Investir no mundo

Admito que, muitas vezes, neste blog, acabo sendo solipsista. Como sujeito histórico (portanto, em parte, isso que vou falar não depende de minha única constituição particular, interior), sou um sujeito com um projeto de eu. Em outras palavras, meu eu é uma questão recorrente para mim, pois me penso como indivíduo.Como sujeito histórico, vivo em uma cultura e numa subjetividade ‘individualista’ (a palavra não é das melhores, mas, em seu sentido antropológico, tem lá seu valor). Não haveria de ser diferente eu pensar em mim, nos meus projetos, nas minhas metas e objetivos, no meu prazer e satisfação, e assim por diante.

Isso para dizer que, em grande medida, escrevo aqui para mim mesmo. E, nesse escrever, reflito sobre temas solipsistas, temas que, alusivamente, eu associaria aos temas que, no século dezenove, se veio a conhecer como ‘literatura de coração’, uma literatura burguesa, vitoriana, voltada às classes médias em ascenção ou mesmo a certa aristocracia em mudança. Uma literatura especular, voltada ao serviço de refletir os novos valores e temores de uma classe/geração para ela mesma. Solipsismo de classe, digamos.

Como sujeito histórico, e isso vai soar como uma contradição, não conheço a história. E, por não conhecê-la, certamente a repito como farsa – ao menos, em alguma medida. Não conhecer a história, como um amigo disse esses dias, é o primeiro passo (senão a base) para a auto-promoção, ou, o que é pior (ou dá no mesmo), para um giro de 360 graus em torno de si mesmo. Solipsismo. Não conhecer a história nos joga na grande massa dos facilmente manipulados, em geral, pelo consumo (pois não há nada mais doce e sedutor do que essa forma de manipulação, ao menos na modernidade ocidental).

Tudo isso também para discutir um tema. Um tema que, no meu vago conhecimento de algumas personagens filosóficas, foi um tema Schopenhauer-Nietzsche. O tema do ‘investimento no mundo’. O que nos move a investir no mundo, em vez de, por exemplo, ficar na cama dormindo, ou, pior, ficar no mencionado giro de 360 graus, anti-produtivo, meramente especular (a própria imagem refletida no espelho centenas e centenas de vezes, não levando a nada – pelo menos não no curto prazo e no plano objetivo)? Como ‘sair de si’, deixar o solipsismo?

Schopenhauer, e vou fazer aqui uma mega-simplificação, talvez pudesse dizer que não vale a pena investirmos no mundo porque, independente do que fizermos, vamos sentir dor, vamos fracassar, vamos morrer. Além disso, não haveria, nesse mundo, uma utopia tão forte ao ponto de nos movermos, coletivamente (!) para alcançá-la, com promessas de vida melhor e digna para todos (ideia [romântica ou idealista?] de ‘humanidade’). Não haveria, ao nível ontológico, qualquer diferença entre pegar o ônibus de manhã para ir trabalhar para trazer comida para casa e o movimento cego, cansativo, de um passarinho fazendo muitas vezes um mesmo trajeto diário para trazer comida a seus filhotes (atenção: voltarei a isso, e então você vai entender).

Nietzsche, de cuja filosofia conheço menos que a do seu ‘inspirateur‘, em contrario, disse que deveríamos investir no mundo como forma de dar seguimento à nossa ‘vontade de poder’, ou simplesmente à nossa potência. Gente como Schopenhauer, diria (ou realmente disse) Nietzsche, é ‘negadora da vida’. Recua ante à afirmação da potência de viver. A questão, e aí as pernas não me ajudam, é em que base Nietzsche coloca a potência. Potência de quê, para quê? Para Schopenhauer, a vontade (potência?) era cega. Não visa nada, exceto manter-se – sendo, pois, uma poderosa força de conservação.

Seja como for, eis que chegamos a um ponto importante, relativo, no plano ético-moral, ao porquê da ação. Ao porquê dos projetos que colocamos sobre o mundo. Num ‘horizonte hermenêutico’ iluminista, investimos (como humanidade) em algo porque queremos transformar esse mundo num lugar melhor, mais ‘avançado’ (em todos os sentidos contidos na ideia de ‘progresso’ da razão): para nós, para nossos filhos. Depois de muita decantação histórica, hoje chegamos a uma situação em que responder a isso leva-nos a coisas como: ah, porque preciso sobreviver (por que se trabalha); por que quero ajudar as outras pessoas; porque não há vida após a morte e, então, precisamos aprimorar um projeto imanente, inclusivo, bom para todos (ou que maximize a utilidade para o maior número possível); ou porque existe um outro mundo, e este é nossa ‘responsabilidade’ – precisamos fazer as coisas bem aqui porque Deus nos deixou esse mundo para que dele cuidássemos, co-participando, assim, da construção/manutenção da obra que Ele iniciou; … .

