Fracasso

O que acontece quando fracassamos? Numa cultura supostamente meritocrática como a nossa, vencer ou fracassar depende de desempenho, cuja proficiência se mede com critérios contingentes de valor e também de aspectos comparativos. Portanto, um desempenho é bem-sucedido se atingir certos padrões estipulados como ideais (ou próximos do ideal), quando uma pessoa (seu desempenho) é comparado ao de outra, e quando, subjacente a tudo isso, comparece um elemento qualquer de sorte. De fato, não há como negar a presença dela!

Mas há uma “química” na vida cotidiana que nos leva, sempre quando diante de algum fracasso, a jogar a culpa em nós mesmos – exatamente no desempenho. Nessa direção, fracassar traz consigo um componente de culpa, de auto-flagelo, de vergonha, e, por que não, de dúvida sobre si mesmo (no caso de, como diria Freud, sermos bons neuróticos).

Quando o outro nos nega o acesso àquilo que alcançaríamos se fôssemos bem-sucedidos, há um remanejamento perceptivo em que o nos vemos como a parte com alguma falta, com alguma insuficiência. Desencadeia-se um processo de deslegitimação. Naturalmente, esse processo não é (não deveria!) extensível à personalidade como um todo, ao conjunto da vida de uma pessoa. Tanto é verdade que, quando fracassamos, aqueles que nos trazem de volta à realidade (a um sentimento de legitimidade), são nossos amigos, pessoas que nos vêem a partir de outros critérios que não o estrito desempenho em áreas estritas da vida social/burocrática (no sentido Weberiano). Amigos nos acolhem, nos colocam de volta nas trocas simbólicas fundamentais a nosso senso de identidade. Eles nos reconhecem.

Haveria como, mesmo diante de um fracasso, contarmos com nós próprios, nossas crenças, algum substrato de nosso ser capaz de ficar imune à recusa do outro (fracasso)? Tenho dúvidas sobre isso, mas penso que contar consigo mesmo, num fracasso, é a situação mais realista. Um exemplo bastante simples. Quando fracassamos, isto sempre ocorre no plano simbólico (por exemplo, não conseguir um emprego desejado, num lugar desejado). Fracassar, no plano concreto, é morrer, literalmente. Então, quando fracassamos, o que nos resta, do ponto de vista estritamente concreto? Nosso corpo – antes mesmo de nosso ego!

Nosso corpo é, afora o plano obviamente sensório-motor, físico, intelectual, energético, a única garantia que temos de que, quando tudo no campo simbólico desmorona, ele ainda estará lá. Não nossa vida – que é estrita e indiscutivelmente física, mas sim nossa vida e nosso potencial. Nosso corpo, marca suprema de nossa identidade e de nossas possibilidades, é o único suporte que temos para instituir novas formas simbólicas, para avançarmos na vida, para avançarmos sobre as resistências de todos os tipos.

O que quero dizer é que, diante de um fracasso, não é apenas no campo simbólico, interpessoal ou intersubjetivo que temos de reencontrar o sentido e o suspiro necessário para superar a situação. É no plano de nosso corpo, aqui entendido semioticamente – como uma matéria (uma coisa-em-si), mas como uma forma de mediação entre “nós” (ilusão absurda, necessária para nossa sobrevivência psíquica, mas uma invenção absurda, tanto no sentido positivo como negativo) e o mundo. Para mim, em suma, diante do fracasso, só há uma saída: a coragem física!

Prefiro ouvir a falar (#27)

Uma série de músicas que fazem parte da trilha sonora de Ray Donovan (Show Time). Em específico, as músicas de encerramento dos últimos episódios da série. A primeira é No Sympathy, do Flash Lightnin; a segunda, Banshee, da Kendra Morris; e a terceira, minha favorita, da Rebecca Ferguson, Glitter & Gold, numa belíssima performance ao vivo.

[1]

[2]

[3]

O silêncio de Deus

A gente vive numa época barulhenta. As cidades estão cada vez maiores, e o barulho é a regra. A poluição visual, os sinais em toda parte. Grandes e pequenas organizações tentam, a cada esquina, capturar nossa atenção. Não há como caminhar poucos metros e não identificar algum sinal de publicidade.

