Desbancando

Ótima tirinha do Willtirando.com, publicada hoje. Claro que, se tirarmos o estereótipo de Einstein, a coisa perde um pouco a graça, mas ainda assim me parece refletir bem o espírito da época. Título original: “Entendedor anônimo”.

Autômatos (2) (e a contagem de 2012)

Claro, só para complementar o post anterior: autômatos não se referem só a pessoas; talvez o autômato mais fascinante do imaginário humano seja… o relógio! E é o mesmo relógio que, acoplado a um calendário, nos dá as referências dos segundos, dias, meses e … anos. Portanto, que nossos autômatos-relógios, ao marcarem 00:00:00 do dia 31 para o dia 01/2012, simbolizem nosso ritual infindável de celebração do novo, do recomeço, da renovação das esperanças.

Autômatos

Consta que o escritor E.T.A. Hoffmann era obcecado pela idéia de autômato – veja-se seu conto homônimo e também um outro conto, adorado por psicanalistas, Homem de areia (todos reunidos na coletânea Contos fantásticos, publicada pela Imago, 1993). O personagem, no conto (Os autômatos), se apaixona por Olímpia, uma mulher perfeita: paciente, incapaz de sentir-se entediada por ele, sempre pronta e disposta a ouvir – e a deixá-lo em paz, sem fazê-lo se confrontar com a dura realidade que vivia (da qual sua verdadeira namorada, Clara, lhe dava o retorno). Natanael, o personagem, se apaixona perdidamente por aquela mulher-objeto, mas disto ele só veio a saber mais tarde. Olímpia era a própria imagem de Natanael, com a qual ele se apaixona. Um princípio básico da idéia de amor (narcísico) da psicanálise.

Saindo da ficção, ou pelo menos de um dos núcleos dela (a literatura), a metáfora do autômato parece sempre atual e possui certo fascínio. Quando ouvimos por aí que fulano foi levado por uma força da qual não conseguiu se furtar; ou quando ciclano diz que a sociedade controla suas ações, impedindo-o de “ser ele mesmo”; ou ainda quando, nesta época de festas, vemos os shoppings repletos de pessoas zigue-zagueando de lá para cá comprando ou trocando presentes, movidas por uma aparente força invisível (claro que os publicitários não diriam desta maneira…); ficamos com a sensação de que muita coisa funciona na base do automatismo.

Até em ciência, se considerarmos epistemologias como o Realismo, que advoga que há “mecanismos subjacentes” a diversos fenômenos vistos “a olho nu”, ficaremos com a impressão de que, mais uma vez, estamos diante da linguagem dos automata. Claro que, nas ciências (sociais, humanas, mas, obviamente, elas são as mais “fracas” nesse sentido), o propósito de pressupor autômatos é de predizer o comportamento. Como não temos acesso direto ao que produz este último, pelo menos não em termos de “crenças, desejos e razões” (pois os neurocientistas têm lá seus “truques” para decodificar o comportamento a partir do cérebro), precisamos inferir, em forma reversa a partir do que vemos (comportamento/ações), o que se passa “lá dentro” da cabeça das pessoas, ou mesmo o que se passa “lá fora” na sociedade. Neste último caso, e sobretudo na sociologia inspirada pelo Realismo, fala-se em mecanismos sociais.

Acho bastante interessante esse fascínio pelo autômato, pois, na modernidade, uma das virtudes mais defendidas é a autonomia, a possibilidade de agir por si mesmo. Ainda na Sociologia, sabemos que diversos críticos se colocaram contra essa idéia Renascentista/Iluminista: pense-se, por exemplo, em Marx, Durkheim, e num punhado de estruturalistas (já no terreno da filosofia). Sabemos, hoje, que as coisas não são assim tão cor-de-rosa no terreno da liberdade individual, e que há uma certa tensão entre o espaço de nossa iniciativa e o das outras pessoas com as quais convivemos e o das instituições pelas quais circulamos.

Mas o idéia de autômato realça o lado exatamente oposto: a fantasia, o engodo, o simulacro de auto-controle. Autômatos acreditam (e julgam conscientemente) que estão no controle. É justamente essa a essência do autômato: mover-se, falar, “performar” em todos os cenários, COMO SE fosse ele a fazê-lo, por sua própria escolha. E, mesmo que, num raio de consciência, perceba que é o próprio ponto de inflexão de forças das quais não tem controle, acaba por concluir que “é assim mesmo” e que, uma vez na luta, precisa reagir. Mas conseguiria esta reação equalizar-se com a ação dos outros/Outros sobre ele? Difícil saber, realmente difícil. Acho que, quanto mais somos indivíduos (no sentido moderno, uma unidade que se percebe/crê autônoma, livre), mais reforçamos o “tableau”, o estrado que é a vida em sociedade.

