O crivo da estética absoluta

Para pensar sobre si, é necessário ser poético, bem dotado intelectualmente, gênio? A dúvida é prática: pense em poetas e grandes escritores. Ou em escritores de um modo geral, nem precisam ser os clássicos. Eles decerto escreviam porque tinham uma raiz que descia fundo na terra em busca de água e minerais, ou tinham uma vasta folhagem que embelezava sua árvore. Pode ser que fossem ambos. Porém, humanos como nós, deviam ter dúvidas, angústias, até mesmo desespero, ou curiosidade, desejo, vontade de explorar o mundo simbólico.

Quem não dispõe de talento (e vou usar a palavra deliberadamente) o que faz com as mesmas e humanas dúvidas, incertezas, medos, angústias e com o desespero, ou com a alegria, a vontade de explorar ideias, o prazer de sublimar a lama interior e a habilidade de transformá-la em escultura a ser apresentada na arena do outro? Como essa pessoa “comum” toma a si própria, extrai os minerais e a água de seu solo existencial e os lança ao ar, para cima, ao mundo?

O vocabulário que uma pessoa tem para elaborar a si própria talvez não venha dela, não no sentido de algo eminentemente privado: ela o reelabora a partir do que obteve “de fora”. Mas o nível dessa elaboração é prova de quê, exatamente? Talento eu já usei acima. Mas, para quem “não tem talento” (por isso eu disse que usaria a palavra propositalmente, para tensionar isso), resta pensar, falar e articular de que forma? E se essa pessoa não fizer muita coisa com tudo o que lhe ocorre? E se ela se grudar a alguma narrativa coletiva (religiosa, política, histórica etc.) e mal conseguir articular alguma singularidade, sem sequer ter a noção disso?

É realmente uma dúvida legítima que eu tenho, uma que inclusive me deixa ambivalente em relação às coisas que eu mesmo escrevo neste espaço. Se não há “literatura” no que está aqui escrito, e eu de fato não acho que haja, então esse material tem qual qualidade ou finalidade?

Nietzsche disse em algum lugar que deveríamos ver ou tratar nossa vida como uma obra de arte. Pense nisso: uma obra de arte!

Falando sobre outra coisa, Dostoiévski uma vez escreveu sobre aquilo que, na opinião dele, seria o inferno: ser incapaz de amar. Eu já diria que o inferno é você ter um turbilhão dentro de si, disforme, esfomeado, um mar de água (ou o fantasma de muita água), ou um animal predador, e não conseguir achar a caça, não conseguir conduzir essa água, fazer algo com ela de útil do ponto de vista psíquico, pois, por alguma razão, realmente “falta” essa “capacidade”, ou você a idealiza a ponto de tudo te paralisar.

Obra de arte: ou é uma obra-prima, ou não será nada? É como se uma cópia vendida na praia, feita por algum “amador” e custando 15 reais, não fosse real, fosse, na verdade, uma impostura (algo que existe, degradado, no lugar de outro algo superior/original). E aí, paradoxalmente, em vez de surgir o silêncio, o turbilhão interno fica ainda pior: a cobrança para deixá-lo passar se torna cada vez mais inatingível e, como resultado, propaga-se uma sensação de irrealidade por todos os lados. O preço desse sistema é paradoxal: há um recuo do “tudo” para o “nada”, pois o nada é, na verdade, prenhe de tudo.


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