Competência sem compreensão

Interessante fala do prof. Dennett sobre a “inversão” criador-criatura!

Publicação de artigos

Professor Gilson Volpato (UNESP) discute os principais motivos de rejeição de manuscritos em revistas científicas de alto nível. Apesar de transparecer um modelo muito específico de ciência na discussão do prof. Volpato, o qual muitas vezes não se aplica a diversas áreas de Psicologia, ainda assim vale a pena conferir, pois há dicas importantes de redação científica.

Precisamos transformar TUDO em fato científico? Só os obsessivos…

Max Weber disse, no início do século passado, que os empreendedores capitalistas (na ocasião, ele se referia aos norte-americanos), não iriam parar até que o último combustível fóssil deste planeta fosse queimado. Estou parafraseando. O contexto do argumento era o capitalismo. A analogia serve para pensar em algo semelhante, porém não na esfera da economia: a ciência não faz a mesma coisa? O desejo de explicar tudo, de transformar tudo em um “fato científico” parece não ter medida.

1. Primeiro, pensemos no mundo pequeno da pesquisa: todo aluno que deseja fazer mestrado ou doutorado tem de “descobrir um tema” para pesquisar. Vale tudo: a engrenagem teórica tritura tudo o que encontra pela frente. Na psicologia, se você é um afeito à psicanálise, você pode querer explicar desde porque crianças não tomam leite ou gritam demais até porque as pessoas não obedecem a lei ou são violentas. Se você é um comportamentalista, pode querer entender desde a vida das formigas, macacos e outros animais até porque suamos frio quando ouvimos o sino da igreja tocar em um sábado à noite. Exagero, simplificação minha, mas o ponto está correto: tudo vira fato científico. Quem é que já não presenciou o desespero dos jovens que entram para um mestrado, antes de se tornarem “estáveis” em algum nicho disciplinar?

2. Tornar tudo passível ser pesquisado, escrutinado, explicado, é, mutatis mutantis, semelhante ao que faz um pensamento religioso ingênuo: tudo é explicado recorrendo a Deus. Chouveu? Foi porque Deus quis; o dia amanhece, a noite cai: Deus quis. E assim por diante. O desconforto é incalculável para o devoto alienado que não consegue encontrar no mundo senão a teleologia divina. O cientista alienado, idem. Seu desejo de saber, de dominar, de prever, pode não alcançar fim. Cientistas, na versão caricata do indivíduo que vê o mundo como um laboratório, tem uma curiosidade obsessiva. Ou então é um competente e disciplinado agente capaz de transformar o mundo físico em nosso benefício. De fato, o que seríamos sem eles? Provavelmente, um bando de bípedes sem penas caçando com lanças primitivas.

3. O que é um fato científico, pensando, particularmente, nas ciências humanas? O que pode ser passível de ser explicado, convertido no jargão científico? Há quem diga que um fato científico surge de algum desfuncionamento: o que não funciona conforme o planejado deve ser reparado. O amor se torna um fato científico quando se revela uma esfera problemática para os animais humanos; o trabalho, idem. O mesmo para a saúde, a educação, o lazer. Metemos o nosso nariz científico em como as pessoas jogam futebol, como elas fazem sexo, como elas dormem, como elas comem, como elas lidam com as perdas, com seus medos, com esquisitices….enfim, tudo.

4. Mas não é só o Lattes que anima a transformação compulsiva-obsessiva de tudo em fatos científicos. É a falta de criatividade, a dificuldade de um pensamento autônomo, em suma, falta da capacidade de ser adulto, de debater as coisas entre adultos, e de resolvê-las. Mas, não: é preciso passar pelo crivo científico, pelas normas da APA, da ABNT-2, dos objetivos claros e “focados”; é preciso passar pela crítica de que você não respeitou as regras básicas do método científico. Patético, pois, enquanto isso, o mundo gira em sua órbita indiferente. Pior: o mundo humano parece pouco se importar com o que se produz nas ciências humanas. Tem-se ali forças muito mais poderosas de explicação, enraizadas profundamente em hábitos, cultura, pressupostos. E não adianta, defensivamente, dizermos que “são ingênuos”. Santo Deus – qualquer pessoa, em universidades brasileiras, sente na pele o que, de fato, é ingenuidade.