O fato é que, por vezes, mais do que me perguntar, qua adolescente, ‘quem sou eu e para onde vou’ (traduzindo: em que vou investir, o que vou fazer), eu me pergunto sobre o que gira a roda… Olhando as pessoas ao meu redor, todos parecem sugerir que possuem a mínima ideia de para onde estão indo, do porquê estão fazendo o que estão fazendo – por que um vendedor de remédios vende remédio; por que um pequeno comerciante pensa em expandir seus negócios, contraindo dívidas bancárias; por que um aluno senta no banco de uma universidade até o término de seu curso (para se formar e ‘sair para o mundo’); por que sentar e escrever um artigo, tendo antes saído à rua com seu ‘time’ para coletar/produzir/co-produzir dados, etc.

***

O comentário sobre a ‘mãe-pássaro’ não foi à toda. Estava hoje voltando para casa, e, sem querer, vimos um filhote de pardal, recém-nascido, caído no chão. Perdeu seu ninho (ou foi jogado fora dele por um irmão mais forte, reduzindo as ‘bocas’ e, consequentemente, aumentando a parte da ‘ração’ diária). Certamente morreria.

Aí você pensa: é a ‘lei’ da natureza, não podemos fazer nada. Para piorar, o coitado era um ‘pardal’, e pardais saem aos ladrões em grande quantidade. Se ainda por cima fosse um pássaro ‘nobre’. Então, qual o valor daquela vida? Uma vida invisível, como, aliás, é a vida de milhões de pessoas, trabalhadores em pequenos trabalhos, invisíveis, despossuídos de ideologia, organização ou, simplesmente, de vontade de mudar alguma coisa. Um batalhão que, embora façam parte da mesma matéria de um ‘ser genérico’ (que trabalha) como nós, são muitas vezes tratados como se não ‘valessem nada’ (diz o ‘patrão’: ah, qualquer coisa, arruma outro fácil!).

Então, voltando ao caso do pássaro: levar para casa, cuidar dele, ou deixá-lo entregue à própria sorte? Por que ‘investir’ (no puro e exclusivo sentido psíquico) nele, se seu futuro é incerto, e, na melhor das hipóteses, é ‘só mais uma vida’ de pardal, perdida entre milhares e milhares deles?

Foi aí que, por algum motivo, um motivo que perpassa isso que escrevo, resolvi intervir. Pesquisei sobre o assunto. E estamos tentando mantê-lo vivo, até que, enfim (e se) ele possa ser ‘libertado’ e possa voar. Mas, no contato com a situação, uma sensação estranha: já pensou nas quantidades de viagens diárias da ‘responsável’ por esse pássaro? Li que eles se alimentam a cada 20 ou 30 minutos. E foi daqui, desse fato, que, em retrospectiva, me mobilizei a escrever isto (portanto, só vai fazer sentido o começo pelo final). O ‘trabalho’ cego, a ‘dedicação’ cega do pássaro-provedor … em nome de, simplesmente, colocar mais um pardal na natureza. Genuinamente, um trabalho. Genuinamente, um investimento no mundo, em sentido puramente instintivo, que seja, mas é. A pura reprodução do non-sense, ou do trabalho de Sísifo, uma roda da vida mantida pelo peso dela mesma, por sua própria inércia. Como humano, vendo a situação neste momento, é um tanto quanto ‘a-linguística’. A vida, por si só, humana ou não-humana, parece ser uma ‘coisa em si’ que se basta e se justifica por ela mesma.

Talvez seja um começo, para mim mesmo, de sair do solipsismo, de investir no mundo. O exemplo, repito, é ínfimo, mas é um indício. Termino com um trecho de um poema de Bertolt Brecht, que me caiu nas mãos hoje tão inesperada e caoticamente quanto o pequeno filhote-pássaro.

Se uma criança surge diante de um carro, puxam-na para uma calçada. Não o homem bom, a quem erguem monumentos, faz isso. Qualquer um retira a criança da frente do carro. Mas aqui muitos estão sob o carro, e muitos passam e nada fazem. Seria porque são tantos os que sofrem? Não se deve mais ajudá-los, por serem tantos? Ajudam-nos menos. Também os bons passam, e continuam sendo tão bons como eram antes de passarem.

[A esperança do mundo, B. Brech]

Futuro

vg1

Campo de trigo com corvos (1890),V. Van Gogh.

Lançamento

Nesta semana, finalmente foi concluída a produção do Dicionário de Psicologia do Trabalho e das Organizações, uma obra em que Jairo e eu estivemos envolvidos desde 2010. Acho que será uma importante contribuição para área da POT em nosso país.

Os interessados podem adquirir, por enquanto, clicando na figura abaixo.

Prefiro ouvir a falar (#46)

Duas músicas (da soundtrack de Boyhood [Family of the Year, Hero] e All is lost [Alex Ebert, Amen], respectivamente) que dizem muito sobre alguns sonhos da América que parecem … decadentes?

O limite

Quando sabemos que chegamos a nosso limite, ao limite daquilo que almejamos nos tornar (supondo que, nada mais nada menos, queiramos nos tornar os melhores ‘do mundo’ no que fazemos?). Em que momento sabemos que é hora de desistir?