Numa cidade contemporânea, são raros os espaços e momentos em que você é deixado sozinho. Até se pode ficar sozinho na multidão. Esse mal é conhecido. Mas você não consegue, nas circunstâncias atuais das grandes cidades brasileiras, dar-se conta de algumas coisas existencialmente fundamentais.

Não acho que o ser humano deva viver muito tempo no barulho, na “muvuca”, como se diz popularmente. Não acho que o ser humano vive bem com o excesso de códigos, signos, sinais, símbolos. Estes, numa sociedade de consumo de massas, implica sempre no desvio do essencial, na captura do olhar e na fuga para o supérfluo.

Nunca gostei desses autores pós-modernos, sociólogos e, em geral, franceses (parisienses), que idolatram a cacofonia da vida cotidiana, contrapondo-a à monotonia medieval (ou anterior). A monotonia seria não haver nada para ver, para se distrair? Não acredito. De outra forma, como então explicar a profunda monotonia que podemos sentir no meio à balbúrdia de grandes metrópoles?

Vamos para um contraponto. Você já reparou que, na literatura religiosa, Deus não fala? Pelo menos não no sentido verborrágico. Jesus Cristo, como nos mostra a Bíblia, lança todas suas preces no Monte das Oliveiras a um Deus que simplesmente…se cala. O que poderia significar o silêncio de Deus? O silêncio do verbo? O que há quando não há linguagem, falatório, tagarelice?

O silêncio de Deus pode significar que é o real que está diante de nós. Explico. Em um momento de sofrimento, quando nos foge as frágeis proteções da linguagem, do signo e do simbólico, a que recorremos? A algum aplicativo do Iphone? A algum comercial de televisão? Não. Recorremos a um silêncio absurdamente indecifrável. Aí está Deus. Nesse silêncio, nesse “apagão”.

Deus esta, paradoxalmente, nas entrelinhas dos discursos, sejam eles quais forem. Ele está nos interstícios. O silêncio em que ele “se manifesta” é o inverso da egolatria cotidiana, quando nosso pequeno-grande “eu” ocupa toda a cena, com suas preocupações infindáveis, enfadonhas e rememorativas. Deus é, nesse sentido, o não-eu.

Faça o exercício. Você não precisa acreditar em Deus, você pode até mesmo ser um ateu. Mas faça o exercício de calar-se e de calar o barulho a seu redor. Tente. Esforce-se por deixar o silêncio ocupar, “monotonamente”, a sua vida. Apague-se. Desligue-se de tudo e todos. Não busque seu “eu”, mas sim busque “perdê-lo”, esquecê-lo. Despregue de si tudo que em você se colou, o burburinho geral.

Um exemplo de “contexto” para a “escuta” do silêncio de Deus é a própria natureza. Por que será? Em parte, eu tenho uma intuição, mas ela é bem minha: em parte, porque o ser humano, este sim, é um tédio.

Comentários

Você já teve o trabalho de ler os comentários de internautas em portais de notícias ou em outros locais virtuais? Caso não, faça-o algum dia, por pura distração antropológica. Honestamente, quando faço isso, fico com uma dúvida cruel na alma: que povo somos? De um lado, acho que a internet é lugar de gente que gosta de estravasar o que há de pior e mais indecente: ódio, inveja, maldade, conversa fiada. Para mim, justamente a conversa fiada é o pior. Fala-se sem qualquer escrúpulo, em especial dos políticos.

Por exemplo. A visita do Papa.

Francisco desembarcou hoje no Rio de Janeiro. Ao acompanhar a cobertura do fato, fui até os comentários em diversos portais. As pessoas conseguiam, mesmo com respeito ao Papa e à sua visita, falar bobagens e idiotices. Mas este é só um exemplo. Ao final de qualquer matéria você pode ler tais comentários. No fundo, sem querer ser conservador, acho que a internet está cheia de gente ignorante, semi-analfabeta, covarde, sem noção da realidade.

Vive-se uma vida paralela nesses comentários. Seus autores não sabem, no fundo, o que estão falando. Repletos de erros de português, disparam contra a política, fazem piadinha, liberam seus instintos mais profundos, animalescos, a-políticos.

