Vem aí…

E a família vai ficar maior. Um grande passo para nós, que acabamos de perder uma de nossas cachorras. O grande passo é porque haverá uma importante mudança de “conceito”, digamos assim…Alguém saberia de que estou falando? Olhando as fotos abaixo? A segunda foto, inclusive, é famosa (Eli and David, por Lucien Freud).

Aumentando a diversificação pelas raças, cores, comportamentos…são uma beleza! A nossa está a caminho…

Fonte (1); Fonte (2)

Improdutivismo acadêmico

Faz tempo que tenho evitado entrar na discussão sobre o produtivismo exacerbado que vivemos hoje na ciência brasileira (mundial, claro), mais particularmente nas ciências humanas, e na psicologia – onde me insiro.

A tese, por mais que haja variações, é de que nos preocupamos muito mais com a quantidade de artigos em nosso currículo do que com a qualidade, o conteúdo. A resposta do “sistema” não demorou a aparecer, e temos hoje uma “métrica” que avalia também (quantitativamente, diga-se de passagem) a “qualidade”.

Mas os argumentos vão ainda mais longe. Graças ao produtivismo, diz-se, estamos sacrificando o ensino, a extensão. Estamos “fatiando” pesquisas que ganhariam em complexidade se articuladas na sua totalidade, e tudo para produzir mais, tirar mais “leite de pedra”, como se diz popularmente. Estamos (professores-pesquisadores) adoecendo. Estamos criando um circuito psicossocial tóxico: concorrência por recursos, por bolsas, por status/prestígio, o que muitas vezes culmina até mesmo em atitudes ilícitas, como plágio, auto-plágio e assim por diante…O produtivismo leva ainda culpa por matar a inovação – se, por exemplo, cruzarmos número de artigos publicados e patentes registradas, a distância é lunar, para não dizer do amontoado de lixo virtual que vamos produzindo agora que não se precisa mais derrubar árvores para fazer o papel em que se materializaria o famigerado “paper”…

No fundo, me pergunto: a quem interessa o tal produtivismo? Mas ocorreu-me que um modo talvez mais criativo de pensar seja perguntando o inverso: a quem interessa o improdutivismo, se é que, de fato, uma coisa é o inverso da outra?

1. Não nego que talvez os que critiquem com tanta veemência o atual sistema de produção acadêmica sejam seres com uma visão profunda das coisas, do conhecimento, alguém que enxerga para além da burocracia weberiana do mundo acadêmico – não seria, aliás, por isso que se alastrou certa tendência a usar ganhadores de Prêmio Nobel para criticar o sistema de produção acadêmica atual? (Ora, se eles, que são tão iluminados, dizem que não seriam “nada” pelas métricas vigentes, então algo deve realmente estar errado com o produtivismo…);

2. Mas também não podemos deixar de conjecturar que o sujeito “improdutivo”, e que critica o “produtivo” (nessa dicotomia aqui usada apenas para efeito didático), talvez tenha uma concepção mais rasa do conhecimento do que pensamos. Fico me questionando: em qual momento da história não havia algum tipo de pressão para que as pessoas provassem a que vieram no trabalho? Lembro-me aqui da tese de A classe ociosa, de Thorstein Veblen. Acadêmicos alegam que precisam de tempo e condições para pensar. Concordo. Mas, assim como o produtivismo debanda para o insano, esse tipo de visão sobre o “improdutivismo” também não poderia nos levar a uma situação inversa, em que produzimos apenas e quando isso nos bate nas ventas, se é que isso acontece? Pois pode haver um professor improdutivo, que não prepara aulas, que repete as mesmas coisas sempre, que simplesmente vai na universidade (se ela for pública) para “dar carga horária mínima” e pegar o resto do tempo para cultivar bonsais em casa ou então ler seus livros, suas poesias ou o que quer que deseje. Pode haver extremos dos dois lados, não?

>> Adendo 1: certas pessoas acham que a “boa produção” é aquele livro escrito após 20 anos debruçado sobre os papéis, e que, quando lançado, revoluciona o mundo. Não há como negar certo viés “aristrocrático” na crítica ao produtivismo, pois qualquer um, desde que tenha as condições mínimas, pode publicar um artigo;

>> Adendo 2: Muitos dos que criticam o produtivismo não revelam, mas eles falam de algum lugar. Por exemplo, alguns falam do lugar de quem olha para isso tudo e diz, de sua “superioridade”: bando de imbecis. Em geral, usam como argumento, explícito ou (na maioria das vezes, implícito), que os clássicos viam muito além do pontinho que representa um artigo, como se este artigo não fosse mais do que poeira cósmica. É a crítica feita da posiçao da arrogância.