Algumas dessas questão são colocadas em Whiplash (ver filme abaixo).

O argumento não é novo, mesmo no caso da arte. A discussão sobre os limites da obsessão por se tornar o melhor atravessa a arte, da literatura ao cinema (no caso da primeira, ocorre-me agora o livro “O náufrago”, de Thomas Bernhard).

Em Whiplash ( literalmente, “chicotada”) um jovem estudante de uma das “melhores escolas de música dos EUA” encontra-se às voltas com um professor linha-dura, do tipo daqueles instrutores impiedosos do exército, que a todo instante o pressiona e o “humilha” (uso entre aspas pois, no mundo politicamente-correto que vivemos, um professor, quando quer extrair o melhor de seus alunos, é chamado assim, como quem humilha os alunos – claro, há exceções, mas não estou falando delas) pelo direito de poder tocar na bateria da banda de jazz da escola.

Embora o filme tenha muitos lapsos, o fato é que ele lida com aspectos simplesmente fundamentais de nossa relação com nossos desejos e com sua possibilidade de realização, para não falar da própria relação ensino-aprendizagem e a busca pelo sublime, pelo perfeito, pelo milimetricamente exato, preciso, sintonizado (o professor em questão, apenas após alguns toques dos instrumentos pelos músicos, já sabia se estavam ou não sintonizados).

Até que ponto somos, enfim, capazes de sustentar nosso desejo? Bom, a pergunta já foi indecentemente explorada por muita gente, psicanálise à frente. No contexto do filme, que não poderia ser melhor (o da música), há, mesmo num gênero conhecido pelo improviso (o jazz), um ‘produto’ tangível decorrente do que os músicos fazem – um produto (a música) que pode ser avaliado, pode ser contrastado com algum critério de valor (no caso do professor-linha-dura, um critério beirando à perfeição). Quer dizer, mesmo que tenhamos “subjetivismos” aqui e ali, fato é que podemos distinguir um “bom” músico de um músico mediano ou simplesmente medíocre.

Nas artes, nossa relação com o belo, com a perfeição, com o ajuste fino, irreparável, entre corpo e mente, entre corpo e instrumento, entre corpo/instrumento e os demais membros/instrumentos (de uma banda, como é o caso do filme), é muito mais facilmente discernível do que em campos menos propícios à geração de ‘produtos tangíveis’.

Não se trata, penso, de sustentar ‘psiquicamente’ nosso desejo, mas, antes de mais nada, de colocá-lo em ação em termos de desempenho. Até que ponto, porém, vai a perseverança, a resiliência, a capacidade de resistir às frustrações e continuar? Basta, como no filme, a pessoa ensaiar, praticar, estudar, até o limite da exaustação e do prejuízo físico (o jovem músico tinha, nos momentos em que ensaiava, sangue nas mãos)? Treinar horas a fio, dias, meses, anos, é ‘garantia’ de que seremos (como queria o jovem personagem, como todo adolescente?) “os melhores do mundo em nossas áreas de especialidade”?

Claro que não basta, aqui, jogar a dívida na conta do talento. O talento depende de disciplina, pelo menos parece assim ser em muitas áreas (mesmo para os gênios). Porém, quantas pessoas, em todo esse mundo, talvez nesse exato momento, estão treinando, obstinadamente, para se tornarem os melhores, se superarem? No caso brasileiro, para dar um exemplo, pense-se no exército de pequenos jogadores, ávidos para superar os times de vársea e chegar a alguma divisão minimamente respeitável do futebol (claro, sempre visando se tornarem grandes ‘craques’, como os ídolos de plantão…). Quantos chegarão no topo? Pouquíssimos, e não se trata apenas de oportunidade (embora, claro, se houver, melhor!), nem tampouco de apenas sorte, nem de treinamento exaustivo. É preciso algum ingrediente a mais.

O filme dá a entender que tal ingrediente pode ser encontrado do lado do próprio indivíduo, de sua obstinação, motivação. Subrepticiamente, a mensagem é: o mundo vai lhe dar muita porrada, vai lhe jogar lama na cara e vai dificultar, muito, sua vida. Só nesse momento, um exército vai morrer na praia. Não vão aguentar a carga, ou, como inclusive ocorre no filme, vão até algum advogado e tentam processar o professor (no caso) pelo “assédio” e pelo método pouco “educativo” do professor (que, de fato, perde o emprego de instrutor por conta disso). Recorrer à justiça, embora devidamente plausível e, em muitos casos, realmente necessário, é, de novo neste filme, sugerido como algo para os “fracos”. Essa mensagem, evidentemente, dá muita dor de cabeça para muita gente. Joga-se a criança e água fora, nesta questão. Humilhou, processo nele! Porém, e se houver algo mais profundo, algo mais visceral, algo mais próximo do “real” (no sentido filosófico ‘realista’) nisso tudo, e se, de fato, como diz o professor quando encontra seu ex-aluno num bar, for essa, precisamente essa, a causa do fracasso que a música vivencia hoje em dia (ele dá o exemplo do jazz, mas, óbvio, a generalização pode ser facilmente feita aqui)? O que separa o exército que morre na praia, que racionaliza (“ah, isso não era para mim, mudei de área…”), se entrega, do pequeno número dos que prosseguem? Volto à pergunta: treino, perseverança, ousadia, acreditar em si mesmo, talento?

