrea de pai e filha. Há grande angústia na tela, reforçada pelos planos-sequências, pelo uso do PeB, pela expressão dos rostos dos personagens, e, principalmente (para mim), pelo vento e pela desolação que, aos poucos, vai se abatendo sobre a pequena família. E o centro de tal desolação é precisamente o cavalo – que se recusa a comer e, desde então, desbanca a rotina diária pela sobrevivência dos dois. Achei fantásticas as tomadas em que vemos o cavalo e sua quase-humana “resistência tenra” a continuar a viver.

Bela Tárr diz que se trata de um filme sobre o “peso da vida”, a rotina de dormir, levantar-se, vestir-se, comer (no caso, toda a refeição se resumia a uma batata para cada um por dia), buscar água no poço, lavar roupa, utensílios, tirar e voltar a guardar a carroça, limpar a estalagem do cavalo e alimentar este último (ou, pelo menos, tentar alimentá-lo). É a rotina que vemos o tempo todo, afirmando-se. Não há praticamente diálogo durante o filme, mas as cenas são de uma densidade que fazem as palavras serem quase supérfluas.

O cavalo para de comer; logo depois, ou quase ao mesmo tempo, acaba-se a água do poço. A pequena família tenta fugir, mudar-se, levando consigo o cavalo. Mas acabam voltando. Não há para onde fugir? Ou, como li em algumas críticas ao filme, trata-se de falta de vontade, uma resignação dos personagens à inércia insuportável da vida? Se for falta de coragem, fato é que em nenhum momento há qualquer sinal de revolta dos personagens: a filha faz o que tem de ser feito sem qualquer reclamação ou queixa; o pai, idem. Há uma espécie de “força cega” os levando a fazer o que fazem, inclusive quando simplesmente esperam. Esperam diante da janela, esperam ao acordar, esperam após a breve refeição, o dia passa e, mesmo assim, parecem sempre à espera. Mas de que? De uma melhora? Do fim do redemoínho de vento que faz tudo ficar de pernas para o ar, em rodopios infernais? De que a água volte ao poço? De que o cavalo volte a levar a carroça e ajudar no sustento da família? A agonia vem de que sabemos que, provavelmente, nada virá.

Para mim, o melhor filme que já assisti nos últimos anos. Muito, mas muito melhor do que o último de Lars von Trier (que também, a seu modo, fala do fim, da falta de esperança e da passividade da espera); melhor do que Árvore da vida, que, como disse aqui em outro post, nos maravilha e humilha com a magnificiência do universo. Estou a tal ponto impactado pelo filme de Tárr (segundo o que ele declarou à imprensa, seu último filme), que me parece que escrever sobre ele é como “violá-lo”.

O cavalo de Turim

Acaba de sair, no grande circuito cinematográfico, O cavalo de Turim (Festival de Berlim, 2011), de Béla Tarr, o qual faz alusão ao episódio em que Nietzsche se joga no pescoço de um cavalo que estava sendo açoiato por seu proprietário. Para se ter uma idéia do conteúdo do filme, coloco abaixo a cena de abertura. Voltarei em breve com um post mais demorado sobre o filme.


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