Realismo não-humano

Gosto de divagar. Acho que você já deve ter percebido isso a esta altura. Pois bem. Enquanto estava correndo estes dias, um pensamento ficou passando pela minha mente o tempo todo. Na verdade, dois pensamentos. São duas frases que li em algum lugar e que, por alguma razão, acho que têm relação uma com a outra.

A primeira é a seguinte. Se uma árvore cai na floresta, mas não tem ninguém (nenhum humano) para ouvi-la caindo, pode-se falar em som?

A segunda é esta. “Deus”, essa palavra e tudo que vem junto dela, existiria sem nossa presença (humana)? Ou foi apenas com o aparecimento de humanos que Deus começou a ser considerado? Esta última eu lembro a fonte: o escritor Jon Fosse. Não é uma citação literal, mas a ideia é mais ou menos essa mesmo.

Em ambos os casos, há um problema realista. Sobre o quanto a realidade (um som, Deus) é congênere com a espécie humana. Um ruído de uma árvore caindo – sem um humano por perto, o que ele seria? Digo, não a ausência de um humano em particular por perto, mas a espécie humana inteira. Se só houvesse chipanzés ao redor da árvore caindo, estes, no máximo, só procurariam não ficar embaixo dela. Obviamente, talvez não haveria associações de um ruído a um som e a uma constelação de possibilidades para esse som (eg.: por que a árvore está caindo? Qual o tipo de árvore, a julgar pelo som?). Nestas horas, lembro da minha cachorra. Quando ela está dormindo, e crianças fazem barulho na rua, é como se ela nem notasse. Como se lhe fosse totalmente indiferente. Claro, há alguns sons que são gatilhos para ela. Mas eu fico admirado com a suavidade do sono dela diante de sons que, para mim, seriam absurdamente revoltantes (tenho insônia, e parte tem a ver com a personalização extrema de ruídos).

Sobre Deus, bom, até onde sei, antes da espécie homo, não há nenhum monumento construído, nenhum livro sagrado escrito, nenhum ritual coletivo, muito menos guerra e morte por causa Dele. Animais nasciam, cresciam e morriam, e tudo ficava por isso mesmo. Aliás, por cinco vezes a vida foi praticamente riscada do mapa, de plantas a animais gigantes como dinossauros. A Terra, durante essas extinções em massa, já foi acertada por meteoros, sangrada de dentro por lava, chocada contra sua própria pele por conta de placas tectônicas em deslocamento na superfície, chuva de ácido e todo tipo de desgraça. Diante dessas catástrofes, nossos furacões e tempestades não chegam a ser nem um resfriado para um planeta com bilhões de anos e, portanto, uma longa ficha médica. Não creio que nenhum desses animais, no nível que fosse de suas capacidades sensitivas, tivessem cogitado que tudo aquilo que lhes acontecia era por causa dos “castigos” de um Deus irritado com a fraqueza espiritual desses seres. Eles simplesmente se foram para sempre. E se foram na ignorância, pois viviam no realismo da “coisa em si” (seus corpos, a Terra).

***

Com o “giro subjetivo” na filosofia, da antiga para a moderna, o sujeito (humano) passou a ser a fiação do conhecimento. A subjetividade é uma espécie de base epistemológica fundante, por meio da qual a natureza é filtrada. A justificação do conhecimento passa pelo sujeito. Quando digo ‘sujeito’ não penso em uma pessoa de carne e osso. Mas em um tipo de plano. Como disse uma vez o filósofo Richard Rorty, é óbvio que havia ovos de dinossauros antes dos humanos (algo assim, me perdoe a paráfrase). E, obviamente, tais ovos não tinham relação causal nenhuma com humanos, até porque nem existíamos. Porém, tais ovos, hoje com nós humanos por aqui, “são” isso: ovos. E sabemos, a partir de vários vestígios deixados por aí, os tipos de ovos que existiam, a relação desses ovos com o tipo de animal, e assim por diante. Quer dizer, eles continuam a ser as mesmas “coisas” que existiam antes de estarmos (humanos) por aqui. Mas eles, paralela e incomensuravelmente, são partes de narrativas que nós humanos construímos e que integramos em sistemas de crenças, relações, significações.