3. Acho que existe uma moral no improdutivismo (um tipo de ethos). Num sentido, o improdutivismo, como na antiga ideia de O direito à preguiça, de Paul Lafargue, nos lembra que o trabalho não é tudo. Que o trabalho não é uma atividade que se restrinja ou se plasme, pura e simplesmente, à métrica da produção (quantas peças, quantos botões produzidos, quantos carros vendidos, quantos artigos aceitos para publicação, etc.). Ou então que o trabalho pode ser muito mais do que, neste exemplo, o produto “artigo”. Seja como for, não há trabalho sem um produto, sem algo gerado, uma obra, um serviço, qualquer coisa. O ciclo do trabalho não se fecha se inexistir alguma “produtividade” (no sentido amplo de um sujeito que aje sobre o mundo e o transforma);

>>Adendo 3: Isso significa que, muitas vezes, a crítica ao produtivismo confunde coisas absolutamente diferentes: a produção do conhecimento com sua forma de divulgação. Acho lamentável que muitos transmitam a ideia de que precisamos “produzir artigos” (publish or perish) como se isso fosse a forma par excellence de produzir conhecimento (ou que o fato de “está publicado = conhecimento”). Porém, divulgar críticas ao produtivismo, do jeito que muitas são feitas hoje, leva nossos alunos a desenvolver um trauma sobre a vida acadêmica, a ver com desgosto e antipatia a arte de produzir um artigo – um artigo pode ser bom, pode ser ótimo, pode ser muito inovador, e pode, sim, produzir conhecimento…

Para não me alongar mais (isto é um post, não um ensaio!), quero dizer o que penso sobre tudo isso:

1) Se o produtivismo está nos levando à imbecilização, o improdutivismo implício nas críticas geralmente feitas deveria ser, a meu ver, explicitado, numa relação de gente adulta: de que tipo deveria, então, ser a vida acadêmica? Deveríamos ser mais improdutivos (no sentido já aludido, de ócio, de direito à preguiça, de direito a fazer as coisas do nosso jeito, no nosso tempo)? O que entendemos por “improdutivo”?

2) A improdutividade significa, para além de tudo o que eu disse acima, variabilidade. Tanto é assim que podemos facilmente dizer quem é produtivo (pela métrica), mas definir alguém “improdutivo” é mais difuso, por mais que você pense que não, que seja fácil. Pois uma pessoa pode ser improdutiva para uma coisa, mas muito produtiva para outra;

3) Repetindo: produzir muito, academicamente, não é privilégio de nossa época. Pegue grandes tratados de filosofia, por exemplo, e você não vai encontrar ali poucas páginas. O leitor pode argumentar que, digamos, 3 mil páginas escritas por Espinoza são muito mais duráveis historicamente do que 100 artigos Qualis A1. Aí temos um critério de valor. Mas não há como negar que o trabalho acadêmico gera sofrimento, gera angústia, gera dilemas sobre a relação com o saber, e não há saber sem que este seja passado, materializado, objetivado num “produto” (pode ser um artigo, um livro, um aluno formado, etc. etc.);

4) A questão-chave para mim é a seguinte: se há a “liberdade individual”, se uma pessoa não pode ser impedida de NÃO publicar, se há, como diria Adam Smith, uma mão cega a guiar nosso egoísmo (ação moral), o ponto é: quais as consequências para o coletivo de uma série (homogênea/convergente) de ações individuais (no caso, tudo mundo correndo e se atropelando para publicar nos mesmos lugares, das mesmas formas, com os mesmos objetivos)? Quais “distorções” geram os comportamentos individuais não limitados (pois, de fato, não estamos numa ditadura)? E o inverso: que consequências surgem se deixarmos as pessoas em sua própria dinâmica, no seu próprio ritmo, na sua própria concepção sobre o que seja o mundo acadêmico e aquilo que ela deve dar em troca? No fundo, a velha luta entre o prescrito e o real…

Prefiro ouvir a falar (#39)

Nem vou mais falar que estou saindo do estilo de música do blog…

Prefiro ouvir a falar (#38)

Mais uma vez, saindo do estilo de minhas indicações (majoritariamente, dos anos 80s). Mas vale a pena a interpretação. De onde tirei? Cena final de Defiance (s1e5).

Prefiro ouvir a falar (#36)

Desta vez, mudando um pouco o estilo das músicas que posto aqui. A inspiração vem da cena final de Leftovers (s1e1).