Arriscar. Talvez seja isso. Pena que o filme não explora os dilemas do personagem, nem as contradições envolvidas nesse jogo de ser o melhor, de fracassar, de desistir, ou de seguir adiante. Neste ponto, o filme, a meu ver, perde densidade, fica rarefeito. Mas o objetivo desse meu post não é fazer uma crítica profissional do filme (de críticos ‘profissionais’ há muito por aí e você pode facilmente achá-los).

Meu ponto é outro, justamente esse de questionar em que medida nos separamos da mediocridade. A mim, um diagnóstico parece acertado deste filme (embora por razões diferentes das apresentadas): um amolecimento generalizado, a começar nas escolas, desde os “jardins da infância” (ou sei lá o nome dado hoje a essa etapa da alfabetização) até, sobretudo, à universidade, tem distorcido muita coisa. Para começar, muitos de nós não somos mais capazes de nos confrontar conosco mesmos e com nossos próprios ideais. Em algum nível, talvez seja porque temos medo de encontrar algo de que não queremos ter notícia. Dentro de nós! Algo que nos diz que, “…ah, puxa, a vida é assim mesmo, para que sonhar tão alto? Isso é para os adolescentes…eu prefiro o pé-no-chão, o feijão-com-arroz do meu emprego e da minha vida atual…isso é que é ser adulto…”. E vamos nos levando com racionalizações “verdadeiras”. Depois, esse amolecimento, como o próprio nome diz, está nos levando, sobretudo a nossos jovens, à perniciosa ideia de que não é preciso se esforçar para conseguir as coisas. Quando muito, algum esforço calculado, pois, novamente como defesa ou sei lá o que, a gente cria a ideia de que “…ah, como estou trabalhando, como estou estressado…preciso relaxar…”. Não é paradoxal que cada vez mais cresça a tal geração “nem-nem”: nem trabalho, nem estudo? Seria só por falta de oportunidades, de um capitalismo selvagem que engole a todos, sem dó nem piedade, pois só o que importa é o seleto grupo dos melhores? E, nessa mesma direção, vemos novamente a criança ir embora com a água, ao dizer que é o “capitalismo” que implanta na nossa cabeça a ideia de que temos de nos superar e sermos os melhores…sim, o capitalismo (deve ser o capitalismo que faz com que músicos queiram atingir o sublime e a perfeição…sim, o capitalismo). Irrita-me essa lama de bobagens.

(…)

Mas, para não me alongar mais, pois teria de mostrar e fundar minha ‘indignação’, e para não parecer superficial, encerro à francesa: recomendo o filme. Afinal, é bem melhor ver esse clima de “exército” tendo, como pano de fundo, o jazz, do que aqueles filmes com recrutas descerebralizados… Melhor filme do ano para mim!

As coisas, as pessoas

As coisas não nos pertencem. À primeira vista, isso poderia soar juridicamente questionável: eu comprei minha casa, ela é minha; comprei uma bicicleta, e ela é minha. O Estado, a polícia (sua maior força física), todo o ordenamento legal atrela uma propriedade a meu nome, à minha pessoa, desde que eu prove que a adquiri licitamente: por meio de meu dinheiro (que, por sua vez, ou é proveniente de alguma renda, propriedade ou, caso mais comum, do meu trabalho). Trabalho, aliás, já foi associado a propriedade (Locke) – isto é, a posse de uma propriedade é estabelecida com base no trabalho sobre ela (no passado, a terra).

Mas há uma ‘corrente’, vamos dizer assim, que afirma que as coisas, exceto, quando muito, nosso próprio corpo, não nos pertencem “at all”. Em geral, vemos isso em algumas doutrinas religiosas. Para o cristianismo, por exemplo, os bens materais são ‘deste mundo’; não podem ser levados ao ‘outro mundo’. De fato, quando morremos, não ‘levamos’ (interessante esse verbo nesse contexto, não?) absolutamente nada. Por um fato simples: pelo fato de que cessamos de existir no exato momento em que morremos, sendo nossas ‘coisas’ (propriedades) transmitidas a quem nos sucedem pelo laço do nome/sobrenome (e pelo ordenamento jurídico).