Quer dizer, ao mesmo tempo, “ovos” são ovos (com o sujeito na jogada) E são “coisas em si” independentes de humanos. A finalidade de denominá-los de “ovos” (deve haver alguma raíz latina ou grega por detrás) é baseada em seu propósito: classificá-los, estudá-los e, no final, manipulá-los tendo em vista objetivos humanos. Ao passar pela “subjetividade”, os ovos são subjetivados para dentro (para a cultura e usos humanos; eg.: ovos de páscoa), e objetivados para fora (para a produção de frangos, por exemplo – isto é, para uma mudança concreta na coisa em si).

Portanto, tanto o som como Deus, de acordo com esse raciocínio, poderiam ser ambas as coisas. Primeiro, coisas-em-si; segundo, objetos, no sentido de se oporem (em relação dialética, em que um depende do outro) ao sujeito (sujeito<>objeto). No caso de Deus, porém, você já deve imaginar a complicação, pois, para começar, não o vemos (não há imanência). A menos que se considere Deus como “tudo o que há” – uma espécie de “transubjetividade” sobre a qual assenta a própria condição do Universo. Quer dizer, em escala infinita, a mesma função desempenhada pela subjetividade na construção do conhecimento humano.

***

É sabido que Kierkegaard desenvolveu sua filosofia ao redor de uma explicação racional para a questão divina. Por mim, termino com uma ideia simples dele: a de salto. Pois pode ser disto mesmo que se trate: de um salto do realismo humano para um “realismo não-humano”. O momento em que mergulhamos e nos dissolvemos na coisa-em-si de nossa máteria, nos igualando finalmente a ela, talvez com um pouco mais de conforto do que tem ocorrido há bilhões de anos com outros seres vivos.

Paradoxos da internet

Há não muito tempo atrás, se você estivesse na fila do banco, ou esperando por um atendimento médico, você não tinha muita opção que não aceitar o tédio da espera. Não havia opção de mergulhar no celular e desaparecer em algum reino virtual totalmente desconectado com a sua experiência real e presente: estar entediado enquanto espera. Nessas circunstâncias, e em muitas outras, o celular é um poderoso instrumento de fuga. Pense num adolescente se reunindo com seus colegas. É muito comum cada um mergulhar no celular enquanto estão junto de outros. Por quê? Porque é o jeito como adolescentes modernos estão “lidando” com a ansiedade de estar em grupo.

Isso não deveria ser surpresa, afinal, a internet como um todo tem se transformado no avesso do que psicólogos da abordagem cognitivo-comportamental denominam de “exposição” – se você tem ansiedade em relação, digamos, a dirigir, sua tendência natural é evitar dirigir. Porém, a única forma de superar essa ansiedade ou medo é…dirigindo. Assim, a exposição gradual, assistida por um terapeuta, isto é, de algum modo protegida, vai, progressivamente, expondo a pessoa a essa situação real e, com o tempo, seu medo de dirigir diminui.

Considere agora algo menos concreto como dirigir. Suponhamos que seu filho ou filha tenha ansiedade em relação a estar no meio de outras pessoas. Em vez de se expor à situação real de estar com outras pessoas, por exemplo na escola, seu filho tem à sua disposição o mar de possibilidades irreais da internet: jogar online, conversar com dezenas ou mesmo centenas de “amigos virtuais”, etc. É claro que ninguém vai sugerir que a solução é ficar longe da internet. Porém, não há como negar o paradoxo: ao mesmo tempo em que ela nos permite infinitas possibilidades (no virtual), ela acaba reduzindo as possibilidades de ações no mundo concreto.

Assim, outro paradoxo da internet tem a ver com nosso grau de liberdade. Um adolescente hoje em dia tem muito mais liberdade virtual que física. É muito mais provável que os pais de um adolescente o permita “perambular” pela internet em vez de dar uma volta no quarteirão – no Brasil, de fato, em algumas localidades é extremamente perigoso andar na rua. Mas a obsessão com segurança fez com que nos voltássemos sem muito critérios para a internet, em que pese a crescente preocupação com segurança digital e restrição de conteúdos para o público jovem.

Por fim, não menos grave é o estímulo que a internet coloca sobre a ruminação. Como muitos sabem, mensagens negativas atraem muito mais a atenção das pessoas. E a internet, repleta de semi-celebridades dispostas a praticamente tudo para ter uma audiência e faturar, mais uma vez expõe seus exageros. Por exemplo, considere a tendência recente de pessoas exporem seus traumas de infância em redes sociais. De um lado, isso serve para a pessoa “colocar para fora” essas situações, que no passado eram proibidas de vir à luz, serivindo para perpetuar o sofrimento e a discriminação. De outro lado, o paradoxo: quanto mais essas pessoas falam desses traumas, mais a linguagem “psicológica” se perpetua, quando só o que se fala é de ansiedade, depressão, violência psicológica, assédio e assim por diante. Quer dizer, a internet permite uma constante ruminação – e a psicologia já nos mostrou os riscos disso, quando a pessoa só fica pensando no seu próprio problema ou situação, e se torna incapaz de romper a circularidade. Ela se prende em um looping que só intensifica seu sofrimento.