Por outro lado, esses mesmos comentários refletem um pouco de nossa cultura, de nosso jeito (brasileiro) de ser. Um povo deslumbrado por algo que nem sabe nomear. O brasileiro, parece-me, não sabe lidar com a liberdade – neste caso, a permitida pela internet. Veste um personagem e começa a falar sem qualquer critério. Simplesmente, libera sua mais pervertida e insensata alma. Uma alma pré-civilizacional, ou seja, animal. Desculpem-me a expressão, mas é isso mesmo que acho: alma animal. Uma besta sem modos, sem a menor capacidade de viver a simbologia da vida cotidiana.

Não estou, em nenhum momento, dizendo que o Papa ou qualquer outra personalidade religiosa/política são imunes a críticas ou o quer que seja. Mas tomei este exemplo para falar um pouco de meu mal-estar com comentários na Internet. Algo profundamente decepcionante, a-simbólico, abjeto.

A manifestação da massa

Tenho, como todo brasileiro, acompanhado as manifestações de protesto por todo o Brasil. Hoje, dia 20, no RJ, as imagens são absolutamente impressionantes: no mínimo 300 mil brasileiros tomaram a Avenida Presidente Vargas, em clima pacífico, com cartazes, faixas, com a bandeira do país em punho.

Acho que a quantidade de material antropológico é imensa. Gostaria de registrar algumas impressões.

1. O país do carnaval e da carnavalização. Um país, pense bem, que é um país ‘coletivista’, ‘festeiro’ no bom sentido: como não fizemos isso antes? Se você observar, verá que há de tudo, uma verdadeira miscelânea, quase como vemos no carnaval. A mídia, imbecil como quase sempre, chegou a comentar que se trata de manifestação sem propósito, “uma imensa frescura” de estudantes… . Nada de mais errado, nada de mais ridículo sobre o país, sua cultura e seu povo (embora a mídia, os jornalistas, sejam também brasileiros…);

2. O trabalho não é, em tese, o foco principal do evento, que deixou de ser um grande protesto e se tornou um ritual coletivo. De fato, desde os primeiros eventos, o número de pessoas só tendeu a aumentar. Hoje, nota-se claramente um clima de “convivência coletiva”. Não se trata de uma manifestação com pauta de classe, como eu disse, em relação ao trabalho (em geral, um dos focos de aglomeração – carteiros, professores, etc.). O foco, que no princípio baseou-se na revolta contra o aumento das passagens de ônibus, tornou-se palco de agenda difusa;

3. A Copa das Confederações. Digo isso porque, emblematicamente, Dilma foi vaiada no contexto de um dos eventos coletivos mais fundamentais da nossa cultura: o futebol. Mais uma reação coletiva. Aliás, os políticos, diante de um movimento como esse, viraram nanicos, frágeis, desesperados e, no caso da Presidente, incapaz de sintonizar-se com o “timing” dos acontecimentos (dizer, 10 dias após o início das manifestações, que “reconhecia o direito à voz do povo” é, no mínimo, uma gafe e falta de sensibilidade democrática). Às vezes sinto que o despropósito, a inépcia, dos políticos se deve muito mais ao espírito “para inglês ver” dos brasileiros do que propriamente a uma “despolitização” (em outras palavras: nós, como povo, deixamos as coisas “rolarem”; se realmente nos implicássemos, como está acontecendo, em massa e quase na forma de cartarse, estes políticos não fariam o que vivem a fazer, disto tenho certeza);

Em suma, não tenho opinião maniqueísta sobre o que está acontecendo. Vemos de tudo. Vemos gente se divertindo, vemos pessoas simplesmente ali presentes, como no carnaval ou na comemoração de um jogo de futebol, vejo, em suma, uma vontade aparente de quebrar o fluxo do cotidiano, de resgatar, mesmo que de modo não consciente, um jeito “lúdico” de viver juntos. Vi vizinhos indo à passeata aqui onde moro, e fiquei com a impressão de que estavam indo para um jogo de futebol. Isso não é ‘negativo’, não estou dizendo isso, só estou dizendo que há misturas de gêneros: o protesto é, de algum modo, comemorativo, carnavalesco.