Em algumas passagens da obra de Schopenhauer este diz, com outro linguajar evidentemente, que a única coisa que ‘nos’ pertence é nosso próprio corpo. Nisso, há certo acordo jurídico: nosso corpo é nosso ‘bem’ indiscutivelmente inalienável. Claro que, em muitos sentidos, nosso corpo é também um corpo social. Por exemplo, quando alguém é condenado pela justiça, o Estado é legalmente (consentimento) autorizado a tomar nosso corpo e prendê-lo por anos. Em alguns países, o Estado vai mais além, sendo autorizado a matar uma pessoa. Isso mostra, no extremo, que nosso próprio corpo, nossa última e mais mediata forma de relação com o mundo, também não nos pertence.

Esse preâmbulo para dizer de uma experiência pessoal, se é que posso chamar assim. Aconteceu ontem. Há semanas decidi vender meu carro. Eu o comprei em janeiro de 2006. Esteve comigo, portanto, por 9 anos. Em geral, fui indisplicente em relação a ele: fazia manutenções mínimas (nesses últimos anos, pelo menos0. Resultado: acabou se depreciando, tanto econômica como materialmente (dá no mesmo, certo?). Pois achei um comprador. Por certa insegurança congênita, coloquei um preço abaixo do valor médio do mercado (na concessionária, me dariam algo ainda mais irrisório, para não dizer imoral). Achei o comprador. Este se interessou. Aparentemente, se empolgou, se ‘apaixonou’ pelo carro (a mulher dele, na verdade). E começa a negociação. E, à medida que as coisas iam se decidindo, a hora de se separar do carro chegava. Ao chegar, eu simplesmente entrei num estado de espírito que beirava o luto. Como explicar isso? Seria eu um materialista, um ser desprezível pelo fato de ter se apegado afetivamente a um objeto ‘que não me pertence’ (num sentido metafísico ou espiritual exdrúxulo qualquer?).

Mesmo após ter recebido o valor da transação (não sem certo stress, assunto para outro momento: a desgraça que é o tal do ‘jeitinho brasileiro’), eu ainda me sentia ‘dono’ do carro. Ao ver as pessoas ‘levando-o embora de mim’, não consegui (ainda não estou conseguindo!) perceber que ele não me pertencia mais. Ele já não era mais ‘parte de mim’. Contra qualquer bom senso, ou racionalidade, senti-me simbolicamente violentado. Durante as negociações, um profundo mal-estar, um profundo descontentamento… a vontade de fugir. Mas me faltou coragem (ou me sobrou racionalidade, neste ponto) de desistir da venda. Eu sabia que a permanência do carro era já inviável para nós em nosso cotidiano.

Como explicar tal apego a uma ‘coisa’, inclusive uma coisa em relação à qual eu próprio não dispendia tanta atenção? Por que a ‘coisa’ só se torna signo de uma ‘perda’ no momento em que ela ‘vai embora’ (o uso de ‘ela’ já é sintomático, não?)?

Fico pensando em como transformar essa experiência pessoal em algo compartilhável. Afinal, estou escrevendo isso em meu blog, onde todos podem ler. Um blog, e o meu em particular (segundo o que acredito), diferentemente de um Facebook, por exemplo, só tem valor se transcender a mera experiência individual, a picuínha de uma vida banal (e falo isso sem qualquer desprezo ou ironia). Então, como posso vir aqui, escrever sobre essa experiência surreal, e, ainda assim, comunicar algo a partir dela e que não diga mais apenas respeito a mim?

Aí vai minha tentativa…

1) As coisas, ao contrário de certo pensamento marxiano vulgar, não são um ‘fetiche’, necessariamente. As coisas, objetos materiais, são suporte, são um veículo, de processos psíquicos: tanto por projeção quanto, sobretudo, como ‘objetos transicionais’ (Winnicott). Eles estão à nossa disposição para nos ajudar a materializar, digamos assim, algo que de outra forma seriam apenas sombras de nosso eu, projetadas em uma tela tão irreal quanto imaterial;

2) Meu antigo carro concentrou, em si, uma grande quantidade do que hoje eu só tenho como memória: lugares em que passei; conversas que tive em seu interior, enquanto dirigia; uma vida que foi se construindo (eu o comprei exatamente numa transição importante de vida, a qual lançou as bases para meu estágio atual de vida…e no qual estou até agora…hora de mudar?); e, sobretudo, nos bancos de trás dele, enquanto minha esposa dirigia, minha cachorrinha (a primeira ‘minha’) morreu, nos meus braços.

Faz exato um ano que minha cachorrinha morreu. Ela morreu dia 25 de janeiro de 2014, por volta das 13h00, no meu antigo carro, em seu banco de trás, quando íamos correndo, desesperados, para o veterinário. E ontem, dia 24, meu carro, digo, meu antigo carro, deixa a garagem da minha casa, com dois estranhos dentro, que o compraram legalmente (por um valor abaixo do mercado, conforme eu já disse e cujo erro admito), indo embora para sempre, indo servir de objeto transicional a outras pessoas… Ele certamente será últil a outras pessoas, e será, talvez no futuro, se estas pessoas que o compraram não forem insensíveis em relação às ‘coisas’ que os cercam, parte da lembrança delas.

