Aprendizagem de ganso

De modo puramente aleatório, chegou até mim hoje um texto sobre formação presbiteral. Nada poderia estar mais distante da minha vida atual. Ainda assim, houve um tempo em que esse tema me seria profundamente familiar. Participei, por alguns anos, de um seminário menor – etapa formativa inicial de quem começa a trilhar o caminho rumo ao sacerdócio. À época, textos como esse fariam parte natural da minha rotina. Seja como for, o artigo toca em um ponto absolutamente fascinante, que, no contexto da formação teológica, assume contornos ainda mais dramáticos: até que ponto a formação, de fato, transforma quem é formado.

A tese central do texto é a de que pode haver um tipo de formação presbiteral em que os conteúdos são assimilados, os conceitos bem articulados e os estudos conduzidos com diligência, sem que nada disso, contudo, produza uma transformação real do sujeito. Trata-se de uma formação que opera no plano cognitivo, mas não alcança o coração nem a alma. O autor recorre à imagem de uma “teologia de ganso”: um saber que escorre pela superfície, sem penetrar. Na melhor das hipóteses, o resultado é um bom gestor, um executor eficiente de rituais; não, porém, um pastor capaz de se deixar afetar pelo sofrimento alheio, nem de permitir que o encontro com o outro o transforme.

Ao transpor essa reflexão para minha prática atual, vejo com clareza um dilema análogo na formação em psicologia, campo em que atuo. Evidentemente, não se trata do mesmo grau de mobilização existencial envolvido na formação sacerdotal; afinal, não estamos formando padres, mas futuros psicólogos. Ainda assim, há semelhanças importantes. A formação em psicologia não lida apenas com objetos externos ao sujeito, mas convoca continuamente seus afetos, sua história, sua própria subjetividade. No entanto, no campo específico da psicologia do trabalho (meu campo), essa dimensão transformadora tende a aparecer de modo mais opaco, já que o estudante é frequentemente pensado – ao menos em tese — apenas como um futuro trabalhador.

Aliás, acho curioso notar que um estudante mediano de psicologia costuma se envolver muito mais intensamente com temas como o “ser”, o “nada” ou o “ser-no-mundo” do que com discussões sobre sentido do trabalho. Isso ocorre, primeiro, porque a maioria dos estudantes — especialmente em universidades públicas – não é, ao mesmo tempo, trabalhadora e estudante. Falta-lhes, portanto, familiaridade concreta com as problemáticas do trabalho e, menos ainda, com a experiência das organizações, frequentemente percebidas apenas como espaços de exploração. Segundo, porque o psicólogo em formação parece ter dificuldade em admitir, salvo de modo difuso e por vezes ressentido, que também ele será um trabalhador inserido em uma economia de serviços.

O psicólogo, em regra, não ocupa um “emprego” clássico; tende a atuar como profissional liberal ou autônomo, à semelhança de médicos, dentistas ou fisioterapeutas. Isso significa ingressar em um mercado marcado pela oferta de serviços, pela oscilação da demanda e, não raramente, por condições de precarização. Paradoxalmente, o trabalho – que estrutura concretamente a vida adulta – aparece para esses estudantes como algo mais abstrato do que categorias filosóficas como o ser.

Diante disso, a questão que se impõe aos educadores que atuam na psicologia do trabalho e das organizações não diz respeito apenas a como ensinar melhor, mas a como tornar o trabalho psicologicamente pensável e experienciável. Trata-se de ir além de uma relação instrumental com conteúdos, conceitos e habilidades, consumidos apenas para que a disciplina seja concluída e se possa “seguir adiante” para matérias consideradas mais interessantes. O desafio é implicar estudantes que, embora não sejam trabalhadores stricto sensu, vivem cercados por trabalhadores e atravessados, direta ou indiretamente, pelas dinâmicas do mundo do trabalho.

