Experimentos mentais, 7 – A pedra

Muitos bilhões de anos atrás. Atrás é um advérbio. Bilhões é um número. Sem pensar na Terra, houve matéria. Os planetas do sistema solar se formaram. Durante essa formação, trilhões de objetos constituídos no disco de gás e poeira foram arremessados para longe pelas forças gravitacionais dos planetas, especialmente dos maiores. A matéria era formada por rocha e gelo. Trilhões desses objetos foram sendo puxados. Jogados. Chacoalhados. Com o tempo (?), ou seja, com o movimento, formaram uma espécie de cardume de peixes. Cardume é uma metáfora. Nuvem de Oort. Um belo nome, dado por humanos. Na prática, trilhões de objetos orbitando no quase nada ao redor do Sol. Corpos pequenos e grandes. Massa. Velocidades imensas. De algum modo (esse modo é conhecido), tudo estava assim, em movimento governado pelas forças gravitacionais, que, como aprendemos aqui na Terra, pode prosseguir indefinidamente. Eternidade é um substantivo. O que quer dizer? Sem mudança? A manutenção de determinado estado de coisas, de um corpo, de forças? Seja como for, trilhões de objetos, pedaços de tamanhos distintos, uns pequenos, outros imensos, estavam todos flutuando nessa irmandade de excluídos. Antropomorfização, essa característica humana, um truque de linguagem. Mas a galáxia é viva. Galáxia viva, meu Deus, mais uma figura de linguagem. Viva quer dizer que ela pode, sim, exercer força sobre os objetos, os corpos celestiais, inclusive os “dejetos” de um grande esquema aleatório de formação planetária. Aleatório é um termo da estatística. Será que ele descreve realmente o que se passou? Provavelmente não. Mas vamos seguir com as metáforas e palavras. A galáxia, melhor dizendo, a maré da galáxia (desta vez, “maré” também é um termo técnico), ou uma estrela passando por “perto” do cardume de objetos frios, de modo geométrico, ou seja, por eventual disposição entre os corpos e as forças, expulsa um desses objetos do cardume. Dá-lhe um chute. Quantas coisas não podemos colocar nessa imagem, não? Dar um chute. Receber um chute. Um chute é só a aplicação de uma força a partir de duas matérias que calham de interagir entre si. Nem precisam se tocar. A gravidade dispensa contato. Então, com um chute, o objeto é mais uma vez expulso do cardume, da Nuvem, do agregado. Milhões de anos, talvez bilhões de anos. Será que, se você aumentar a janela do tempo, não aumenta também a probabilidade de acontecimentos? A quantidade de oportunidades para que ocorram combinações improváveis de forças e geometria, formas e encontros de formas, tende a aumentar com o tempo. Por milhões, ou bilhões, de anos esse objeto solitário vagou. Aqui a antropomorfização é espetacular, pois logo nos identificamos com esse “lobo solitário”, vagando sozinho pelo sistema solar, como se um pedaço de pedra ou gelo pudesse “pensar”. Mas é reconfortante para nós imaginar que sim. Isso, de alguma maneira, nos vincula a esse ser, digo, a essa matéria (“ser” talvez seja por demais humano). Esse “existente”, essa extensão. Tinha algo como 10 km de tamanho. O que é isso perante a galáxia? Ah, o famoso ponto de referência. Vagando, vagando, indo, ou vindo, não importa. O espaço, com sua vastidão, também dá muita oportunidade para se vagar, se afastar, melhor, simplesmente seguir sob o efeito da força que, lembra?, chutou “nosso amigo”. “Seguir” também já concede a esse existente alguma vontade. Uma queda pela eternidade. Como a linguagem cria intimidade do nada, não é mesmo? Que intimidade. Na verdade, que impostura a minha, tratar esse corpo celestial?, esse objeto?, essa pedra?, como um “amigo”, como um “chapa”. Brasileiros fazem isso quando querem criar uma amizade rápida e oportuna com alguém. Resgatamos, só pela linguagem e por um par ou outro de expressões faciais, corporais, um anônimo e o transformamos em um “chapa”. Isso nos dá uma sensação de que temos poder, não é? Então temos a vastidão do tempo, a vastidão do espaço e forças. E velocidade. Sabemos, desde o primário, que nossa Terra gira em torno de si mesma. Parece que a quase 1.700 km/h, no equador. Também orbita ao redor do Sol a mais de 100.000 km/h. E também é carregada pelo sistema solar, em órbita (uma menção geométrica!), ao redor do centro da galáxia, a mais ou menos 800.000 km/h. Como uma boneca russa, isso não ficaria só nisso. Não aqui. Lá embaixo, os números sempre significam alguma coisa. Mas talvez seja muito pedante ficar colocando mais números. Números. Nós, humanos, adoramos números. Tudo em nossa vida parece passar por números. O mestre dos mestres dos números é o dinheiro. Quanto maior o número (de dinheiro), maior a quantidade de objetos, inclusive pedras (“joias”), à nossa disposição. Somos tentados a colocar números na galáxia. E ali eles são generosos. Mas ajudam, ajudam a configurar o cenário para “nossa” rocha de 10 km, solitária, simplesmente seguindo seu conatus (aha, filosofia agora foi boa, mas me ocorreu de modo inevitável). A vastidão do tempo, do espaço e… da velocidade. E geometria. O pequeno “detalhe” é que essa Terra giratória estava no apogeu da vida. Os dinossauros estavam por aqui. Haviam surgido milhões de anos após uma extinção em massa que eliminara cerca de 90% das espécies então existentes — e levariam ainda mais milhões de anos de insignificância antes de se tornar, enfim, as majestosas fênix do planeta. Uma biomassa imensa. Dentes, escamas, asas, cores exóticas, mandíbulas, bracinhos pequenos, penugens carnavalescas, olhos imensos, pescoços quilométricos. Um mar de exagero, abundância, volume. Palavras, mais palavras. Eram matéria, átomos. Reunidos ao longo de milhões e milhões de anos, em uma paciente Terra, generosa, indiferente. Geometria, de novo, massa e velocidade. Tente acertar um objeto que se movimenta em diversos planos ao mesmo tempo, em velocidades imensas e em trajetórias sobrepostas, mas não idênticas. “Acertar”: mais uma palavra humana. Não havia pontaria. Não havia atirador. Não havia sequer um alvo. Mas lembre-se: estamos na vastidão do tempo e do espaço, um plano perfeito para eventos improváveis. É quando “nossa” pedra, nosso anjo caído, expelido e solitário, no exercício de seu ser-no-espaço, encontra a Terra e, em dois ou três segundos, encerra sua queda de bilhões de anos.

Cena do documentário What exactly killed the Dinosaurs? Earth. BBC Earth Science
Fonte aqui


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