Roberto da Matta, importante intérprete de nossa cultura, tem um texto em que discute a relação entre a “Casa & a Rua”. Hoje, o povo está indo para a rua. Uma rua que, numa visão metafórica, parece uma grande, imensa, imaginária ao mesmo tempo em que simbólica, Sapucaí, um enorme Maracanã. Muito a se pensar, mas temo que os acontecimentos, embora grandiosos, terminem como se termina o carnaval e os eventos futebolescos. Ou não. No momento, só consigo pensar em Ortega y Gasset e seu livro “A rebelião das massas”. Por ora, estou aqui de camarote esperando a reação de nossos nobres políticos, correndo às pressas e diminuindo o valor das passagens. Teriam eles outra opção? Teriam eles outra opção, caso os movimentos continuassem e elegessem cada uma das safadezas que tais políticos patrocinam por aí, descaradamente, acobertados e protegidos por nosso espírito de “deixa, é para inglês ver”? Duvido!

Quando nada mais importa

Você já teve uma sensação do concreto, mas não do concreto em si (digamos, um fato imediato, algo em que você tenha sido envolvido fisicamente, experiencialmente, no aqui-e-agora com todos os órgãos de seus sentidos), mas de um concreto distante, de um fato que você só viu pela televisão ou pela internet, mas, ainda assim, algo concreto? Provavelmente, numa sociedade televisionada e recoberta de informações em tempo real, sim, você, eu, todos já tivemos isso.

Preciso compartilhar algo, algo que, para muitos, talvez para a grande maioria, passaria desapercebido. Passaria desapercebido mesmo por gente que dedica a vida a defender humanos frágeis e vulneráveis. Alguém que atue em comunidades carentes por este país afora, presenciando violência, descaso, maldade e tudo o que de pior o ser humano consegue fazer a ele mesmo. A cena seria naturalizada por quase todo mundo “de bem”.

E o mais absurdo, disso que estou sentindo e ainda não disse diretamente do que se trata, é que esse sentimento é profundamente aleatório, no sentido de que, se eu não tivesse tido a informação, eu não teria sequer sentido o que senti. E também me assusto, bem no fundo do meu peito, ao notar que esse sentimento não apareceria em qualquer situação, mesmo naquelas situações em que pessoas de bem, como as que relatei acima, ficariam sensibilizadas e tocadas.

E também me assusto ao perceber que, quanto mais a cena dói em mim, mais eu quero saber sobre ela, como se eu quisesse enveredar por algum voyerismo masoquista, algum tipo de autopunição.

Tudo isso foi porque vi uma cena de um cavalo atropelado na Raposo Tavares, em SP. Vi pela internet, nos principais jornais matinais. Vi cada detalhe da imagem como se fosse a última imagem que eu fosse ver na vida.

Não sei explicar o porquê, mas o que eu vi foi um abandono, o abandono quase absoluto, a indiferença asquerosa de nossa vida cotidiana. Fiquei com ódio, com ódio da estrada, da rodovia, dos carros, das motos, do maldito concreto contra o fundo verde das árvores ao redor. Uma cena, um acontecimento banal, na mais niilista banalidade da vida cotidiana, uma cena que hoje mesmo está fadada a um esquecimento protocolar; não haveria nada a relembrar, a defender, a reinvindicar; nenhuma placa anotada, nenhuma família triste, nenhum sistema jurídico acionável, nada, simplesmente nada. Em quase 100% das notícias relacionadas ao incidente, o foco era na “lentidão do trânsito”, nos “20km de congestionamento”, e, portanto, no atraso do começo de mais um dia na capital agitada. Quem atropelou, fugiu. O animal atropelado, no chão, com vida, mas por pouco tempo.

Eu me assustei com o sentimento. Assustei-me realmente, pois é como se um canal adormecido tivesse se reaberto em mim, e infelizmente ele desagua na inação, no nada fazer, pois não há nada que eu possa fazer, não há nada que alguém possa fazer neste momento.

Caixa rápido

Hoje eu estava no supermercado e, naquele ímpeto comum de querer sair logo das filas, aderi à de “caixa rápido”. Espera-se que, em tais caixas, realmente o adjetivo funcione, e a coisa realmente opere de maneira eficiente. Mas, no meu caso, aconteceu o inverso. No caixa, provavelmente uma atendende novata. Uma sensação agoniante ver que a fila ao lado desaparece e você fica no lugar. Logicamente, exceto se você estivesse de férias (e ainda assim se poderia duvidar), isso causa certa irritação e ansiedade. Nesse momento, você só olha para si mesmo e para sua situação. Não considera nada mais. Age como um consumidor irritado e, como todo consumidor, com “direito” de reclamar, de espernear.