3) As coisas são parte de nossa memória, de nossa vida, de nossa história. Não se trata, avanço logo a me ‘defender’, de um ‘fetiche da mercadoria’, quando esta inverte o jogo e domina o homem, que deveria, sempre, ser sujeito. Não se trata disso, em definitivo (o marxismo, e todo marxista que já conheci, não parecem ligar muito para afetos, são mais racionais e ‘iluministas’ do que possam pensar). No meu caso, meu carro não era só uma questão de ‘status’ (uso das coisas ‘objetivas’ para afirmar uma posição social subjetiva), mas, agora que não o tenho mais, de memórias.

Por que, afinal, servem os museus? Ora, não teríamos nós, ainda que de modo imaginário, nossos próprios museus, com nossos objetos significativos?

Pois, pela primeira vez em uma simples transação comercial (negociação de coisas entre ‘pessoas físicas’ – CPFs), tive a sensação de que tiraram uma parte de mim. Quero dizer, eu mesmo, racionalmente, tirei essa parte de mim. Pois, no jogo das negociações, nas compras-e-vendas, o que impera são pessoas sem alma, seres de quem esperamos apenas o dinheiro pelo que julgamos valer nossos objetos. Com a saída de meu antigo carro da minha zona de vida, algo paradoxalmente parece ter mudado; aquele motivo que estava subjacente à sua compra agora perdeu-se ou precisa ser atualizado. Indo mais longe: a venda de meu carro me mostrou, por incrível que pareça, a passagem indelével do tempo, e todas as perdas que seu transcurso traz.

Admiro esses homens que vivem suas vidas de um modo tão prático e industrioso que não precisam, nem de longe, passar por isso que narro aqui – e que, se lessem isso que escrevo, sequer entenderiam. De duas, uma: ou são tão ‘coisas’ como as coisas que transacionam, ou são seres práticos/pragmáticos que, como milhares de nossos ancentrais, nos trouxeram nessa situação de merda que vivemos hoje. De todo modo, me sinto um estranho completo, mas não tímido o suficiente para deixar de registrar isso aqui.

***

casa e Ila 154Gabi(zinha)
09 de novembro de 2000 (Piracicaba/SP)
25 de janeiro de 2014 (Natal/RN)

 

O galo

Na véspera de natal notei uma diferença ao acordar. Havia, em algum lugar no bairro, um novo visitante, por sinal bastante ruidoso: um galo.

Não há como não ter estabelecido conexões remotas. Praticamente em toda minha infância eu acordava com o som de um galo cantando. O som tornou-se habitual.

Depois de desperto, fui tentar descobrir de onde, afinal, provinha o som e estava o ilustre ‘cantor’. Foi então que descobri que a ave estava na casa em frente ao prédio onde moro.

Achei estranho, pois o galo estava simplesmente solto no quintal da casa, e, ao contrário dos galos que conheci na infância, esse, apesar de caracteristicamente belo (robusto, preto e com cristas vermelhas), estava visivelmente confuso. Então, além de ‘cantar’ com o surgir da alvorada, ele fica fazendo a mesma coisa o dia todo. Acho que ele estava, imaginariamente, conclamando seu pelotão de galinhas, mas não havia sinal de nenhuma… Era um galo sem galinhas, um galo sem galinheiro, um galo deslocado e perdido.

Confesso que, de quarta (24) até hoje (26), o galo me irritou um pouco, pois ele realmente ‘cantava’ muito. Isso só aumentou minha curiosidade: afinal, que raios fazia um galo em plena zona urbana?

A princípio, deduzi tratar-se de algum novo ‘bicho de estimação’. Exótico, é fato, e bastante improvável, mas minha ingenuidade (ou esperança) me iludiu dessa forma. Depois, algo de mais sinistro (e provável) me ocorreu: esse galo ali estava para, em algum momento entre natal e ano novo, ser morto e comido.

Tentei apagar a última hipótese. De repente, o galo some. Pensei: mataram e comeram o bicho! Mas, horas depois, eis que ele reaparece, e hoje pela manhã eu novamente acordei com seu canto ao mesmo tempo imponente (como lhe é característico), mas confuso, dúbio…e, em alguma medida (pude senti-lo ou meramente imaginá-lo), amedrontado. O canto de quem, como eu, não estava entendendo nada do que se passava.

Sai à tarde. Imediatamente quando chego ao prédio e o portão se abre, escuto o galo – mas, desta vez, claramente ele estava tentando fugir. Imaginei que seus anfitriões pudessem estar tentando capturá-lo para levá-lo para fundo do quintal para que ele pudesse ‘dormir’ (segunda ingenuidade minha). Ao subir o elevador e chegar ao apartamento, escuto um ruído diferente do galo. Algo como um ruído desesperançoso, última súplica a uma dúvida cuja resposta ele nunca terá. A dúvida do porquê. Na verdade, acho que a própria dúvida sobre “o que”.

[…]

Na mitologia, o galo representa a ressurreição solar. Ele anuncia o nascimento do sol, o fim da escuridão, o raiar da alvorada, a entrada de um novo dia depois de um período de trevas.