Uma estratégia que tenho utilizado é partir da vida clínica. Procuro abordar o trabalho a partir de sua função psicológica, explorando seu potencial ambivalente: ao mesmo tempo fonte relevante de adoecimento mental e de saúde psíquica. Ao fazê-lo, parto da premissa de que o trabalho possui uma centralidade psicológica que excede sua função de mera subsistência. Um obstáculo imediato a essa abordagem é a própria concepção que muitos estudantes – hoje rotulados como “Geração Z” – têm do trabalho. Diversas pesquisas sugerem que esses jovens tendem a relativizar sua centralidade, priorizando a vida pessoal, o tempo livre e experiências subjetivamente significativas, em detrimento do sucesso profissional, do carreirismo e do consumo.

Somado ao fato de ainda não serem trabalhadores, esse deslocamento torna mais difícil sustentar a tese das imbricações profundas entre trabalho e vida psíquica. Ainda assim, vejo aí um caminho promissor. Outra possibilidade pedagógica seria inverter a lógica do ensino: abandonar a primazia dos conteúdos e processos para colocar no centro da formação a própria experiência dos alunos. Isso implica trazer o estranhamento em relação ao trabalho e às organizações para o primeiro plano da discussão, não como pano de fundo, mas como ponto de partida. Em outras palavras, fazer do desconforto, da distância e da resistência ao tema do trabalho o próprio motor da reflexão formativa.

Diplomatas do vazio

No final dos anos 1950, o sociólogo William H. Whyte publicou The Organization Man. A ideia central do livro é que pessoas inseridas em organizações tendem a priorizar o pensamento grupal em detrimento do pensamento individual. Se pensarmos em comportamento organizacional, o argumento fundamental é que, ao participar da vida organizacional, o indivíduo passa a desenvolver certos padrões de conduta que são, em larga medida, moldados pela cultura da organização, pela interação continuada com outras pessoas ao longo do tempo, pela rotina compartilhada, pelas regras formais e informais, entre outros fatores.

Uma pessoa inserida na organização X terá, nesse sentido, parte de seu comportamento influenciada por características específicas dessa organização. Outra pessoa, na organização Y, apresentará outras particularidades comportamentais, uma vez que o ambiente, o contexto e a cultura da organização Y diferem daqueles da organização X. Evidentemente, existe uma faixa de comunalidade entre essas organizações (X, Y, Z, W…), seja pelo setor econômico em que se inserem, seja pelo fato de todas estarem atravessadas por elementos estruturantes do neocapitalismo contemporâneo: competição permanente, trabalho orientado a resultados, pressão por desempenho, risco constante de perda do emprego, entre outros.

Ainda assim, tendemos a minimizar a influência desses grupos institucionalizados sobre o nosso comportamento, sustentando (não sem certo grau de ilusão ou autoengano) a crença de que estamos plenamente no controle de nossas ações. Whyte criticou justamente aquilo que chamou de comportamento de manada, no qual a identidade pessoal é suplantada, muitas vezes de modo consentido, pela identidade social. Nesse registro, a pergunta “Onde você trabalha?” passa a definir mais profundamente um indivíduo do que questões como “No que você acredita?”.

Eu expandiria a noção de homem-organização não apenas para compreender comportamentos compartilhados, mas também patologias compartilhadas. Trata-se de um movimento já explorado por Christophe Dejours, no campo da psicodinâmica do trabalho, ao analisar o que ele denomina estratégias defensivas coletivas: formas de funcionamento psíquico e relacional que um coletivo desenvolve para lidar com as exigências, sofrimentos e contradições de um determinado métier. Desenvolverei melhor este ponto mais adiante.

Tomemos, como exemplo, o ambiente universitário: como qualquer outro ambiente organizacional (afinal, uma instituição de ensino também é uma organização – não apenas por possuir CNPJ, mas porque envolve divisão do trabalho, metas a serem alcançadas e uma lógica de gestão cada vez mais próxima da gestão privada), este favorece a emergência do que chamarei aqui de “espécies exóticas”. Há uma diversidade dessas espécies; para efeitos de reflexão preliminar, contudo, limitarei a análise a apenas uma delas.