O tédio é super importante, especialmente para um adolescente. É uma experiência de se sentir vazio. Porém, em vez de deixar o tédio “falar” e aprender com ele, nos impulsionando a experimentar, a fazer coisas diferentes, a preencher o vazio, nós o postergamos, mergulhando na internet, surfando de texto e imagem a texto e imagem, sem conexão com o mundo real e, sobretudo, com seu próprio mundo afetivo.

O compartilhamento de experiências é importante. Saber que você não está sozinho, que seu sofrimento não é só seu, ajuda na superação do problema, criando redes de solidariedade e apoio. Mas quando todo mundo amplifica seus problemas, tornando-os tão banais como em um post ou vídeo de alguns segundos em redes sociais, quando a linguagem é tão tóxica e poluente que você não enxerga mais nada além dela, então não podemos desconsiderar que a suposta solução para o problema está contribuindo, via ruminação, para sua própria existência. Não à toa os adolescentes estejam hoje vivendo uma crise de ansiedade generalizada, que vai de par em par com a popularização da linguagem psicológica em todos os recantos da internet.

É preciso haver barreiras. A ruminação da internet torna difícil a criação de barreiras. É preciso riscar uma linha no chão a fim de estabelecer os limites do falar por falar. Se pensarmos novamente nos insights da perspectiva cognitivo-comportamental, a internet está hiperinflando crenças e pensamentos, culminando em potenciais profecias auto-realizadoras. Pesquisadores têm chamado isso de “inflação de prevalência” – quanto mais consciência as pessoas têm, via narrativas plenamente disponíveis, mais elas passam a se definir e a ver o mundo da perspectiva de sintomas e diagnósticos.

O tamanho

Considerando todas os planetas e estrelas, a parte observável do universo, e toda a dark energy, tudo o que não é visível no universo, a quantidade estimada total de energia que ele contém é equivalente a:

[67 000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000 toneladas de TNT; ou 67 trilhões trilhões trilhões trilhões e trilhões de toneladas]

Esta seria também a medida de quanto o universo pesa.

Enquanto isso…

Estamos preocupados com quanto nós pesamos. Com o quanto temos no banco. Com o número de sapatos que temos. Com o quanto nossa vida, de um modo geral, vez ou outra, ou sempre, parece excessivamente pesada, difícil de carregar.

Proibido fumar

Creio que tenha sido Paulo Maluf, quando era prefeito da cidade de São Paulo, quem tenha decretado uma lei proibindo as pessoas de fumar em locais fechados. A revolta foi tanta que até uma música surgiu tratando disso. Na época, eu estava provavelmente entrando na adolescência. Desse período e fato, hoje me lembro só de uma estranha sensação. A coisa não fazia muito sentido para mim, à época. Não porque tivesse alguma opinião sobre os malefícios do cigarro ou sobre “fumantes passivos”. Nada disso. Só achei o assunto coisa de gente esquisita. Bom, vai ver é exatamente isso que crianças e jovens adolescentes achem hoje em dia de toda essa conversa de políticos ou profissionais da atuando em saúde pública.

Pulando para os dias atuais, acho que temos uma nova epidemia. Mas não de cigarro. Antes, você andava pela rua e era fácil ver pessoas fumando. Muitas delas, dependendo de seu local. Até comerciais de cigarro havia na TV aberta. O cigarro era associado com liberdade de escolha, status, ousadia, especialmente por parte das mulheres.

Nossa epidemia atual, que tem o diferencial de incluir até mesmo crianças, é a do celular, do smartphone. Basta você sair de casa. Pode pensar no lugar que for. Ali haverá quase 100% de pessoas mergulhadas em seus aparelhos. Estes dias, vi uma pessoa na garupa de uma moto segurando seu celular e, sei lá, falando com alguém no aplicativo de comunicação, ou ajudando o motorista a se localizar (olhando no mapa apresentado pelo celular). Se você for na praia, lá estarão eles. No supermercado, idem. Durante uma reunião, claro. Na sala de aula, infelizmente. No médico, então, aí é certeza quase absoluta de encontrar pessoas atarracadas com seus aparelhos.