Dia 23

Gosto de muitas coisas no mês de junho, em especial no Nordeste brasileiro, onde vivo no momento. A começar pelo fato de que é nesse mês, precisamente dia 23, hoje, que faço aniversário. Fazer aniversário é sempre algo magnífico. Já ao acordar você se sente agraciado. Dia desses uma aluna, em uma aula sobre a visão do cristianismo/protestantismo sobre o trabalho (primeiro, Santo Agostinho, depois, na Refoma, com Lutero e Calvino), lembrou-nos sobre a “teoria” da Graça. Para começo de conversa, não merecemos nada; Deus nos dá numa espécie de “voto de confiança”. Gosto dessa idéia. Gosto profundamente da ideia de que somos absolutamente nada, como seres humanos, apenas salvos pela Graça e recuperados pela Fé. Não sou mais religioso (já fui seminarista); mas isso ainda me afeta. Então, no dia de nosso aniversário, somos confrontados com esse fato metafísico: somos uma nulidade viva, podendo, no momento ao menos, desfrutar (não há palavra melhor!) a vida em sua simples ocorrência (não precisa de nada: festa, bebida, simbólico: é um fato que se impõe no silêncio mais absoluto: a vida).

Depois, há algo que gosto tanto quanto: vésperas do feriado (no Nordeste) de S. João. As maravilhosas festas juninas e, mais especialmente ainda, as fogueiras de S. João. Se você já esteve aqui no Nordeste nesse período, vai perceber. O cheiro de pinho queimado é simplesmente… indescritível. Não sei explicar ao certo de onde vem essa minha fascinação. E o cenário hoje é impecável, de meu ponto de vista: chuva e um cheiro de fumaça no ar – fraco, infelizmente, mas perceptível. O suficiente para me deixar extasiado. O cheiro me lembra algo de colonial, de rural, de campestre. Talvez tenha a ver com minha infância (sempre!), pois nasci e fui criado, até os 11 anos, no campo. O cheiro de madeira queimada, sob a noite disforme da cidade, me lembra de onde eu vim, de minha origem, por assim dizer. O campo é, para mim, sinônimo de retorno, de religação com algo absolutamente superior a mim. O campo é o retorno à natureza, o retorno ao barro de que sou feito. Para mim, o feriado de S. João é a coisa mais sublime, aquele momento esperado do ano. Mesmo que eu não vá (e não vou) às festas típicas aqui da região (bem diferentes das festas juninas do interior de SP, em geral, nas paróquias….que saudades!), eu vivo plenamente o “espírito da coisa”.

O cheiro das fogueiras entrando casa a dentro… sinto-me como se tivesse voltado a ser criança, quando o mundo era, paradoxalmente, pantanosamente complicado, opaco, um tijolo caindo na minha cabeça, mas repleto de possibilidades. Aliás, acho que só percebemos as possibilidades quando avançamos na vida, quando já optamos por muitas coisas, deixando, consequentemente, muitas outras para trás. O cheiro das fogueiras me lembra de certo ponto de centramento que perdi em alguma curva monótona da vida.

A madeira, a chuva, o fogo, a destruição ardente. O fogo é fantástico: ele transforma, ele engole, ele é uma força entrópica que nasce e morre em si mesma. Do fogo, de sua provação, nasce algum tipo de “virtude”. A destruição pelo fogo é, exceto nos casos lamentáveis de trajédias, sublime: o fogo nos mostra (junto a muitas outras ‘oportunidades’) que tudo é volátil, destrutível, provisório, leve, supérfluo. Por que o fogo é prova de virtude? Por que quem passa por ele alcança algum tipo de graça? Por que fênix ressuscita das cinzas? Renasce do fogo? O fogo é um portal, um meio de a energia sair de um estado para outro. O fogo é movimento. Transformação.

A verdade é que, dia 23, meu aniversário, às vésperas do dia de S. João, com as fogueiras a queimar, a chuva a cair, a sensação é de … felicidade.

Prefiro ouvir a falar (#35)

O que há a ser (ainda) dito?

Às vezes, quando estou um pouco chateado, considero que temos pouco a acrescentar ao falatório geral. Se pensar, ‘tudo’ o que somos, enquanto seres linguísticos, já foi antecipado em ‘discursos’ (falas organizadas) que nos precedem. Trata-se do campo do ‘dito’.

Em relação ao dito, podemos ter pelo menos dois caminhos igualmente viáveis. Num deles, o de reproduzir. É o papel do ventríloco. Talvez nenhuma reprodução seja fidedigna, no sentido em que um tocador de CD reproduz este último (‘n’ vezes igualmente). Mas há ótimos reprodutores entre os humanos…copiadores (não tão criativos quanto um Vermeer, mas há…).

O outro caminho é trabalhar sobre o dito, e então produzir alguma ‘fala’ – num sentido mais propositivo, ativo, em vez de ser no particípio passado (‘dito’). Criatividade, singularidade, ou individualidade, inovação: sinônimos para esse fenômeno de criar o novo a partir do velho.