Refiro-me à figura do “diplomata do vazio”. Muitos rituais universitários são essencialmente performáticos. Tomemos como exemplo uma banca de qualificação ou de defesa de dissertação ou tese. O objetivo formal é avaliar o trabalho escrito de um estudante. No entanto, se aplicássemos critérios universais e abstratos de rigor intelectual, grande parte dos pareceres poderia assumir um tom bastante crítico. Isso porque há uma relativa homogeneidade na qualidade desses trabalhos – homogeneidade que raramente aponta para rupturas teóricas, inovação substantiva do conhecimento ou mesmo sofisticação de linguagem e clareza estilística (aliás, o mesmo poderia ser tranquilamente dito do trabalho de muitos professores também!). Pelo contrário, muitos textos são medianos e, não raro, aquém disso.

Ainda assim, nesses contextos, uma crítica contundente tende a ser socialmente inapropriada. Em nome do estímulo ao desenvolvimento intelectual do aluno e, muitas vezes, da preservação do próprio ritual, o professor costuma tecer elogios e apresentar “melhorias”, cuidadosamente formuladas como sugestões. Não raramente, faz questão de enfatizar que aquilo que está dizendo “não deve ser entendido como crítica”. O resultado é uma diplomacia discursiva que preserva as formas, mas esvazia o conteúdo crítico: uma negociação simbólica permanente entre o que se pensa, o que se diz e o que efetivamente se pode dizer naquele espaço.

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A figura do “diplomata do vazio” não deve ser lida apenas como um tipo comportamental ou moral, mas como um sintoma. Mais especificamente, como a expressão de uma forma particular de sofrimento psíquico produzida pela organização do trabalho universitário contemporâneo. Não se trata de patologia individual, tampouco de traço de personalidade, mas de um efeito subjetivo recorrente de um certo modo de funcionamento institucional.

Essa leitura encontra um antecedente importante nos trabalhos de Louis Le Guillant, um dos pioneiros da psicopatologia do trabalho. Ao estudar determinadas categorias profissionais, Le Guillant mostrou que o sofrimento psíquico pode ser diretamente produzido pelas condições e pela organização do trabalho. A analogia ajuda a pensar o diplomata do vazio. Qual é o traço psicopatológico que ele deixa como rastro? Minha hipótese é que ele produz algo próximo de traços depressivos. Não no sentido clínico estrito, mas como um empobrecimento progressivo da experiência de sentido associada ao trabalho.

O diplomata do vazio opera em um regime permanente de dissociação. Ele pensa mais do que pode dizer; avalia mais do que pode expressar; percebe mais do que pode sustentar publicamente. Para manter-se funcional no sistema, aprende a modular sua fala, a neutralizar a crítica, a administrar expectativas. Esse exercício constante de contenção tende a manter o status quo, mas às custas de um potencial esvaziamento subjetivo.

O núcleo do sofrimento parece estar, ao menos em parte, na fissura entre o ideal e o real. Muitos ingressam na universidade movidos por uma imagem – ainda que idealizada – de um espaço dedicado ao pensamento crítico, à criação intelectual, à ousadia conceitual e à autonomia do saber. Quando a experiência cotidiana se organiza em torno de rituais performáticos, validações recíprocas e produtividade formal, essa imagem não se desfaz abruptamente; ela se torna um ponto de comparação silencioso, permanente. É dessa comparação que emerge o desgaste.

O efeito subjetivo não é, em geral, um “colapso” clássico, mas um estado difuso de desânimo produtivo, cinismo leve, perda de entusiasmo, redução do investimento libidinal no trabalho. O sujeito continua funcionando, produzindo, participando – mas com menor vitalidade psíquica e com uma dissonância crescendo dentro dele. O trabalho segue sendo feito (mesmo bem-feito), porém já não alimenta integralmente a identidade; ao contrário, pode passar a drená-la. É nesse sentido que o diplomata do vazio pode ser lido como portador de uma psicopatologia do sentido: o trabalho deixa de operar como fonte de significação e passa a ser vivido como um circuito fechado de reprodução institucional.

À maneira de Le Guillant, não se trata de perguntar “o que há de errado com esse sujeito?”, mas “o que há na organização do trabalho que produz, de modo recorrente, esse tipo de adaptação subjetiva?”. O diplomata do vazio denuncia, assim, não uma falha individual, mas uma forma de adoecimento discreto, socialmente aceitável e, justamente por isso, amplamente disseminada. Um adoecimento que não paralisa, mas esvazia, primeiro, aos poucos, e então cronicamente; que não destroi totalmente, mas apaga lentamente a experiência de sentido do trabalho intelectual.