E sabe o que é interessante? Bom, da mesma forma que no final dos anos 1980 e início dos 1990 ninguém achava estranho outros fumando…dentro de um avião!, ou em um restaurante fechado… hoje também a maioria parece não notar ou então se importar com essa nova epidemia. Inclusive, até mesmo riscos para a saúde o celular pode provocar – por certo, e falo isso por experiência, para os olhos. Para não mencionar o impacto sobre a atenção.

A situação é tão bizarra que, vez ou outra, leio matérias de jornalistas que fizeram algo absolutamente impensável, oh!, ficar uma semana sem celular/internet. Hoje mesmo ouvi uma matéria dessas. O casal resolveu chamar até a operadora de internet para vir desconectar o modem. E então a criatura passa a descrever o que seria a reinvenção da roda: como fazer compras, como chamar o médico, como encontrar um endereço, etc.

Existe, ou existia, um campo de estudos sobre cognição expandida. Segundo alguns dos insights de que me lembro dessa perspectiva, nós tendemos a externalizar partes que antes eram de nosso próprio cérebro/mente para máquinas ou objetos externos. Há nisso, é claro, o potencial de uma simbiose proveitosa para o humano. Por exemplo, contar é muito mais fácil com um pedaço de papel, ou mesmo com os dedos, do que apenas com cálculos mentais (pelo menos, para a maioria da população). O papel, a caneta, o lapis, são externalizações que nos permitem conduzir nossas operações matemáticas. O cérebro em perfeita harmonia com o resto do corpo, e com a concretude ao redor.

Similarmente, no início, éramos forçados a manter uma agenda de telefones. Um caderninho, o que fosse. Os primeiros celulares, mesmo sem grande memória como as dos aparelhos de hoje, já nos havia permitido dar um primeiro salto do caderninho para o chip. Mas a evolução desses aparelhos foi tamanha que hoje eles representam o que certamente um computador da NASA representava no passado, ocupando às vezes prédios inteiros. O ponto que gostaria de fazer não é o da nova estética que está sendo criada pelo smartphone, como quando estamos falando com alguém e esse alguém está, em vez de prestando atenção em nós, falando com outro ser humano quilômetros longe. Não. Falo dessa etapa, ainda desconhecida em termos de suas consequências, em que externalizamos praticamente toda nossa vida mental, inclusive nossa sociabilidade, para um aparelho – que, supostamente, nos coloca em contato com outros seres humanos.

É como se estivéssemos numa imensa nuvem de fumaça, mas desta vez não literal, como estavam as pessoas na época em que fumar em público e espaço fechados era cool. E, repito, agora usando uma expressão de George Carlin: nobody seems to notice; nobody seems to care.

Mais do que 100% de identificação

Amei o vídeo abaixo. E não falo “amei” no sentido coloquial que às vezes as pessoas usam essa expressão, no fundo querendo dizer nada. Eu realmente amei, de paixão, o vídeo (o texto, na verdade). Até hoje, nessas explorações aleatórias que faço pela internet, não havia achado uma peça que representasse exatamente o que estou vivendo já faz algum tempo. Lembro de que, em outra crise profunda que tive, “descobri” Schopenhauer e Nietzsche. Eles me ajudaram a atravessar uma dor profunda, dando-lhe algum sentido. Agora, estou em uma nova situação de dor profunda (e sem encontrar sentido), a mais longa que já tive, um inverno longo, longo, mais longo de que tenho lembrança. O tipo de inverno que deixa tudo branco, indistinto, indiferente, gerando, como está no vídeo, calos que me impedem de sentir, ao toque, o mundo e suas texturas. E a maior agonia é que, até aqui, não havia encontrado alguém para dialogar – uma pessoa, ou um autor morto (ou vivo, não importa). O vídeo, e seu texto, não chegam a ser o interlocutor definitivo, mas é o mais próximo com certeza. Engraçado que eu, sempre aos fins de ano (quando, normalmente, estou de férias), acabo citando produções desse canal. Mas este, poxa vida. Gostaria de traduzi-lo e ampliar seu alcance, mas acho que pode haver restrições de direitos autorais. O vídeo, porém, tem legenda em inglês, o que ajuda a disseminá-lo. Mesmo assim, cito alguns trechos a seguir, em tradução livre. É uma peça de arte, sensibilidade, precisão e amor.