5. Às vezes, dá vonta de dizer: que cada um viva sua vida e faça dela o que quiser; não precisam DESSA [ambiguo, certo?] ciência para lhes dizer o que fazer.

6. Vamos admitir um possível “fato”: que nós precisamos inventar fatos para moermos, na máquina científica, dissertações e teses. Veja bem: não quero dizer que fazer isso é coisa de não-adulto; há valor nisso, mas é preciso procurar com lupa. Portanto, talvez parecendo autoritário, concordo com decisões de um terceiro (o Estado) sobre quais áreas são ou não “prioritárias” para se investir dinheiro. O investimento deste último está, claro, sujeito a humores políticos, bem como podem induzir pesquisadores a construirem a “indústria da pobreza” ou algo similar só para conseguir recursos públicos, ostentar seu status de “pesquisador do Cnpq”, etc. Mas precisamos de algum critério de valor que nos ajude a decidir, pela esfera pública, o que é desfuncional e merece um escrutínio, sério, científico.

Psicologia e trabalho

Acaba de sair um artigo em que discuto algumas formas de “apropriação” do trabalho pela psicologia. Ou seja, coloco em perspectiva três abordagens ao trabalho: a organizacional, a social e a clínica, problematizando suas semelhanças e diferenças.

O artigo, publicado pela revista Psicologia & Sociedade, pode ser acessado abaixo.

Mal-estar na civilização do trabalho

Tivemos, na manhã de ontem, uma mesa-redonda inspirada pela discussão da obra Mal-estar na Civilização, de S. Freud. A disparadora da discussão foi a psicanalista Ruth Jeunon, em resposta a quem o prof. Jorge Falcão e eu reagimos: no meu caso, explorando o porquê de o trabalho ser visto de modo tão restritivo na obra freudiana em questão:

1. Como poïésis – ou seja, com produção de coisas úteis (muito próximo do sentido de labour, tal como discutido por H. Arendt)

2. Como via de sublimação, porém (e esse é o detalhe), reservado a poucos homens, os Grandes Homens, tais como pessoas das artes ou das ciências.

Nossa provocação foi no sentido de questionar as possibilidades de se ampliar o raio da sublimação a partir de um olhar mais inclusivo sobre o que constitui o trabalho:

1. Como “opus” – ou seja, obra de arte

2. Como “trabalho psíquico”, trabalho sobre si, usando o termo Arbeit da obra freudiana: na medida em que o trabalho nos confronta com o “real” (no caso, com aquilo que nos escapa, com o “indizível que precisa ser, não obstante, dito”), ele nos convoca a desenvolver recursos de enfrentamento.

No final, nossa discussão encaminhou-se para a questão do julgamento de beleza e utilidade implicados no trabalhar, via reconhecimento do outro. O trabalho é, ao mesmo tempo, labour, opus e arbeit – ele liga o sujeito à realidade, aos outros e “devolve”, por meio desse mesmo processo, uma imagem sobre quem somos (identidade).

Uma manhã muito instigante e que nos deixou a todos com desejo de “quero mais”, além de ter deixado importantes questões no ar, como, entre outras, se é possível fazer psicologia do trabalho no “diálogo” com a psicanálise.

Colonização do RH no Brasil

Ainda seguindo com as indicações, gostaria de fazer mais uma. Trata-se de artigo publicado por Thomaz Wood, Maria J. Tonelli e Bill Cooke, sobre a colonização da área de gestão de pessoas no Brasil ao longo de vários períodos-chaves do desenvolvimento de nosso país. Vale muito a pena para quem trabalha ou estuda as questões de Recursos Humanos.

É interessante dizer que a RAE, onde o artigo foi publicado, comemora 50 anos, sendo a revista de Administração mais antiga do Brasil, ao menos das que publicam ininterruptamente. O layout dos artigos foi alterado, ficou bem mais moderno e “clean”. Já recomendava antes, agora recomendo mais ainda, esta importante revista, onde tive a oportunidade de trabalhar alguns anos atrás.