Folie à deux

Ainda no campo da teatralidade da vida social, destaco a ideia de folie à deux, ou “loucura a dois”. Penso ser possível estender o fenômeno para delírios coletivos. Na essência, a folie à deux captura a situação em que duas pessoas – ou um grupo – encontram-se deslocadas da realidade sem o perceber. E não percebem justamente porque cada uma reforça e confirma a loucura da outra. Se o reconhecimento do outro funciona como espelho para validar quem somos ou o que fazemos, então o simples ato de um par endossar nossa conduta tende a criar a sensação de que realmente correspondemos ao que está sendo validado.

A ruptura dessa loucura a dois ocorre quando um “terceiro” intervém nesse circuito encapsulado, furando a bolha de retroalimentação. Esse terceiro pode assumir formas diversas. Em um casal, por exemplo, muitas vezes o nascimento de um filho exerce esse papel disruptivo: ele insere uma referência externa, desloca a simetria e interrompe a circularidade afetiva.

Mas há um terceiro que, na vida social mais ampla, especialmente quando pensamos em grupos, ocupa esse lugar de maneira estrutural: a dimensão institucional. Em tese, a instituição deveria garantir pontos de contato com um real externo, funcionando como uma voz terceira capaz de impedir a formação de uma redoma autoreferente.

File:Francisco de Goya - La casa de locos - Google Art Project.jpg

La Casa de Locos, Goya [1808/12]. Fonte.

Entretanto, paradoxalmente, a própria dimensão institucional pode produzir as condições da loucura a dois que deveria combater. Tomemos uma universidade pública como exemplo. Embora variem os arranjos conforme a área, o fenômeno tende a convergir: ao invés de fomentar diversidade e controvérsia (isto é, anti-bolhas), agentes universitários frequentemente recorrem a dispositivos que reforçam enclausuramentos. Um exemplo são os subgrupos organizados por “afinidades teórico-metodológicas”. Eles participam dos mesmos congressos, partilham jargões, referenciam-se mutuamente, orientam estudantes que logo reproduzem o mesmo circuito, publicam nos mesmos periódicos (muitas vezes criados exatamente para desovar a produção do grupo) e integram associações nacionais que consolidam essa redoma.

Mais intrigante, porém, é quando a instituição cria rituais impessoais, supostamente neutros, que deveriam regular a vida acadêmica, mas que acabam alimentando a mesma circularidade. A ideia de que “pares julgam pares”, um princípio salutar, pode se converter em terreno fértil para a folie à deux, pois os critérios, embora formalmente objetivos, são operacionalizados segundo a mentalidade particular de subgrupos.

Pessoalmente, vejo que a loucura a dois ganha força sobretudo no terreno dos afetos. Elogios cruzados, expressões infladas de reconhecimento, metáforas afetivas e platitudes constituem dispositivos de blindagem: bloqueiam o acesso de terceiros, impedem tensões críticas e produzem uma realidade circular cuja principal evidência é “o que os corpos sentem ali”. Se há corpos sentindo algo, então há validação. Quanto mais corpos, maior a sensação implícita, ou mesmo explícita, de realismo.

Uma nota essencial: é perfeitamente possível criar circularidades não apenas afetivas, mas também baseadas em critérios supostamente objetivos, especialmente no universo universitário. Falarei mais sobre isso abaixo.

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E como romper a circularidade retro-alimentada?

Uma forma de furar o círculo seria restituir o impessoal – não a burocracia, mas um critério universal de avaliação que ainda não existe. A história é repleta de exemplos de sujeitos considerados loucos, excêntricos ou marginais que, somente depois, foram reconhecidos. Romper com os círculos de loucura a dois implica romper com uma segurança ontológica falsa. Implica viver como um pária – alguém que não se encaixa, que recebe poucos elogios, pouca ancoragem afetiva. Mas, para isso é preciso ter algo, uma obra que realmente exceda o círculo. Sem obra, a situação fica mais precária. Não falo de genialidade transcendental, mas de singularidades que produzam efeitos para além dos fenômenos imediatos.