Quando você era criança, você era cheio de entusiasmo e sensibilidade. O mundo é pequeno, e seus olhos são grandes. Mas quando você vai envelhecendo, tudo se torna maior, e você praticamente fica do mesmo tamanho – no máximo ganha uns centímetros. O caos, a complexidade, e a impossível obscuridade do mundo te cercam e te tomam à medida em que seu senso de significância e segurança diminuem até virarem um minúsculo ponto. Você segue adiante, segue o fluxo. Você faz coisas, realiza coisas, você obtém coisas. Mas nada nunca mais resolve a questão – aquela inquietação profunda, agitação e desolação. Você se acha sempre no mesmo lugar, independentemente do quão forte você tente ou longe você vá. Pessoas queridas morrem, corações se quebram, coisas horríveis acontecem – você percebe cada vez mais as coisas horríveis que poderiam e vão acontecer. Tudo se torna um pano de fundo esfumaçado para os implacáveis problemas do dia-a-dia.

Finalmente, você aprende a como lidar com tudo isso. Você se torna anestesiado. Indiferente. Você faz de tudo para que nada realmente te afete. Não é uma decisão consciente. Você nem se lembra de tê-la tomado. A vida dói ao toque, e então, obviamente, você para de segurar nela com tanta força. Agora, quase nada te afeta muito, mas você também não sente muito mais as coisas. Não é exatamente apatia – pelo menos não no sentido tradicional dessa expressão. Não é exatamente depressão. É alguma outra coisa; alguma coisa entre ou externa a esses termos. Não é um sentimento de que você está em um tipo de areia-movediça, mas muito mais o sentimento de que as coisas estão “okay”, enquanto você está sentado sobre a areia de uma linda praia.

[…]

No fim, a vida move em estações. Não é sempre que estamos energizados ou animados ou principamente sintonizados com o bem. Não conseguimos ser sempre afáveis e receptivos. Nem sempre conseguimos ser brilhantes e transbordar vida. Mas, assim como o solo coberto com neve em uma paisagem invernal contém a habilidade de produzir vida quando a estação muda, assim também você tem a habilidade de fazer germinar uma nova vida quando o momento chegar. Você ainda tem seu mundo interno, suas faculdades, sua perspectiva, sua criatividade, e sua habilidade de adaptar e resistir. Se você não esteve sempre aqui [nessa situação], você provavelmente não estará sempre nela. E mesmo se você estivesse, você ainda conseguiria se adaptar, e você vai ficar okay. Seja em estações de luta, ou em uma experiência de uma vida inteira sentindo a frieza do universo, por meio de sua perspectiva e escolhas individuais, você ainda será capaz de te propiciar conforto, significado, o calor da fortitude invencível. Talvez tudo que tenhamos seja isso – o verão invencível dentro de nós -, mas talvez isso seja tudo de que necessitamos.

Nota. Vale o destaque: “No meio do inverno eu, finalmente, descobri que há em mim um verão invencível” (Camus).

Fragmentos dispersos, 7

Travas mentais. Tive um insight em que penso ter resolvido a questão de que tratava no post anterior, sobre o impacto de um dia de trabalho. Sei que isso não é nenhuma originalidade (veja o conceito de “compartimentalização” por aí), mas pouco importa, desde que funcione. E, até aqui, tem funcionado. É algo bem simples: basta colocar uma espécie de trava na mente. Um tipo de comando em que você se auto-impede de trilhar alguns caminhos de pensamento. Por exemplo: ao chegar em casa, basta colocar uma trava no sentido de impedir o pensamento de ficar remoendo o dia, reensaiando formas de agir diferente nas situações a, b ou c. O dia passou, o dia acabou, ele não existe mais. Todas as impressões desse dia passam a ser fragmentos sem sentido de coisas já vividas. Não podem ser revividos. Não podem ser reproduzidos. Não tinham, para começo de conversa, nenhuma finalidade ou objetivo ou propósito de seguir determinado curso. Foram coisas aleatórias. Umas, agradáveis; outras, nem tanto. É como tomar uma chuva. Você chega em casa e logo troca de roupa. Não fica sentado no sofá com as roupas molhadas pensando que deveria ter levado um guarda-chuva. Você simplesmente chega em casa, tira a roupa, o sapato etc. molhados, toma uma ducha quente e toca a vida. Você nem pensa mais que tomou uma chuva no caminho da casa. Por que não poderia ser a mesma coisa para as atividades e os (maus) encontros durante um dia?