Na linguagem dos negócios, inovar é propor um novo produto ou serviço (ou procedimento, etc.) que se diferencie, dialeticamente, em relação ao que já existe. Pode ser uma ruptura, mas, decerto, rupturas nunca são radicais. Um poderoso computador de hoje não ‘rompeu’ radicalmente com princípios básicos de lógica (pelo que conheço!).

Talvez a mimêses aristotélica, de que já tratei uma vez por aqui, tenha um valor importante de reprodução: nós aprendemos algo quando imitamos alguém (veja a importância dos modelos em psicologia).

Mas chega um momento em que queremos sair da pura mimêses: é aí que podemos desejar sair do ‘dito’ para o ‘dizer’. Mas dizer o que? Algo que sentimos que precisa ser dito de outro jeito (redescrição pragmática)? Algo que nosso desejo nos impele a dizer (o prazer de dizer, o prazer de conexões de novos pensamentos, etc.)? As ‘lacunas’ do ‘dito’ (mote em ciência: justificar um trabalho com base nas lacunas existentes na literatura…)?

Não penso no nível profissional – o dizer profissional, digamos assim. Penso no sentido existencial. Dizer enquanto uma expressão de si.

Numa cultura individualizante como a moderna (a nossa!), o dizer está intrinsecamente associado ao self, ao eu. Fomos levados à ilusão de que, ao dizer, dizemos algo de idiossincrásico, revelamos nosso eu. Mas não conseguimos enxergar que nosso ‘eu’ é, antes de mais nada, uma produção coletiva. Um ‘eu social’, na melhor das hipóteses, iludido pelo invólucro do corpo (de fato, cada um tem um corpo diferente do outro!).

Sociólogos não cansam em relativizar nossa iniciativa e autonomia/autenticidade. Nosso discurso, o que dizemos, é produto de nossa classe social, de nosso nível social, do dialeto do grupo a que pertencemos, dos acessos a bens culturais que temos, e assim por diante. Uma visão de cima para baixo.

A psicologia, ao contrário, nos insinua que temos de encontrar nossa “voz interior”, temos de dar expressão a uma singularidade que é nossa, que nasce de nosso sofrimento de estar no mundo (e o sofrimento é profundamente singular), dos arranjos que fazemos com o princípio da realidade (x o princípio do prazer).

E então?

Uns se contentam em reproduzir, sem saber que o fazem. Outros, em fingir que são ‘autênticos’, ‘diferentes’. No meio disso tudo, algo inegável: temos de nos fazer com o discurso, com o repertório, a herança linguística que recebemos da história (História?).

Parênteses. Freud uma vez escreveu, a propósito não me lembro de quê exatamente (não importa!), que o indivíduo é uma espécie de ‘nada’, uma instância provisória aprisionada na jaula da espécie. Quando goza, é um prazer ínfimo concedido pela Natureza para que se sinta estimulado a procriar. Em termos da espécie, o indivíduo (=no sentido biológico), é paradoxalmente necessário e irrisório, dispensável.

Em relação à linguagem, talvez algo similar se processe. A Linguagem (com L), existe independentemente de nós como indivíduos (embora não como espécie, onde ela se circunscreve e faz … sentido). Porém, paradoxalmente, ela, a Linguagem, precisa de nós, como indivíduos, para a reproduzirmos e produzirmos. E, para nós, é como se não houvesse fuga: não há outro jeito senão falar ser falado (estar no contexto do ‘dito’). Afinal, o que seria de um indivíduo que optasse por “não falar”?

Não falar equivaleria a ser ‘dominado’ pelo outro (alguém fala, você só escuta, não reage). Se não falo, devo, ao menos, “ler”. Em alguma medida, ler é uma atividade passiva. Ler o mundo da passividade do lar, digamos nesta metáfora, é negar o mundo, negar a fala. Optar pelo silêncio.

Ou o silêncio seria uma forma de resistência?

Para encerrar. Nossa relação existencial com a linguagem é paradoxal e ambigua: ela nos ultrapassa, nos ‘anonimiza’ (nos torna anônimos, indiferentes, insignificantes), mas, ao mesmo tempo, é por meio dela, no jogo de suas forças, que encontramos algo que poderia se aproximar de uma ‘singularidade’ (na coletividade). Calar-se, como defesa, implica talvez num medo do sujeito em relação à perda de si na linguagem (‘tudo já foi dito’ pelo Outro). A perda nas conexões infinitas da linguagem.

O sujeito, diante da existência (simbólica – pois o ‘real’ do corpo é uma ‘coisa em si’), só existe se ele aceitar tecer, sustentar, iludir-se, etc., em conexões finitas, em possibilidades limitadas, e, como tais, insignificantes, mas, paradoxalmente, necessárias: para ele, indivíduo, como também para a ‘espécie’ (humana).


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