Entre dizer e compreender

Ainda falando sobre sentido de acordo com Nagel (penso, especificamente, no capítulo The Meaning of Words, de What Does It All Mean?), gostaria de acrescentar algumas reflexões a partir da Carta VII de Platão.

Nagel faz um exercício de questionamento sobre o que haveria nas palavras que lhes permite possuir o sentido relativamente estável e universal que possuem. Seria um conceito ou uma ideia por detrás das palavras, garantindo essa universalidade? E, se assim for, onde estaria isso? Na mente ou em alguma realidade externa para a qual a mente se dirige?

Ele dá o exemplo da palavra “tabaco”, perfeitamente compreendida por um falante do Brasil e também, embora mediante outra palavra, por um habitante da China. Em ambos os casos, o fato de brasileiros e chineses saberem a que se está referindo quando se usa a palavra “tabaco” ocorreria porque ambos estão pensando ou apontando mentalmente para a planta tabaco?

Mas os problemas não terminariam aí. Teríamos então de explicar qual seria a ligação entre a palavra tabaco e a ideia de tabaco, bem como entre essa ideia e a própria planta. Teríamos, portanto, uma relação palavra<>ideia e outra ideia<>coisa.

Poderíamos imaginar que existe algo na mente capaz de realizar essas ligações e assegurar a generalidade do significado. Mas quando penso em tabaco, posso evocar a imagem de um cigarro; você, por sua vez, pode imaginar folhas secas da planta. Como é que essas imagens particulares poderiam garantir a universalidade do sentido da palavra, a ponto de ela ser compreendida em culturas distintas?

É nesse ponto que Nagel apresenta uma formulação particularmente interessante:

“The mystery of meaning is that it doesn’t seem to be located anywhere—not in the word, not in the mind, not in a separate concept or idea hovering between the word, the mind, and the things we are talking about” (p. 43).

O significado não estaria nem na mente, nem na coisa, nem na própria palavra. Mas então onde estaria?

Claro que poderíamos recorrer a outras perspectivas para enfrentar a questão: a pragmática, a linguística ou mesmo a psicologia cultural semiótica. Nesta última, ganha destaque o papel mediador dos signos (por exemplo, na concepção triádica de Peirce). Na pragmática — tomemos Richard Rorty como exemplo — o significado é inseparável de seu uso em determinados jogos de linguagem ou práticas sociais. O próprio Nagel, aliás, termina o capítulo enfatizando o caráter social da linguagem. Não possuímos uma linguagem privada no sentido estrito do termo; caso contrário, a comunicação seria impossível. O fato de termos sido introduzidos na linguagem desde a infância e nela socializados nos permite participar dos inúmeros contextos em que a linguagem opera.

No entanto, ocorreu-me relacionar a observação de Nagel a um texto muito diferente das perspectivas mencionadas acima: a Carta VII de Platão.

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O contexto da Carta VII é a descrição das viagens de Platão a Siracusa, onde tentou influenciar a formação de Dionísio para que este se tornasse um governante-filósofo. A iniciativa surgiu sobretudo por intermédio de Díon, que acreditava existir ali uma oportunidade rara de aproximar filosofia e poder. As coisas, porém, não saem conforme o esperado, e a carta acaba se tornando também um relato das decepções de Platão diante da política e de sua degeneração em interesses pessoais, rivalidades e disputas de poder.

Meu interesse, porém, está em uma longa digressão na qual Platão aborda o problema das palavras e sustenta que as questões mais importantes não podem ser adequadamente traduzidas em linguagem. A motivação imediata é sua reação ao fato de Dionísio ter escrito um tratado filosófico que alegadamente reproduziria suas ideias.

Para desenvolver o argumento, Platão apresenta cinco níveis do conhecimento. Tomemos a palavra “círculo”. Temos inicialmente o nome: a palavra propriamente dita, o som, o termo linguístico. Em seguida, a definição: uma figura cujos pontos são equidistantes do centro. Em terceiro lugar, a imagem: o desenho ou representação do círculo. O quarto elemento é o conhecimento, isto é, a compreensão que possuímos do círculo. Por fim, o quinto elemento é a própria coisa — o círculo enquanto objeto inteligível, aquilo que lhe conferiria sua “circulidade”.

O problema, segundo Platão, é que nenhum dos quatro primeiros níveis coincide com o último. Palavras, definições, imagens e mesmo nosso conhecimento sobre as coisas apenas apontam para aquilo que procuram expressar, sem jamais capturá-lo inteiramente.

Em sua crítica à tentativa de Dionísio transformar filosofia em tratado, emerge uma distinção profunda entre falar sobre algo e efetivamente compreendê-lo. A filosofia não seria um conjunto de definições organizadas em um manual, mas uma forma de vida fundada em questionamentos constantes, diálogo, convivência prolongada com determinados problemas e, finalmente, uma transformação da alma.

Ler uma centena de livros de filosofia não garante essa transformação. As palavras podem funcionar como gatilho, mas não são a compreensão que delas eventualmente nasce. Platão recorre a uma imagem muito bonita: a de uma chama que surge de uma faísca. O conhecimento verdadeiro não se reduz à acumulação de definições; ele emerge de um longo processo de investigação e amadurecimento intelectual.

Posso ler cem livros sobre corrida, estudar fisiologia, biomecânica, metabolismo energético e treinamento esportivo. Ainda assim, isso não equivale a compreender o que significa correr. Mas tampouco creio que Platão esteja se referindo simplesmente àquilo que hoje chamaríamos de experiência. Isso seria excessivamente fenomenológico. A noesis não é experiência; é uma apreensão intelectual. A alma entra em contato com a verdade da coisa.

Naturalmente, quem conhece Platão lembrará de sua teoria das Formas e da existência de realidades inteligíveis independentes das palavras e dos sujeitos. Talvez compreender as consequências dessa posição exija, ao menos provisoriamente, suspender nossa tendência moderna de tomar o sujeito como ponto de partida do conhecimento. Em boa parte da epistemologia contemporânea, é a coisa que vem ao sujeito. Em Platão, ao contrário, palavras, definições e imagens constituem tentativas de ascender até aquilo que as transcende.

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Longe de mim tentar conciliar dois autores tão distintos quanto Nagel e Platão. Meu ponto é outro.

Onde está o significado?

Ele não parece estar simplesmente nas palavras, nem na mente, nem nos objetos (Nagel). Também não parece residir nas definições, imagens ou conhecimentos que formulamos acerca das coisas (Platão). Platão dá um passo adicional e situa esse excedente para além da linguagem; Nagel prefere preservar o mistério.

Mas talvez a questão que mais me interessa não seja exatamente onde está o significado. O que me intriga é por que continuamos a falar, escrever, explicar e interpretar quando repetidamente nos deparamos com a sensação de que aquilo que queremos dizer escapa das palavras utilizadas para dizê-lo.

Talvez seja justamente essa distância que mantém vivo o pensamento. Se palavras e conceitos fossem suficientes, não haveria motivo para retornar aos mesmos problemas, reescrever os mesmos textos ou revisitar as mesmas perguntas. Continuamos falando não porque acreditamos que a linguagem capture definitivamente aquilo de que fala, mas porque ela permanece sendo uma das poucas formas de nos aproximarmos do que constantemente a excede.


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