Agora, um olhar de psicólogo do trabalho, que é o que supostamente sou.

A caixa era, realmente, uma funcionária nova de empresa, apesar de ser de idade mais avançada, comparativamente às outras atendentes. Ainda estava aprendendo o trabalho. Ainda não tinha os “macetes” de funcionários mais velhos, experientes – por exemplo, ainda não devia saber de cabeça o código de certos produtos (as caixas têm de realizar hoje muitas funções, sendo uma delas a de pesar alimentos – hortifrutis, em geral; há, nessas circunstâncias, códigos afixados a um “folheto” que elas têm junto a si). Nessa situação de aprendizagem, a pessoa “briga” com os produtos, com o scaner que lê as etiquetas/códigos de barras, com a operação do cartão de crédito.

Um psicólogo organizacional (e não um do trabalho), poderia dizer que faltou treinamento a essa funcionária, que ela não deveria ter sido “deixada” dessa maneira. Um profissional de administração poderia dizer que isso depõe contra a gestão e, consequentemente, contra a percepção de serviço do estabelecimento.

Mas o episódio me mostrou outra coisa. Ali, diante da caixa em treinamento, podemos nos sentir superiores. Podemos sentir que “temos o direito” de reclamar e de ser logo atendidos, com “eficiência”.

Porém, se formos menos cínicos, vamos lembrar de todas as vezes em que estivemos em situação similar, quando alguém teve de ter paciência para que apresentássemos certo nível de proficiência. Vamos nos lembrar de muitas e muitas situações em que ficamos inseguros, em que titubeamos, em que não sabíamos como agir mais despachadamente.

Mas nos esquecemos que há pessoas melhores do que nós (no sentido de mais habilidosas, mais treinadas, mais capacitadas). Diante do fraco, aproveitamos para descontar nossa falsa consciência de seres dotados de habilidades superiores. No fundo, muitos de nós somos cegos.

Muitas situações da vida cotidiana nos confrontam com a necessidade de simplesmente olhar o outro por aquilo que o outro é ou pela situação em que ele está. Mas parece que estamos perdendo a tolerância. Estamos perdendo uma tolerância que, na situação inversa, em que nós ali estivéssemos, iríamos desejar. A tolerância é a capacidade de sair de si por algum momento e acolher a situação como algo dado, como algo disposto diante de nós e sobre o qual não temos grande poder de interferência.

Ademais, se, em nossa vida, não tivéssemos encontrado pessoas que nos tolerassem, aceitassem nossa “lerdice” (quando crianças, por exemplo, mas, evidentemente, não só!), jamais nos desenvolveríamos. Crescemos porque alguém nos aceita, nos tolera, alguém supostamente em outro estágio de desenvolvimento.

Diante da caixa de supermercado, lembrei de todas as vezes em que me senti paralisado diante de alguma situação em que não conseguia ter certo desempenho. Lembrei-me de todas as pessoas que conheço e que, considerando as características que valorizo, são melhores do que eu e com quem eu aprendo. Coloquei-me em perspectiva.

É isso que de mais e mais somos incapazes de fazer, nos colocar em perspectiva.

A captura de um momento [ou pathos]

Agora tenho 33 anos de idade e sinto que muito tempo passou e vai passando mais rápido a cada dia. Dia após dia preciso fazer todo tipo de escolhas sobre aquilo que é bom, importante e divertido, e depois preciso conviver com o confisco de todas as outras opções que essas escolhas eliminam. E começo a perceber que à medida que o tempo ganha ímpeto minhas escolhas vão se dar num campo mais estreito e as eliminações serão multiplicadas em ritmo exponencial até eu chegar a algum ponto de algum ramo qualquer dentre as suntuosas ramificações complexas da vida onde estarei completamente trancado e cravado num único caminho e o tempo passará voando por mim em fases de estase, atrofia e decadência até eu cair pela terceira vez, toda a luta em vão, afogado pelo tempo. É apavorante. Mas como serei trancado pelas minhas próprias escolhas, parece inevitável – se desejo ser adulto de algum jeito, preciso fazer escolhas e lamentar eliminações e tentar viver com isso

De David Foster Wallace, em Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo (Cia das Letras, 2012)


You cannot copy content of this page