Peak performers. Ouvi um gestor de um grande fundo de investimento falar que ele estava profundamente interessado em “casos exepcionais”. Deu o exemplo de uma cantora norte-americana que fez um sucesso estrondoso com seus shows em 2023. Tal gestor diz ter levado a filha para o show dessa cantora, meio que dando a entender que, como pai, gostaria que a filha aprendesse “com a melhor”. É interessante. Um acontecimento que nunca me esqueço, duas décadas atrás, é quando tive minha primeira experiência como “terapeuta”. Foi durante o estágio do quinto ano da faculdade de psicologia. A paciente tinha uma questão com mulheres em revistas de moda. Dizia achar aquelas mulheres verdadeiros modelos, e que se ressentia profundamente por não ter o rosto, o corpo, o talento daquelas mulheres. Isso de algum modo me inquieta até hoje, essa secular tendência de as pessoas olharem apenas para os top performers, para os extremos de sucesso em cada campo artístico, profissional, pessoal. O tal gestor de fundos de investimento quer que sua filha só olhe para cima, só olhe e só intencione o melhor. Não, não, o melhor não. O excepcional. Todo o resto é só isso: resto e mediocridade. Não haveria nada a se aprender com aquela zona, em um gráfico de distribuição normal, que fica entre os extremos. Quer dizer, nada de bom com os 68,2% do meio (figura; [fonte]). As exigências estão ficando mais rígidas, e agora estaríamos apenas interessados nos 0.1%. Nos anos 1990 alguns psicólogos e sociólogos franceses chamavam o fenômeno de culto da performance ou da excelência. De lá para cá, o fenômeno só tem se intensificado. Não é interessante? Quanto mais o mundo caminha para números surreais (atualmente, mais de 7 bilhões de humanos vivem, e bilhões mal ganham o suficiente para ficarem vivos), mais vamos puxando para o 00000000000.alguma coisa do lado direito da figura abaixo?

O esteta

Don Giovanni, ou Don Juan, é uma peça de Mozart. Nela, D. Juan é um sedutor. Ele seduz mulheres sem qualquer consideração escrupulosa. Destroi casamentos, reputação, honra. Vai até as últimas consequências em seus planos, manobras, “lábia”, mentiras e artifícios. Ao conquistar uma mulher, ele então a abanona e passa para a próxima. Não se satisfaz com uma conquista. É como se seu desejo não tivesse objeto, a não ser o próprio desejo de desejar.

Nunca dei muita importância a essa história. Lembro-me de ter assistido um filme (ou séria, já não tenho certeza) sobre D. Juan, e tinha em minha mente que ele era um homem bonito, ou pelo menos bem apessoado, um galã, como se diz, ou um “garanhão”. Esta última palavra era usada no meu tempo de adolescência e juventude para descrever homens (geralmente) que “pegavam” muitas moças (“pegar” pode já estar fora de moda, ou ser uma palavra “cancelada”, assim como “garanhão”). Don Juan seria como esses personagens de vampiro que ficaram famosos, especialmente com adolescentes, ao menos no que diz respeito à beleza, à nobreza e ao potencial sedutor (embora vampiros, ao menos os da televisão, acabem se acalmando “pela eterninade” com um único amor…).

Vai tarde quando descobri que Don Giovanni foi escolhido por Kierkegaard como uma espécie de ideal-tipo, um modelo para a descrição de uma forma de relação com a existência que esse filósofo denomina de estética. A existência estética é uma em que o sujeito vive pulando de uma sensação para outra, de uma aventura para outra. Em termos atuais, poderíamos dizer que o esteta é um típico sujeito consumista. Ele não se importa muito com o conteúdo do que consome, desde que esteja consumindo, comprando e destacartando coisas e… pessoas. Aliás, o consumista como ideal-tipo é uma condição praticamente inescapável em uma economia capitalista de mercado.

Kierkegaard usa uma metáfora muito interessante para capturar essa existência. Nessa imagem, o esteta procede como que “rotacionando culturas”. Por exemplo, hoje você planta milho em seu pedaço de terra. Após a colheita, você resolve plantar cenouras. A terra nunca é cultivada de modo a acomodar uma plantação mais perene, como pés de café, ou mesmo árvores, algumas das quais, como sabemos, podem ser centenárias.