Na tradição cristã, representa a nova luz, a missa da meia-noite, aquela na qual se anuncia o nascimento de Cristo. A missa do galo…

Em alguns países (Japão, França, Portugal), o galo é símbolo em importantes rituais nacionais. Em Portugal, por exemplo, era costume levar um galo à missa: se ele cantasse, era sinal de que a colheita seria boa.

O galo simboliza, portanto, a ave da alvorada, a ave do anúncio da recuperação da vida sobre a terra, representada pela luz. É a ave da vigília – não como a coruja de Minerva, símbolo da filosofia, que enxerga à noite e está sempre atenta, mas da vigília do despertar, a vigília da reverência à manifestação do sol. Representa Apolo, deus do sol.

[…]

Muitos povos, Brasil incluso, desenvolveram, ao longo de sua existência na Terra, o estranho (mas ritualístico hábito) de devorar presas para delas extrair sua potência. Canibalismo tribal.

A cultura brasileira, rica em sincretismos variados, consegue unir tudo em tudo: se se come um galo, nas vésperas ou após o natal (ou antes do ano novo), isso prenunciará um futuro “cheio de luz, paz e sabedoria”. Então, várias pessoas se reunem, matam um galo, o devoram cozido de uma panela… e, pronto, basta esperar a boa-aventurança.

A cultura brasileira, ao mesmo tempo em que reconhece, em algum nível, a simbologia, a mitologia, a imaterialidade contida em um signo (neste caso, uma ave), também passa ao ato, transcende o nível delicado do símbolo e mergulha na concretude mais visceral, carnal. Nesse sentido, é ignorante em um nível essencial, um nível que pressupõe a transposição de um nível corpóreo (significante) para um nível incorpóreo (significado / o lekta dos estóicos), mediada pelo corpo (pelo comer e pela integração a si).

De outro lado, e aqui reside a essência de minha argumentação, não seria no mínimo algo muito hipócrita sacrificar uma vida para celebrar o ‘futuro brilhante’ de outra vida, individual e mesquinha? Na Bíblia, Abraão sacrifica seu próprio filho a Deus. No Novo Testamento, Jesus (cordeiro) é imolado em nome de Deus (seu pai). O sacrifício. Mas, neste caso (do galo), estamos diante da mesma magnitude espiritual?
Eu sei, eu sei – todos nós, em festas como as de natal, mergulhamos em uma profunda (eu me incluo) ignorância, um manto de esquecimento e indiferença magnânimos: desde a velha estória de festejar em família, mas pouco se lixando para a família ao lado, até festejar “a vida”, o “renascimento”, às custas da morte. E, repito, em condições que nada têm a ver com “sacrifício” em nome de uma “causa superior” que não seja o entupimento ganancioso de bocas fanfarronas e, depois da algazarra festiva “pela vida, paz e pela harmonia”, das latas de lixo.

Em algum lugar alguém deve ter dito o quão hipócrita é uma cultura, e que tal hipocrisia, de alguma maneira, constitui parte expressiva dessa mesma definição de cultura. A cultura é nossa morada, nosso mergulho no coletivo, mas também, ou sobretudo, na barbárie (ainda que hoje ela pareça branda e ‘civilizada’).

Obs.: a sorte, para os humanos, é que a cultura é também o registro de sua vitória (aparente) sobre a natureza. Meus vizinhos, no seu fulgaz momento de canibalismo coletivo, devem, inconscientemente, ter se sentido poderosos. Sorte deles (sorte nossa?) de que a ‘presa’ não era um animal feroz, muito mais forte e menos acuado que um galo. É nessas horas que vemos como o ser humano é patético (como indivíduo) e privilegiado (como espécie).

Autoconhecimento e sincronia

Estava pensando que o tal do ‘auto-conhecimento’ provém da experiência pessoal do manejo consigo próprio, nas mais variadas situações.

Por exemplo, em algum ponto do percurso da vida, você descobre uma espécie de ‘zona de segurança’ psicológica que diz, única e exclusivamente, respeito a você próprio.

Em tal zona, você consegue monitorar e sentir, tudo ao nível intuitivo, que não deve se meter em algumas situações afetivamente custosas.

Seria isso o que certa vez Freud identificou como um dos fundamentos do funcionamento psíquico, a tendência a manter o nível mais baixo possível de dispêndio de energia psíquica?

É verdade que ele falava de inconsciente. E de que, muitas vezes, falamos de um mero cálculo de custos e benefícios. Mas pense assim: se você sofre quando perde um cachorro de estimação, então por que, para começo de conversa, ter um cachorro?

Evitar a experiência, antecipando o que ela vai lhe consumir de energia, é, naturalmente, uma solução meia-boca, pois, afinal, no exemplo do cachorro, a despeito de um dia ele morrer, isso não apaga anos de agradável e intensa experiência afetiva com ele.

