Segurança vs. aventura

Tempos atrás escrevi por aqui sobre uma espécie de desejo contraditório, uma luta contínua entre permanência e mudança: por que não, de repente, pôr o pé na estrada? Não usei, na descrição que fiz, a ideia de ‘segurança’, mas Contardo Calligaris, na sua última coluna da Folha, o faz. Ele contrapõe, em tensão paradoxal, a vontade que temos de nos manter ‘seguros’, e o desejo de mudança, de aventura, bem ao estilo ‘hippie’ dos anos de 1960.

Do lado da segurança, penso em nosso medo do desconhecido (algo até banal de se dizer!): no medo do ‘outro’ que não é nosso próximo imediato (embora possa ser um ‘closer’, como no filme de Mike Nichols); no medo da ausência de rotina e do desafio que tal ausência impõe a nosso corpo (em sentido de corpo que afeta e é afetado: quando não se tem uma rotina a organizar, rigidamente, a vida, é nosso corpo que passa a delinear o que nos organiza, o que mobiliza nossos afetos). Talvez uma das formas de ‘segurança’ mais ficcionalmente construídas no ocidente é a da carreira: nela, sentimos que estamos ‘encaminhados’; sem ela, a impressão que se tem é que se caminha à deriva.

Do lado da aventura, podemos pensar na ‘desterritorialização’: em vez de se viver num lugar, vive-se num espaço. Os papéis que usamos para desempenharmos expectativas em registros específicos (no trabalho, com os amigos, mesmo na família) deixam de se fixar em nós com facilidade, e nos tornamos, fazendo aqui um abuso conceitual, o que os filósofos Deleuze e Guatarri chamam de ‘corpos sem órgãos’. No exemplo que eu dei em outro post sobre o assunto, a minha grande ‘fantasia’, se é que posso colocar assim, era simplesmente a de partir, ir para qualquer outro lugar, mas, ao chegar neste lugar, o desejo de partir novamente se apossaria, e o conflito com a ‘segurança’ (inclusive fisiológica, a qual considero cada vez mais forte!) se instalaria novamente.

Eis que Calligaris coloca as coisas em termos ainda mais, digamos, emblemáticos, cruciais ou dilemáticos, quando diz, ao comentar o último filme de Walter Salles (Na estrada):

O filme de Salles está sendo a ocasião imperdível de um balanço -ainda não decidi se festivo ou melancólico. Cuidado, o balanço não interessa só minha geração. Cada um de nós pode se perguntar, um dia, como resolveu a eterna e impossível contradição entre segurança e aventura: quanta aventura ele sacrificou à sua segurança?

Essa conta deveria ser feita sem esquecer que 1) a segurança é sempre ilusória (todos acabamos morrendo) e 2) qualquer aventura não passa de uma ficção, um sonho suspenso entre a expectativa e a lembrança.

Qualquer aventura não passa de uma ficção. Fiquei pensando, então, se nossa própria vida não poderia ser narrada na forma de uma ficção, com diversos personagens representando ‘alter egos’ possíveis de nós próprios, mas jamais plenamente realizados, realizáveis. E não deixaram de ser realizados porque fomos covardes, fracos, abrindo mão de nosso desejo: eles simplesmente não poderiam ser todos realizados, considerando a vida finita que levamos, os custos psicológicos envolvidos nos laços que fazemos e desfazemos, ainda que decidamos, como dizia C. Lasch, viver como um “mínimo eu”.

O empirista inseguro

Força de vontade

1.  Força de vontade, em nossa cultura, é frequentemente associado a coisas como perder peso, deixar de fumar, conquistar um sonho/objetivo, vencer no esporte; ou seja, associado à mudança de hábitos e a ideais a serem conquistados, a limites a serem superados (especialmente, limites pessoais, individualistas);

2. O mesmo se pode dizer do uso da expressão ‘força de vontade’ aplicada a casos em que não faríamos determinada coisa se não fosse por um ato de vontade, um ato contrário a alguma força de natureza desconhecida mas que nos faz fazer algo que, conscientemente, não faríamos. Neste sentido, ter força de vontade diz respeito ao sujeito moral, àquele que é responsável por seus atos;

3. Força de vontade, novamente em nossa cultura ocidental, está associado à ‘força’ em sentido mais estrito: força fisiológica. Neste caso, ter força de vontade é ser, fisiologicamente, capaz de lançar-se em um determinado curso de ação sustentado pelo corpo biológico (se estou relativamente em forma, sou capaz de perpetuar uma ‘força’ que, de outra forma, não conseguiria). Isto lembra aquelas propagandas de vitamina C, em que a pessoa que usufrui da mesma consegue enfrentar, com ‘vontade’, um dia pesado;

4. De algum modo, há uma relação tensa entre vontade e desejo: enquanto este vai por si, aquela precisa ser desenvolvida, sustentada, mantida (fala-se, por exemplo, “Eu tenho vontade de”…, mas isto seria mais corretamente dito como “Tenho desejo de…” [embora se guarde aqui alguma conotação sexual e, portanto, se opte pela primeira alternativa]). Talvez seja (em parte) por isso que o tema é debatido em filosofia moral;

5. E quanto à vontade em sentido mais cotidiano? O que você faz quando não está com ‘vontade’ de sorrir, de conversar com uma pessoa qualquer? Quanto, num evento coletivo (uma aula, uma reunião, etc.), prefere ‘deixar passar’, sem sentir-se com ‘vontade’ de defender seu ponto de vista (admitindo que você conheça e tenha um ponto de vista ao qual se pode chamar de seu)?