Uma outra estratégia, menos fecunda, seria tornar-se um cínico: um denunciador sistemático da teatralidade, das platitudes, das condecorações mútuas. Ou ainda a indiferença niilista, recusando o jogo por inteiro.

No contexto universitário, o cínico é aquele que se recusa a integrar grupos por afinidades teórico-metodológicas e se abriga na “pluralidade de perspectivas” – ou mesmo na ausência de qualquer base teórica única. Mas, para não naufragar, esses solitários institucionais frequentemente aderem ao produtivismo, como se a validação pelos pares distantes – citações anônimas ao redor do mundo ou similares – pudesse funcionar como antídoto para a validação afetiva que não recebem (ou que deliberadamente recusam) no âmbito local. Ou a chancela de uma agência de fomento corporativista, que cria escalas de produtividade e importância, colocando como que um “selinho” de qualidade nos currículos desses indivíduos. Num gesto paradoxal, o esforço de se distanciar da loucura a dois termina, ele próprio, jogando o cínico produtivista de volta à loucura coletiva que a própria instituição ajudou a instaurar: o produtivismo vazio.

Há ainda aqueles que respondem ao mesmo dilema dobrando a aposta no polo afetivo, só que agora deslocando-o para outra direção: os alunos. Trata-se do professor que decide investir, quase que exclusivamente, na faceta docente para além da relação transacional – ensinar, corrigir, avaliar – e passa a depender profundamente da própria performance em sala e da busca pelo amor dos estudantes. Nesse caso, o reconhecimento assume a forma de “paraninfo”, “patrono”, placas esquecidas em corredores, homenagens que alimentam a sensação de missão cumprida, de contribuição à sociedade, de formar futuros profissionais que levarão adiante a chama do saber. Aqui, a loucura a dois não se circunscreve ao círculo de pares acadêmicos, mas emerge entre professor e audiência estudantil, numa retroalimentação afetiva que também se fecha sobre si mesma.

No limite, tanto uns quanto outros, mas muito mais o cínico produtivista, acabam por aprofundar sua loucura a dois – agora não mais com um indivíduo, mas com o próprio sistema. Afirmam que seu valor reside nos indicadores de impacto, como se a ausência de reconhecimento em subgrupos afetivos pudesse ser compensada por citações maquínicas, que muitas vezes sequer implicam a leitura real do que produziram. É a loucura a dois em escala industrial: uma engrenagem de autovalidação que funciona através de números, métricas e afetos regimentados, todos obedecendo à mesma lógica circular que pretendiam superar.

Lançamento

Nesta semana, finalmente foi concluída a produção do Dicionário de Psicologia do Trabalho e das Organizações, uma obra em que Jairo e eu estivemos envolvidos desde 2010. Acho que será uma importante contribuição para área da POT em nosso país.

Os interessados podem adquirir, por enquanto, clicando na figura abaixo.

Professor, pesquisador, profissional

Será que ser pesquisador de psicologia equivale a ser professor de psicologia? E quanto a ser um profissional de psicologia? Acredito que não sejam as mesmas coisas. Correspondem, as três, a papéis distintos, com impactos diferenciados em termos de aprendizagem.

O pesquisador olha para um fenômeno e se pergunta: por que ele ocorre? Quais forças o determinam? Como pensar em sua evolução/desenvolvimento ao longo do tempo? Para tudo isso, deve colocar tal fenômeno contra o pano de fundo de uma teoria, e, com esta, fazer uma opção pelo seu entendimento do real. A pesquisa é lenta, segue um ritual próprio.

O professor, em seu turno, é um transmissor do saber estabelecido. Não significa, como alguns pensam, que apenas reproduz, repete. Pode até acontecer, mas, efetivamente, não precisa ser assim. Quem já deu aula e levou esta atividade a sério sabe que é, sim, possível produzir conhecimento à medida que se fala sobre um assunto, que se interage com o aluno. Uma aula bem dada, num bom entrosamento aluno-professor, permite grande aprendizado – ainda mais para o professor, um ser cuja ação é, sobretudo (nas humanas), linguística.