Loser

Hoje o dia está bem agitado, a julgar pelos posts daqui, não é mesmo, digníssimo amig@? Entre a realização intermitente do trabalho que tenho de dar conta, umas lidas aqui e ali, e algumas idéias. Desta vez, gostaria de compartilhar algumas coisas interessantes sobre a idéia social, especialmente norte-americana, do loser, ou, literalmente, perdedor.

Para começar, sugiro uma matéria bem interessante de Cynara Menezes, na Carta Capital, a qual leva o título Elogio ao loser. Achei muito interessante que ela recupera o saudoso personagem Charlie Brown, do Snoopy. Ele é apresentado como um exemplo de loser, como alguém que não se guia pela ambição de “vencer na vida”, como se diz. Cynara discute, quase em estilo depoimento, que o loser tem lá seu charme, pois reflete mais o modo como a vida efetivamente funciona. E diz que “Perder ou ganhar está mais no olhar do outro do que no nosso próprio”. Pode ser verdade. E seria bem interessante se fosse, pois equivaleria a dizer que o loser tem a ver com as expectativas dos outros, com os desejos desse outro sobre nós. A cultura em geral dissemina a idéia de que só os vencedores merecem respeito. Machado de Assis, com sua sarcástica sabedoria, disse que “aos vencedores, as batatas!”. De todo modo, a cultura média nos ensina que os vencedores são melhores, são mais dignos de confiança, são mais desejáveis (pelas mulheres – pois, sim, a idéia do loser é bastante machista!), mais bonitos, mais ricos, de algum modo mais próximos do que a vida “efetivamente” seria. Sei não, no imaginário, ainda prefiro Charlie Brown a qualquer outro galã bem-sucedido do cinema (para ficar na ficção).

Para terminar, na mesma Carta Capital, achei uma matéria bem interessante sobre túmulos de pessoas célebres. Em particular, uma me chamou a atenção, a qual reproduzo abaixo e me despeço por hoje:

Karl Marx: Marx morreu sem propriedades ou dinheiro, e apenas 11 pessoas estiveram em seu enterro em 1883. Seu túmulo é o mais visitado no cemitério de Highgate, em Londres, e foi transferido para uma posição mais destacada devido ao número de visitantes.

Célula

BEAT from or bar-el on Vimeo.

Imitação

Na sensibilidade moderna, a imitação (mimêsis, imitatio) possui uma conotação negativa, associada ao plágio de uma idéia, à reprodução passiva de algum modelo existente, em suma, imitar é entendido como o inverso de criar, de ser autêntico, singular, criativo. Tem-se, na nossa época, a crença de que a originalidade, apesar de depender de modelos, paira acima do status quo da época e se fixa na mente criativa do artista (ou do profissional – por exemplo, no mundo acadêmico).

Talvez essa conotação negativa reenvie, mesmo sem o saber, a Platão, para quem havia uma nítida demarcação entre ilusão e realidade – por exemplo: a forma natural da cama (como sendo a que Deus criou), a cama feita pelo marcineiro, e a cama pintada por um pintor. Para Platão, poetas não deveriam ter voz importante na pólis, uma vez que lidavam com a imitação (imperfeita) das formas ideais, sendo propagadores de idéias enganadoras. O mesmo talvez se pudesse dizer da retórica: a arte de “encantar” com as palavras.

Já para Aristóteles, a mimêsis, ou imitação, estava relacionada com a arte de imitar a natureza, não contendo, necessariamente, um componente de ilusão ou falsidade. Para Aristóteles, imitar significava fazer como (a natureza, por exemplo), e a cópia da realidade não lhe era algo servil, uma vez que o artista colocava algo dele, de sua intenção (voluntas), no ato de imitar. Portanto, imitar continha algo de artifício, não necessariamente no sentido de falsidade, mas no de intervenção do sujeito. O artista poderia, nesse sentido, imitar como as coisas foram ou são, como se diz que as coisas são ou foram, e como as coisas deveriam (ou poderiam) ser.

