Bartleby

Suponho que você conheça a estória de Bartleby, o escrivão. Como se sabe, o tal é um personagem criado por Herman Melville. Na trama que leva seu nome, Bartleby: o escrivão, este limita-se a dizer, diante de qualquer pedido que lhe é feito, “Prefiro não o fazer”.

Enrique Vila-Matas, escritor espanhol, dedica um livro ao que ele denomina de “Síndrome Bartleby”. O livro se chama “Bartleby e companhia“. Acabei de lê-lo. Vila-Matas narra a história de diversos “autores do Não”, como ele diz: gente que escreveu um livro (ou vários) e, de repente, desaparece. Lembro-me, no contexto local, de ter ouvido algo do tipo com alguns de nossos autores, por exemplo, o de “Lavoura arcaica”. Enfim.

Uma coisa leva à outra, pensei em Cioran, o filósofo hiper-pessimista, se o posso, irresponsável e deliberadamente, o chamar assim. Aliás, Vila-Matas, claro, o cita, pois seria imperdoável em um inventário dos escritores do Não.

E Cioran, num de seus aforismos (não me lembro em qual livro dele…), diz que um dos grandes males de nosso tempo é a idéia de “ser útil”. Este blog, por exemplo: qual sua razão de ser que não a utilidade de compartilhar algo com o anônimo (e improvável) leitor? É preciso haver utilidade. Uma pessoa é julgada pela sua utilidade.

Acho essa idéia de utilidade algo completamente burguês. O burguês (eu, você – que, com certeza, se está lendo este blog, é um burguês), vale pelo quanto ele faz; vale por sua realização, por sua “performance” – como diríam os risíveis (entre os quais me incluo) psicólogos “organizacionais”.

Qual sua utilidade, distinguível leitor?

Cadelinhas em ação (1)


Tenho duas cadelinhas Pinscher, a Gabi (na foto), e a Bentha. Como todo fanático por animais, eu não poderia deixar de “exibir” minhas beldades caninas por aqui (e numa série…aguardem mais!). Bom domingo pós-1 de janeiro!

O buraco no peito

Tirinha do artista Dresden Codak (via blog de Alessandro Martins).

Não sou “marxista”, mas…

Não sou marxista, nunca fui e, honestamente, não sei o que significa ser um. Mas dia desses, ao navegar pela internet, fiquei com a impressão de que muita gente fala muita coisa sobre “pós-modernidade”, “sociedade do espetáculo”, “mundo veloz” e coisas do tipo como se não tivessem o menor contato com a vida “real”. Para falar a verdade, acho que, em grandes cidades, poucas pessoas têm contato com a vida “real”, o que lhes permite viver num aparente mundo-de-faz-de-conta. Lembro-me de uma vez ter lido um livro, creio que de Wanderley Codo, escrito na década de 1980, no qual ele discutia o porquê de as pessoas estarem, àquela época, se interessando cada vez mais por práticas de embelezamento corporal, especificamente sobre musculação, body building e coisas do gênero. Para Codo, em forte inspiração marxista, as pessoas, por não precisarem “usar” o corpo no trabalho – no sentido de trabalho corporal, braçal – tinham de fazê-lo em uma academia. O que, para um operário por exemplo, é intrínseco a seu próprio trabalho (“exercitar-se”, levantar sacos de cimento, pintar prédios, ficar o dia todo em um trabalho fisicamente extenuante etc….), para o indivíduo de escritório, a maioria em cidades organizadas em torno de serviços, o único “trabalho” sobre seu corpo ocorre na academia. Ali, além de “trabalhar sobre o corpo” – a palavra “trabalho”, nesse sentido, é até curiosa, pois não há efetivamente a produção de nada -, o indivíduo pode trabalhar sua imagem, melhor sua imagem, sua estética. Pois bem, a sensação que tive foi mais ou menos parecida: por que tanta gente escreve tanta coisa, fala sobre tanta coisa, sem nunca a ter vivenciado? Para mim, a resposta é simples: por que, privadas de um contato real, de fato empírico e experiencial, vivem em um tipo de simulacro de realidade, fantasiando, gastando horas e horas em perlaborações mentais puramente fictícias. Quer dizer, acho que a contrapartida de uma sociedade de serviços é uma situação na qual uma pequena parcela de pessoas (no caso do Brasil) fica, literalmente, divagando sem qualquer escrúpulo.


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