Quando você corre longas distâncias e persiste fazendo isso por alguns anos, começa a notar mudanças no próprio corpo. A sensação é de que, sim, o corpo é um tipo de máquina e muda conforme o que você faz com ela. Sabemos disso intuitivamente, mas é bem diferente experienciá-lo na prática. Além do mais, se nosso “eu” é, em certa medida, um “eu situado”, quer dizer, um eu com superfície, um eu corporal, então esse “eu” também muda. Não se trata de uma mudança tão óbvia como o aumento da capacidade de endurance. São mudanças muito mais sutis.
Nos dias atuais, com a abundância de gadgets, é possível quantificar tudo: colocar o corpo-eu em gráficos, comparar métricas, verificar a evolução, estudar aprimoramentos e comparar-se com outras pessoas. A esse propósito, existe um bom livro, The Quantified Self, de Deborah Lupton. A autora descreve um filtro por meio do qual o eu se apreende, ou se “apalpa”, quando representado por métricas quantificáveis e rastreáveis. Muitas pessoas podem correr “apenas” para se perceberem evoluindo ano após ano. Se correm sem um relógio de tracking, têm a sensação de que o exercício não valeu, de que faltou algo.
É mais ou menos como aquela pessoa que, ao visitar um lugar histórico, prefere a selfie à experiência não mediada com o lugar. Nota: não existe, claro, experiência não mediada em sentido estrito. Uso essa expressão apenas como efeito retórico, para destacar a necessidade de um intermediário. A foto, a esta altura do campeonato, nem sequer é mais o objeto final, mas apenas um meio para o verdadeiro fim: a rede social. É por meio desse intermediário que a experiência pode ser recuperada subjetivamente.
Há ainda a possibilidade de o eu não pensar enquanto corre e, sobretudo, não pensar por que corre. Trata-se daquela pessoa que corre porque quer correr. É o que Aristóteles designava como eudaimonia: realizar uma atividade pelo prazer da própria atividade. O eu, nesse caso, não se importa tanto com métricas – que seriam, por si mesmas, uma razão para correr (algo externo à atividade em si). Seu critério é mais básico: consegue ou não correr mais, por mais tempo, sem lesão. A experiência é verificada na própria memória. A referência está no corpo, naquilo que ele é ou não capaz de fazer in loco. Não há comparação deliberada com outras pessoas, tampouco espetacularização da atividade, como ocorre com muitos que participam de provas de rua e para quem o melhor momento é aquele em que se tira a foto para postar.
São dois extremos. Há granularidades entre eles.
Quando você corre, sente o corpo e é, ao mesmo tempo, o corpo. Não há muito mais a que se referir, a não ser o corpo em movimento e o ambiente. Começar no ponto X e voltar ao ponto X. A coisa começa e termina em cada corrida. Para mim, o aspecto mais interessante tem a ver com o sentido. Qual é o sentido de começar em X e, algum tempo depois, voltar para esse mesmo X? O que se alcançou? Sei que, ao fazer essas perguntas, e ao colocar a própria questão do sentido, eu já estou talvez induzindo a se pensar em algo externo à atividade em si. Talvez.
Onde estaria o sentido? Antes, durante ou depois da corrida? Correr por saúde? Para competir? Para “vencer” a si próprio? Para se desafiar? Pode ser tudo isso ao mesmo tempo. Você consegue imaginar um humano pertencente a uma comunidade de caçadores-coletores dedicando duas ou três horas a simplesmente correr pela aldeia, saindo de X e voltando a X? Ou então para se manter em forma? Para impressionar outros membros da tribo? Para chegar mais perto de Deus? Talvez o movimento estivesse muito mais ligado à busca por comida, abrigo e proteção – o que, admito, já seriam propósitos que justificariam a atividade. No nosso caso, para variar, as coisas são mais complicadas. Isso porque nós criamos redes e mais redes de significações. A corrida ocorre em uma arena semiótica.
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Particularmente, acho que o sentido de correr tem a ver com a ideia ilustrada no mito de Sísifo, mas sem sua versão como pena ou castigo, a menos que você entenda que corre para punir a si mesmo. Afinal, é uma atividade que desgasta articulações, músculos e até os próprios ossos, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, os fortalece.
Camus propôs a imagem de um “Sísifo feliz”. Visto à distância, seu gesto parece fechado sobre si mesmo: subir a pedra, vê-la cair, descer e recomeçar. Mas, em um nível microscópico, há as mãos encontrando a pedra, os braços e as pernas respondendo ao esforço, o sol sobre a pele, a brisa da noite sobre os cabelos. Essa vivência não pode ser extraída de Sísifo, pois ele a experimenta diária e concretamente. Com seu corpo. No ambiente. Com a pedra.
É aí que se pode distinguir o significado do sentido – algo que tenho tentado fazer faz algum tempo, especialmente em pesquisas acadêmicas. Os significados da corrida já estão disponíveis: correr para ter saúde, superar limites, melhorar o pace, desenvolver disciplina, controlar a ansiedade ou tornar-se uma versão melhor de si mesmo. Influenciadores, treinadores, fabricantes e aplicativos oferecem continuamente narrativas sobre por que, como e onde correr. São significados externos, compartilháveis, que organizam e explicam a atividade.
O sentido, porém, é singular. Não está inteiramente nessas narrativas, ainda que se constitua por meio delas. Está na relação concreta entre aquele corpo, aquela história e aquela corrida. Não é apenas uma explicação sobre a experiência, mas o modo como ela é vivida. Talvez seja essa a sensualidade de Sísifo: não uma finalidade secreta capaz de redimir seu trabalho, mas a experiência sensível e irredutível de realizá-lo. E, nesse plano, talvez nunca tenhamos acesso ao sentido que cada pessoa vivencia em sua atividade de correr. Paradoxalmente, talvez nem ela, mas esta já seria uma inferência muito radical da minha parte.
A corrida seria algo semelhante à experiência sensual sisifoniana. Você pode estabelecer uma relação profundamente íntima consigo mesmo. Se o eu é corporal, então temos um eu-corpo em movimento, correndo sem propósito ligado a uma necessidade objetiva (como perseguir um animal para abatê-lo e usá-lo como alimento), sentindo o coração, as forças de contato com o chão, as dores, o calor e o vento, e sabendo que, até retornar ao ponto X, não há o que fazer senão correr.
O corpo reage e, com ele, o eu é arrastado. O coração se torna mais eficiente, as pernas mais sólidas, a postura e o core mais fortes. Você se torna um eu-corpo diferente. Tudo isso às expensas de uma atividade sem finalidade externa evidente, sem teleologia. Há um invólucro no qual você pode permanecer, como Sísifo, capturado: um corpo inteiramente aberto, que não é fixo e depende de estímulos e interações, e um eu que tenta acompanhá-lo, às vezes sem compreender intelectualmente o que está acontecendo, mas sentindo-o concretamente.
Talvez seja isso que Camus preserve ao imaginar Sísifo feliz: não uma finalidade secreta para o trabalho, nem a pedra convertida em símbolo de resiliência ou produtividade. Seria fácil transformar Sísifo em influenciador, explicando que empurra a pedra para superar limites e fortalecer os músculos do abdômen – mas isso apenas revestiria o absurdo com uma narrativa edificante. A pedra continuaria caindo. Sua felicidade não depende de justificativa externa que redima a repetição; está na apropriação daquele instante, na relação concreta com o mundo. Não vem depois da subida, como recompensa – está na própria subida, ou não está em lugar algum.