O silêncio dos animais

O ser humano nasce, cresce e morre. Mas nasce, cresce e morre criando histórias sobre nascer, crescer e morrer. Conta histórias sobre sua própria origem, tanto individualmente quanto como espécie. Há aqueles que, ao falar sobre esta última, recorrem a narrativas grandiosas, fanfarronas, como a de que o ser humano foi criado por Deus, e de que depois esse mesmo Deus criou a mulher a partir da costela do homem. Há também as explicações materialistas, apoiadas em evidências, sobre a emergência das espécies a partir de ancestrais comuns, que foram divergindo ao longo do tempo e originando diferentes linhagens. Temos mapas das espécies conhecidas, atuais e extintas, além de hipóteses e teorias sobre sua emergência e suas características. Essas teorias e explicações são importantes, mas não mudam em nada o fato de que nascemos, crescemos e vamos morrer.

Mas não basta. Para o ser humano, isso não basta. É preciso pensar numa vida após a morte. Daí, é preciso criar critérios e peripécias para que, ainda em vida, se garanta a próxima, em vez de se ir parar num caldeirão fervente por toda a eternidade.

A vida precisa ser justificada o tempo todo. Não basta estar vivo. Aliás, dizemos que alguém que “só quer viver” não tem ambição, projeto, visão, desejo. Não admitimos que alguém simplesmente queira viver. Talvez nem seja possível, materialmente falando, tal coisa, pois, tão logo nascemos, já somos lançados numa engrenagem que determina, por vezes de forma rígida e inegociável, se vamos viver ou não e, se é para viver, como, onde e com quem.

Alguém que morre pobre é visto como inferior. É preciso, antes de morrer, apresentar justificativas de que a vida valeu a pena. Se deixou uma obra, se deixou dinheiro, se fez algo de valor para a espécie. Ou para o mundo. Mas, em geral, é sempre para a espécie. E, quando é para o mundo, é para consertar algo que a própria espécie quebrou.

O ser humano não consegue, em nenhum aspecto da materialidade de sua vida, ficar em silêncio. Mesmo o silêncio que ele faz precisa ter um sentido: precisa, digamos, ser um retiro, uma meditação. Não há espaços de silêncio, pois é preciso sempre dar justificativas, construir narrativas, dedicar-se a alguma peça que vai se somar à totalidade do que se entende por “progresso” e desenvolvimento.

Por isso, o ser humano não consegue lidar com o silêncio dos animais. Não no sentido literal, pois muitos animais fazem muito barulho. Mas não consegue apreender o estar no mundo silenciosamente, isto é, sem criar histórias, inventar deuses, desafios, projetos, razões e finalidades. Não consegue dormir à noite sem passar em revista o que fez durante o dia, se alcançou alguma coisa. Não consegue parar de pensar. E o mais engraçado, ou trágico, é que está condenado a isso. Não consegue escapar, mesmo que queira. De fato, seu Deus o lançou para fora do paraíso, onde andava nu e vivia como um “animal qualquer”. Seu pecado, e sobretudo seu castigo, é pensar, avaliar, escrutinar, punir-se e viver no mundo da lua durante a maior parte do tempo, incrustado que está em histerias coletivas sem fim.

Se tem sede, não basta beber qualquer água, em qualquer lugar, como faria um cervo na floresta. Não. O simples gesto de beber água já inclui uma indústria inteira, inclusive uma indústria cultural. Aquele que bebe, num copo de cristal, água proveniente dos Alpes é de uma estirpe completamente diferente daquele que bebe água num córrego, em algum canto esquecido do mundo. O ser humano pode ser julgado apenas pelo tipo de água que bebe. Pode ser hierarquizado com base nisso. Sua autoestima pode estar ligada à marca de H₂O que bebe e à ideia de ter ou não merecido aquela marca. Toda a construção da civilização se erigiu a partir de fatos básicos como beber água, encontrar um lugar para dormir, um parceiro para procriar, um alimento para saciar a fome. Para tudo há um nome. E, para cada nome, há uma constelação de possibilidades mentais e práticas, ranqueamentos, acessos e negações.

Não há vida humana que não tenha de ser justificada. Redimida. Resgatada da contingência. Retirada do deserto. Inserida em delírios coletivos. Mas os delírios jamais são percebidos como tais, pois se tornaram tão naturais quanto o ar poluído que o ser humano respira. A indústria dos influencers está aí para testemunhar o absurdo de uma época. Estes dias, vi uma “especialista” em assessorar pais na escolha do nome dos filhos. Os influencers estão na linha de frente da histeria coletiva: um misto de falta de emprego, de competência — ou de interesse — para seguir carreiras tradicionais, show business, entretenimento e estratégias para extrair e ganhar dinheiro num planeta transformado em cassino.

Somos uma espécie com um potencial imenso. Mudamos o planeta. Controlamos parte do nosso destino. Mas somos seres de hipergeneralização, presos a códigos semióticos, a símbolos. Mesmo quando dizemos que “X não tem sentido algum”, já estamos operando de dentro dos signos. Para “voltarmos” à natureza, precisamos pagar caro, e nem todos têm esse privilégio. Aliás, “voltar à natureza” já contém, em si, uma contradição óbvia. É por isso, e por mais alguma coisa, que nos cansamos, nos entediamos, nos deprimimos. E, ao dizer isso, acabo de recorrer a mais uma de nossas categorias para explicar aquilo que estou tentando criticar.

Mas há algo fundamental que toda essa maquinaria semiótica nos permite afirmar, e esta é uma das tantas maravilhas de nossa espécie: sabemos que tudo o que nos rodeia, nós inclusos, vai continuar independentemente do sentido que damos a tudo isso. Pois contamos para nós mesmos por que nascemos, crescemos e morremos; mas, se não fizéssemos isso, continuaríamos a nascer, crescer e morrer.

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John Gray, em The Silence of Animals, sugere algo diferente do que acabei de afirmar: que o próprio humanismo (essa fé em que seríamos progressivamente redimidos pela razão, pela história e pelo sentido que construímos) é apenas mais um mito religioso disfarçado de secularismo, e que a crença no progresso é tão fantasiosa quanto a criação do ser humano por Deus a partir do barro. Gray não nega que fabriquemos histórias sem parar, mas que estejamos condenados a fazê-lo o tempo todo, sem alívio. Para ele, há instantes – raros, involuntários, quase acidentais – em que a maquinaria semiótica deixa momentaneamente de ocupar todo o campo: um momento de contemplação, um lampejo diante de algo belo ou terrível, um silêncio que não foi buscado como retiro ou meditação, mas que simplesmente aconteceu. Nesses instantes, diz Gray, o ser humano não deixa de ser humano; apenas para, por um segundo, de precisar justificar-se. Não é o silêncio do cervo, que nunca precisou transformá-lo em projeto. É antes um silêncio ‘roubado’, próprio de quem sabe fabricar sentido e, ainda assim, por um instante, não precisa fazê-lo.


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