6. A apatia, a acédia, a preguiça, o torpor da inação, o deixar-se levar não apenas pelo fluxo do próprio pensamento (inverso à ação, neste caso), da situação, da atividade, do evento coletivo a se desdobrar na sua frente. Penso que isso ocorre, afora razões de ordem psicológica, pelo fato de estarmos imersos em muitas situações sem sentido, desconectadas de aspectos mais amplos e profundos de nossa existência. Vivemos, muitas vezes, apenas encenações que não demandam de nós uma ‘força de vontade’ eticamente necessária. Não seria muito chato ter ‘força de vontade’ em qualquer momento? Um ativismo sem fundamento, sem finalidade, absorto em 4 paredes?

7. É impressionante, pois, a cada ato seu que não é assentado em alguma vontade, é o fluxo do mundo, das pessoas e das coisas, do tempo em suma, que se impõe; é a fisiologia que se desdobra – somos pura fisiologia na ausência da vontade. É claro que esta última, a fisiologia, tem vontade própria. Em certo sentido, foi isso que Schopenhauer nomeou de a ‘vontade da natureza’, essa força cega, mas absurdamente forte e insistente, logo depois chamada de pulsão de morte por Freud. A vida, a fisiologia, tende a buscar sua perpetuação; sua ‘força de vontade’ é descomunal. Schopenhauer era um ‘desconfiado’ da vontade;

8. De onde vem a vontade? Não é, decerto, a ‘motivação’ do pensamento gerencial moderno, impregnado e imbecilizante (pois é óbvio que, ao não se ter vontade na empresa, a mais valia não é extraída – no mundo público, exceto em alguns casos de ambição pessoal, a falta de vontade é absurda, pois muitas pessoas, ao terem sua vida material resolvida, simplesmente exibem, para si e para os outros, que sua vida perdeu o sentido, virou um deserto, preenchido com pequenos consumos); a vontade vem…bom, isto é assunto para outro post, em algum momento.

1976, 23/06

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2012, 23/06

* Num ato bem privado, ao digitar cada data acima, uma imensidão de acontecimentos, em forma de flash. A vida é um flash?

Dogville

Ontem assisti novamente a Dogville, do Lars von Trier. Acho que é a terceira vez que assisto. Ao contrário das outras vezes, porém, não havia percebido a sagacidade do final, justamente a parte dos créditos. Eis que a achei na net. Infelizmente, não dá para reproduzir aqui porque o Youtube não permite, mas você pode assistir diretamente no endereço original. A música é de David Bowie – e esta sim reproduzo abaixo (caso queira só ouvi-la sem a cena dos créditos de Dogville, embora se perda bastante o efeito pretendido). Tente imaginar, se você já assistiu a este filme, o porquê deste final…

Vidas possíveis

Nos últimos livros de Philip Roth duas temáticas têm sido salientes: a proximidade da morte do personagem principal e, ligado a isto, certo desejo incontrolável (nos homens), um fascínio, pela vida de outras pessoas mais jovens. Velhice e juventude. O desejo que, mesmo com o passar do tempo, não arrefece, pelo contrário: se intensifica num misto de consciência da decadência, memória e a infinitude.

É impressionante como a juventude vive como se o amanhã fosse infinito. Isto não é uma novidade. Não até o ponto em que você vive isso, observa o transcorrer do tempo, observa a perda a seu redor, no seu ínfimo mundo privado. Ao mesmo tempo em que sente (ou percebe) que o jovem sequer cogita sua própria finitude. Lei da selva, lei da sobrevivência; talvez.

Voltando a Philip Roth. Num caso, o personagem se perde, se apaixona pela Lolita; contempla seu corpo em seu pleno vigor. Contraste do corpo jovem com o corpo velho. Há mais do que o lugar-comum do ‘ímpeto’ versus a ‘experiência’: há alguma coisa que se perde no confronto do velho com o novo. Em outro caso, o filho observa uma tomografia da cabeça do pai. Imagens gravadas da cabeça do pai – não de qualquer pessoa. O pai vai escorregando para a morte, e o filho faz seu luto.

Acho que é isso, foi por isso que dei por mim escrevendo estas coisas, lembrando dos enigmáticos, profundos, personagem de Philip Roth: cada momento de nosso dia está pleno de possibilidades não realizadas; está repleto de angústias e nostalgias por uma vida não vivida, por uma vida que seria possível mas não é, e não porque não nos arriscamos ou coisa do tipo, mas porque não conseguimos, simplesmente não conseguimos, viver ‘todas’ as vidas possíveis. Ocorre que cada pessoa, cada jovem (na metáfora usada aqui), ‘combinado’ contigo e com certas ‘condições’, gera uma paradoxal, irrepetível e ao mesmo tempo fugaz vida.

Persistência e esperteza

Economia criativa em São Paulo

Acaba de sair um relatório bem completo e interessante da Prefeitura paulista sobre as indústrias criativas na cidade de São Paulo (“Economia criativa na cidade de São Paulo: Diagnóstico e potencialidade). São dados recentes e animadores sobre o setor. Os interessados podem acessá-lo aqui.


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