O cachorro é só um exemplo. Posso dar outros. Se você lida mal com o conflito interpessoal, então, evite situações em que você vai se expor – mesmo quando se é forçado a isso, em alguma medida, pelo fato de você ocupar algum papel que implique em confronto.

Mas o que isso significa? Significa, em alguma medida, fingir-se de morto? Ou desenvolver uma persona ‘paz-e-amor’, tornar-se alguém incapaz de envolver-se em um embate, em defender uma ideia polêmica? Fingir na frente da pessoa, falar pelas costas?

Também significa outra coisa. Significa que você se conhece minimamente e sabe como ‘modelizar’ suas características de modo a não se violentar em demasia no contexto. Se o preço disso é, no exemplo acima, ser percebido como mais passivo, que seja.

Nietzsche disse em algum lugar (talvez em Humano, demasiado humano) que certas poças de água, destas que ficam à beira da estrada, no alto de uma serra ou algum lugar assim, quando são atingidas por algum objeto (por menor que seja), levam algum tempo até ‘voltar ao normal’ – até acalmar as pequenas ondas d’água impulsionadas pelo objeto lançado. Quando essas ondas se dissipam, pronto!, a poça esta novamente no seu centro habitual.

Quando estamos no mundo, quando agimos nesse mundo (somos afetados e afetamos), por vezes demora um tempo até retornarmos ao nosso estado de equilíbrio habitual. Então, prosseguia Nietzsche, por que se meter em situações em que, corriqueiramente, seu equilíbrio é alterado? Ao preço do que? De uma frenética e por vezes irracional ‘pressão social’ para ser diferente, para mudar, como se o desenvolvimento psicológico, espiritual, social, humano, enfim, qualquer desenvolvimento, só viesse junto com alguma mudança? Ora, vivemos sob o jugo pesado do ‘fetiche da mudança’. Há uma associação quase natural e inquestionável entre mudança e alguma coisa positiva.

A metáfora de Nietzsche, penso, é algo na direção de dizer que o sujeito é quem ele deve ser, ou deve se tornar quem ele realmente deve se tornar (Ecce Homo). Alguém aí poderia dizer que isso é muito romântico, algo que cheira a idealismo alemão. Pode até ser. Estou realmente simplificando. Mas há também a possibilidade de essa intuição conter alguma verdade ética, no sentido de assumir que cada sujeito, cada ser, por mais intrinsecamente ‘social’ que ele seja (embora o ‘social’, na filosofia de Nietzsche, possa ter forte vinculação com a moral, com o ‘espírito de bando’ ou de boiada…), possui um centro de gravidade construído a duras penas, muitas vezes às expensas desse mesmo sujeito – lançando suas raízes no mundo insconsciente, na biografia de cada pessoa, etc. Por alguma razão que no momento desconheço, vivemos numa época histórica de crítica devastadora ao ‘eu’, por mais que muita gente denuncie o ‘ressentimento’ de nossa época, o fato de vivermos no auge do ‘narcisismo’ e do culto ao eu. Mas acho que é muito diferente falar em narcisismo e na possibilidade, fenomenológica e existencial, de ‘possuir um eu’, isto é, uma experiência interior. Na cultura da boiada, que, a meu ver, é, de fato, a cultura em que vivemos, ter um eu é sinônimo de fazer um selfie. Criticos arrogantes confundem essas duas coisas, e nos deixam numa situação de niilismo paralisante!

Hoje eu penso que não há, a princípio, um problema em você não conseguir certas coisas que apenas podem ser conseguidas na arena social. Primeiro, pois ninguém tem qualquer fórmula do sucesso (ah, seja assim ou assado que você vai, com certeza, dominar a gramática social, o gênero discursivo de determinado coletivo, etc., e, consequentemente, vai ser bem-sucedido afetiva e socialmente). Depois, porque ‘vencer’, em graus variados, consiste basicamente em aderir a um espírito de boiada, a identidades pret-à-porter, jeitos e formas de ser prescritas e instituídas. O sucesso é, no seu valor de face mais aparente, nada mais nada menos do que o ajuste fino e isomórfico às expectativas do Outro. Não estou, com isso, defendendo a primazia de alguma coisa vaga e incerta quanto um ‘sucesso subjetivo’, interior (do tipo ‘o que importa é a beleza interior’). Estou apenas dizendo que, se o preço de não ‘vencer’ na arena social é seu equilíbrio, então, bem, talvez se justifique o sacrifício.

Muitas vezes, a morte do ‘eu social’ é o único caminho para o reencontro com aquela ‘zona de segurança’ de que falei na abertura deste post. Quantos de nós queremos, ou mesmo podemos, perpretar essa ‘morte’…essa já é outra estória. O fato é que existe um nível de ‘qualidade de vida’ que só é experienciado nesse nível mais íntimo do eu consigo mesmo. E se você, por alguma razão, prefere, vamos dizer, perder a alma do que perder o brilho e o holofote, então, meu caro, boa sorte, pois sua vida será, em vida mesmo, um inferno!


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