E o profissional? Este deve lidar com problemas práticos, determinados por diversas forças: econômicas, políticas, institucionais, pessoais, interpessoais. A realidade se apresenta ao profissional como um caos relativamente organizado, mas, ainda assim, problemático. O profissional muitas vezes não tem tempo para “rever a literatura” para saber o que outros fizeram ou recomendam que se faça para o melhor resultado. Profissionais atuam no âmbito do cotidiano, e este é totalmente indiferente a matrizes teóricas, epistemológicas, etc.

Para mim, há um salto imenso do pesquisador para o profissional. Em ciências humanas, dizer que a pesquisa “sustenta” a prática do profissional é, no contexto brasileiro, uma ignorância. Uma inverdade. Ao mesmo tempo, poucos profissionais realmente pensam suas práticas; poucos têm o espírito e a disposição para ver a realidade e suas “demandas” com o olhar de quem hesita (diante do saber). A difusão da pesquisa para a prática é, institucionalmente falando, uma piada. Não é à toa que universidades se fecham em si mesmas.

Uma saída é o pesquisador vivenciar outros papéis – de parceiro do profissional, por exemplo – mesmo com as dificuldades acima apontadas. Há riscos: o pesquisador-consultor; o pesquisad0r-palestrante; o pesquisador-vedete. Seja com for, há necessidade de outras competências: um ótimo pesquisador, entre quatro paredes de uma sala de aula de pós-graduação, se reduz a pó quando não consegue articular capital (humano, social, político, etc.).

Da pesquisa à ação: única via?

No Brasil, é fato que as universidade federais e estaduais, em suma, públicas, são os principais atores a investir na pesquisa. As empresas o fazem pouco, se é que o fazem.

Ao mesmo tempo, é também crítico o distanciamento entre pesquisa e ação. Hordas de estudantes vivem a levantar a voz contra a universidade, pois estas “focam demais” na pesquisa. Desinvestem do ensino, fazem pouco caso da prática.

“Prática” é uma das palavras mais ambiguas que existe. Depende muito da interpretação. Para uns, refere-se às “demandas do mercado”; para outros, à ação propriamente dita, implicada em cada nicho profissional.

Ora, pesquisa, em algumas áreas, tem conexão imediata com a prática. Por exemplo, pesquisa básica pode, com o tempo, gerar subsídio para o desenvolvimento de novas tecnologias com impacto na vida cotidiana.

Mas o que dizer das “ciências humanas”, onde incluímos a psicologia?

Na psicologia, a coisa parece mais complicada, pois nem sempre se vê o “nexo causal” entre pesquisa e prática. Esta segue lógica distinta da lógica da pesquisa: a prática acontece; a pesquisa é (quase) sempre uma rememoração da prática passada.

O aluno, quando está em estágio, se angustia porque a pesquisa parece pouco lhe assistir diante de demandas concretas. Muitas vezes, é ao senso comum, ao “bom senso”, que acaba tendo de recorrer. O senso comum/bom senso reage rápido; resolve (ou faz de conta).

Em tese, a ação do psicólogo profissional (e de outros) deve se basear em evidência. Deve levar em conta o conhecimento disponível, que propõe conexões entre fenômenos. Assim, se um professor tem um aluno que “não aprende”, um laudo psicológico é, frequentemente, demandado. Com o laudo, que se faz com base em “ciência”, o psicólogo profissional saberá instruir seu “cliente” (o professor, por exemplo).

Na prática, as coisas não funcionam assim. Na prática, a interpretação da ação recorre a outras fontes, principalmente a fontes tácitas, decorrente de internalização de saberes psicológicos (no exemplo, sobre o processo de ensino-aprendizagem). Em cada interpretação, um projeto de ação se configura.

Na prática, o conhecimento não nos assiste integralmente. Precisamos nos arriscar: arriscar a nos colocar como “agentes”, como elemento terciário nas relações (educacionais, profissionais, de saúde, etc.).

No fundo, as coisas elementares são, como sempre, simples: tudo pode ser reduzido a “acontecimentos”,  a circunlóquios diante do “real” (sempre se nota tal “real” quando estamos diante de problemas ou desencaixes práticos). Como vamos “lidar” com tais acontecimento, eis aí outra questão.