Apesar de nosso discurso aparentemente moderninho e “revolucionário”, somos grandes imitadores – tanto no sentido original de mimêsis, como, e infelizmente, no sentido de plágio. É notável que vivamos em uma época cujas pessoas (muitas, não todas, é verdade…) acreditam estar sendo absolutamente singulares e inovadoras. Fenômenos de massa (como os descreveu Le Bon, por exemplo) continuam a existir, só que não se aparentam como tal. No mundo universitário, imitamos uns aos outros muito mais do que gostaríamos de admitir. Imitamos trejeitos linguísticos, gêneros discursivos (uns são mais imperfeitos [ainda bem!] do que outros), até as piadas nós imitamos (dependendo da área). Não digo plágio, no sentido estrito, digo imitação – como uma atitude que depende de alguma forma de voluntas em relação a modelos que nos antecedem.

O trabalho é uma atividade na qual vemos a imitação em jogo. Quando imitamos alguém que sabe mais do que nós, estamos, de um modo ou de outro, aprendendo; quando mudamos o que aprendemos (por imitação), já estamos introduzindo um elemento de estilização, estamos nos colocando em posição diferente da submissão passiva a modelos recebidos. Claro que há plágio (repetição pura e simples, sem variação), mas quero acreditar que há mais imitação/representação. Apropriamo-nos de idéias, teorias, modelos; dependemos deles, às vezes em relação de inveja e competição, para avançarmos. Portanto, muito mais honesto conosco próprios é pensar que, sempre, estamos numa tensão entre submissão, imitação e criatividade – embora, para nosso desgosto moderno, esta criatividade seja bem mais modesta do que o idealizado.

Bentha

Olha aí, minha cachorra indo para a Internet…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Embromação (2)

As línguas são realmente fantásticas. Veja-se o caso da palavra “embromação”, em português. O que ela significa em seu sentido comum? Em termos mais técnicos, qual seria a “extensão” da palavra (Tarski)? A extensão da palavra diz respeito a todas as descrições pragmaticamente possíveis desta palavra em uma linguagem.

Embromação pode significar: enrolação, embuste, mentira, tapeação, armação, fingimento. Em termos mais compostos: passar o tempo, fazer mal feito, não fazer algo e dizer que está fazendo. Ou seja, embromar tem a ver com aparecer, com fazer de conta. Na tirinha do Dinâmica de Bruto, que coloquei abaixo, o “embromation” ocorre quando uma pessoa não sabe fazer alguma coisa – cantar, filosofar, pintar… Embromamos quando não sabemos o que fazer, ou quando o sabemos apenas vagamente.

Podemos também pensar que o “embromador” faz algo que não está ligado a seu desejo. Nesse sentido, seu maior inimigo é o tempo; melhor: a temporalidade. É como se, não podendo preencher seu tempo com atividades que, de fato, corresponderiam a seu desejo, fosse preciso fazer o tempo passar com “qualquer bobagem”. O embromador se auto-engana, e, mais grave ainda, o “embromado” é, na hipótese mais ingênua, enganado; na hipótese mais cínica, o embromado é um leviano, que não rompe a farsa. Por exemplo: o que deve fazer o professor quando o aluno está embromando? Quando, num seminário ou exposição em que tem de se revelar minimamente articulado, fala uma linguagem oca? E o que o próprio aluno, na situação inversa, que está diante de um professor embromador, pode fazer? Quando tal professor passa atividades sem finalidade pedagógica aparente, ou quando, da mesma forma que o aluno (embora em outro nível), tem uma linguagem oca? O mesmo se poderia perguntar em relação ao participante de palestras de auto-ajuda, ou a um vendedor e muitos outros “atores” da vida social contemporânea.

Mas o discurso da embromação pode também ser uma arma: quando queremos acusar, diminuir a credibilidade de alguém, podemos dizer que essa pessoa está embromando. Nada mais cínico do que isso também.

Há, provavelmente, alguma antropologia no ato de embromar. Talvez tenha a ver com o conhecido “jeitinho brasileiro”, situação típica na qual os envolvidos sabem estarem engajados num simulacro – finja que compreenda o que eu falo, e eu finjo que estou sabendo o que estou falando. Repetições enfadonhas, truísmos mais rasteiros, metáforas estapafúrdias, linguagem privada (delírios mentais) passando-se por fala pública, brincadeirinhas ansiosas, “dinâmicas para revelarem-se os sentimentos”, paráfrases, orelhas-de-livro, sentenças “eu-acho que”, e tantas outras, compõem o cenário da foule à deux da embromação.


You cannot copy content of this page