O esteta está permanentemente frustrado, incompleto, com um desejo que nunca se aquieta. É como aquela pessoa que começa um emprego e logo o deixa para fazer outra coisa. Começa um relacionamento e, assim que este começa a exigir um pouco mais de compromisso e estabilidade, ele o deixa, começando tudo de novo, como fazia Don Giovanni. Lê livros pela metade, ou então em passagens aleatórias. Responde a uma mensagem em um aplicativo de mensagens, e depois nem lembra mais direito o que quis dizer – pois fala sem compromisso, sem a substância de seu próprio corpo, seu coração, sua alma. Em nossa época, até patologias foram identificadas em relação a pessoas cuja atenção não consegue repousar em uma única coisa de cada vez.

O esteta, em termos morais, é um sujeito sem comprometimento, um flaneur, um avião que nunca aterriza. Sempre mudando de “culturas”, vive uma vida de curtição, de escapadas, de duplicação ou triplicação de frentes existenciais, de palavras vazias dadas ao outro. Um insaciável; em português direto: um mentiroso. Como um viciado em drogas, dobra a aposta quando sente o vazio bater à porta. Ele se imagina livre e autônomo, incapaz de ser capturado por estruturas sociais (como, por exemplo, pelos costumes de seu tempo), de ser moldado, forçado a servir a um único mestre. Ele se sente indomável, rebelde.

Mas a vida do esteta não segue sem rachaduras, falhas e potenciais ameças. Primeiro, essa vida depende de sorte, ou de um berço de ouro, e ainda de uma quantidade infinita de tempo, uma em que doença, velhice e morte não fazem parte da cena. Segundo, ela apresenta um problema observado em finanças, conhecido como “lei de retornos decrescentes” – a mesma coisa, ao longo do tempo, se mantidas certas condições (por exemplo, uma peça sem manutenção), tende a se depreciar, a perder o valor, a parar de funcionar. Terceiro, uma ameaça particularmente preocupante para uma vida estética é o tédio. Aqui temos uma espécie de ironia do Criador, pois, por alguma razão, quando fazemos sempre a mesma coisa, ainda que por “mesma coisa” queiramos dizer “fazer coisas sempre diferentes”, somos corroídos pelo tédio. Não à toa, o Sedutor, figura usada por Kierkegaard em um de seus livros (do qual Don Juan é o protótipo), é cercado de tédio. Ele, em algum nível, sente que sua vida tem algo de errado, que não é inteiramente justificada em si mesma. Na tentativa de ser livre acaba se tornando dependente de fatores externos para manter seu zest. O esteta se torna dependente de distrações – e, para tê-las, paga um preço cada vez mais elevado.

Na análise de Kierkegaard, a vida estética é abalada pela intromissão do ético. Uma vida que apenas perambula sobre ela mesma não é mais do que uma coleção aleatória de momentos ou trills. Ela não tem algo que a amarre a si mesma em um conjunto, que lhe impulsione a partir de um eixo, ou de uma narrativa coordenada. À cada excitação e aventura, intensa mas fugaz, o esteta é deixado consigo mesmo, no vazio, já novamente pensando em o que fará a seguir para preencher esse vazio com uma nova forma de sedução (de objetos ou outras pessoas).

Finalizo esse breve rascunho com a ferida do esteta: o desepero. É o desespero que abre a lacuna crucial para a vida estética ceder à vida ética. O desepero é o que demanda que o esteta pare de “viajar na maionese” e aterrize por um momento e passe a encarar o fato de sua vida estar girando no vazio, por mais empolgante que alguns momentos possam ser. Aprender a encarar o desespero é a oportunidade para levar a vida a um nível mais elevado de desenvolvimento.

Em algum momento, se inspirado, pretendo voltar ao tema do desespero, da angústia, e da vida ética, uma vida em que temos de nos comprometer, temos de aterrizar, temos de considerar que existem outras pessoas e que, no limite, estamos aqui para servi-las. Não se trata, pelo que entendo, de abandonar por completo elementos da vida estética, mas de não deixar que tudo se defina por ela. De fato, aspectos da vida estética são valiosos, pois, do contrário, tudo seria muito maçante, como a vida de um juíz imaginário (que, aliás, é o ideal-tipo usado por Kierkegaard para ilustrar a vida ética), duro, rigoroso, obediente à lei.

4.5 bilhões de anos


You cannot copy content of this page