Resenha na RAE

Acaba de ser lançado o número 3 da RAE-Revista de Administração de Empresas, da FGV-SP. Nela, há uma resenha de um livro organizado por minha colega Lis A. Soboll e eu (Clínicas do trabalho). Reproduzo a referida resenha abaixo, para os interessados.

Reconhecimento no trabalho

Tornou-se uma “febre” na atualidade a idéia de que as pessoas se desmotivam quando não são reconhecidas no trabalho. Os manuais de gestão mais atualizados trazem diversos diagnósticos e prescrições para que os gestores saibam como reconhecer e retribuir a contribuição trazida pelas pessoas à organização do trabalho. E também para que saibam como e por que é importante “reconhecer as pessoas como pessoas”, ou seja, em parte independentemente do que estas aportam à organização.

Teorias sobre reconhecimento vêm sendo discutidas nas clínicas do trabalho desde, pelo menos, os anos de 1980. C. Dejours, o importante criador e disseminador da abordagem conhecida como psicodinâmica do trabalho, está entre os mais clássicos. Para Dejours, o reconhecimento é condição necessária para que o sofrimento, que é inerente à experiência de “fracasso” originária do confronto do sujeito com o real do trabalho, transforme-se em prazer. Além disso, é pela gramática do reconhecimento que as pessoas têm noção de sua utilidade para a organização e também de seu pertencimento a um coletivo de trabalho.

Uma coisa eu gostaria de destacar aqui em relação a este tema, inspirado justamente em Dejours. Até que ponto podemos confiar no reconhecimento dos usuários finais de nosso trabalho? Por exemplo, clientes, no caso de um atendente; alunos, no caso de um professor; pacientes, no caso do médico? Por mais que seja politicamente correto dizer que os clientes ou usuários têm algo de importante a dizer sobre o valor do que fazemos, fato é que este tipo de reconhecimento não é jamais suficiente para construir nossa identidade profissional. Por quê?

Porque os usuários/clientes nem sempre (se é que o fazem alguma vez, a sério mesmo) estão preocupados com o desenvolvimento do ofício ou do trabalho: seu objetivo é mirar na satisfação. E, quando julgamos as coisas pelo critério da satisfação, tudo fica relativamente subjetivo: se não gostarmos; se, como no caso da docência, o aluno não “se sentir motivado”, ou, no caso do cliente, se o “atendente não for simpático e me bajular”, eu o avalio mal, eu não o reconheço. Tanto isso é verdade que, em geral, índices de satisfação oscilam de modo bastante expressivo dependendo do que se introduz na relação de serviço em questão (exemplo: professores cobrando mais numa prova, por exemplo).

Só quem fica no trabalho durante algum tempo, ou seja, só o trabalhador e seus pares, que vivenciam, na pele, cada envergadura do real de trabalho, é quem pode, legitimanente, completar o círculo do reconhecimento. Assim como os superiores, os encarregados, os gestores desses trabalhadores. Pacientes curam-se e vão embora; clientes vêm e vão da loja ou do serviço; alunos vêm e vão. Mas nem sempre estamos preparados, como trabalhadores, para avaliar justa e visceralmente o trabalho que realizamos. Fraquejamos, somos inseguros.

Yves Clot, por exemplo, outro pesquisador importante do campo das clínicas do trabalho, vai ainda mais além: para ele, sequer o reconhecimento pelos pares (interpessoal) é suficiente: é preciso reconhecer-se pelo trabalho bem feito, no âmbito do próprio ofício. Inspirado em Bakhtin, Clot observa que, ao trabalhar, precisamos ter um “destinatário de confiança” ao qual endereçar nossa atividade. Para ele, tal destinatário é justamente o ofício, nosso compromisso transpessoal com a transmissão, o avanço e a existência de uma memória coletiva de gente que vê a sério o objetivo de transformar o real.


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