No fundo, nossa vida cotidiana, as entranhas do funcionamento de nossas instituições, é baseada na premissa de uma racionalidade mínima, enchuta. Porém, ela é frágil, delicada, limitada. No fundo, giramos todos em volta de tentativas, discursos, falas, interpretações. Não há, a desgosto dos obsessivos, nada a garantir uma conexão essencial entre fatos, entre “práticas”.

Sistemas peritos são, como dizia Giddens, assentados na base de profunda confiança, uma confiança ontológica. Mas eles nos desapontam. Mesmo a pesquisa, mesmo ela não é uma única (ou privilegiada) forma de regulação/organização do real.

Quem vai dizer isso a nossos pesquisadores?

Crowdfunding científico

Tempos atrás noticiei aqui sobre a prática do crowdfunding para promoção de eventos culturais. Agora, ela chegou à ciência. Em uma interessante matéria do blog de ciência da Revista Piauí, Bernardo Esteves mostra como, mesmo aqui no Brasil, a prática se insinua. É como se fosse uma espécie de CNPQ pulverizado, cada um de nós ocupando o lugar de nano-investidores a fundo perdido de projetos cujo interesse depende, penso eu, da capacidade de “venda” de seus propositores (veja dois vídeos disponíveis na matéria).

É mais ou menos assim. Eu, que atualmente pesquiso empreendedorismo nas indústrias criativas, faria um vídeo no qual apresento as vantagens de alguém investir na minha pesquisa, como citação do nome em produtos de divulgação (imagine: no artigo fruto da pesquisa, uma nota de rodapé listaria todos os “patrocinadores” da pesquisa, em vez do CNPQ, CAPES ou FAPEs estaduais…). A idéia é interessante, pois, se pararmos para pensar, o dinheiro de agências de fomento provém, em sua totalidade, do governo – que, obviamente, o obtém junto à sociedade. Portanto, em vez de delegar a um ou outro órgão a decisão sobre o “onde” investir (geralmente, tais órgãos mencionam questão de “interesse nacional”…), o próprio “contribuinte” pode decidir onde investir. Claro que isto traz riscos, por exemplo, como controlar/monitorar o destino do dinheiro? Superada essa dúvida “prática”, a iniciativa é interessante, e põe em evidência uma questão central, concernente aos propósitos e aos interesses de se realizarem determinadas pesquisas. Dá o que pensar.

História da ciência

No mundo acadêmico das Ciências Humanas, há certo torcer de nariz anti-realista, segundo o qual a história da ciência é uma narrativa de caçadores de fatos e do “real”. Critica-se tal empreitada como sendo realista demais, positivista demais (embora a maioria não saiba, de verdade, explicar, filosoficamente, em que consiste o positivismo…). Mas não há como negar que estamos onde estamos, com todas as mazelas e consequencias disso, graças, em parte, à ciência como um dos mais notáveis empreendimentos humanos.

Uma interessante série da BBC de Londres faz um resgate da história da ciência, notadamente a ciência “dura”, dedicada à descoberta dos “segredos da natureza” – quem somos, por que estamos aqui, de que somos feitos, para onde vamos.

Uma coisa me chamou a atenção: por que a religião, desde tempos imemoriais, é uma das mais “preferidas” formas de explicar tais questões? Sendo muito simplista, eu diria que a religião é uma forma fácil de explicar a vida; ela não depende de pesquisa, de audácia, de trabalho em conjunto com outras pessoas, de criatividade, inovação, curiosidade, sofrimento. A religião faz de nossa vida neste planeta uma história encantada, o produto de um “pensamento oceânico”, para dizer como Freud. Aliás, foi Freud, como também Marx, quem nos alertaram para as armadilhas do pensamento religioso.

Quem se dedica um pouco à compreensão da história da ciência descobrirá que há muito mais do que fé na compreensão dos mistérios deste universo e de nossa vida nele, embora haja, de fato, uma parcela de fé mesmo na ciência mais “radical”. De todo modo, recomendo a série cujo primeiro episódio sinalizo a seguir.


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