Perguntas e Cia, 1

Você descobre melhor o seu desejo quando fracassa ou quando tem sucesso? Quando persiste ou desiste?

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É possível sentir-se motivado, energizado, sem um propósito? É possível construir sentido sem um objetivo?

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O que é uma pessoa corrupta? Alguém envolvido na política ou na administração pública? Ou seria uma pessoa que, conforme suas circunstâncias mudam, também altera suas ideias, valores e comportamentos de forma correspondente?

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Como espera que os especialistas em economia da mídia digam algo diferente do que sua própria subjetividade os faz enxergar no mundo? Essa eu respondo: em um mundo onde a financeirização dominou todos os espaços, o que temos são subjetividades maquínicas, agindo como máquinas, no sentido de uma máquina animada por um código. Será que estou indo longe demais ao afirmar que essas subjetividades nem sequer são reais, mas, sim, a manifestação do “capital” como força propulsora, como “ânima” (código) do mundo ocidental? 

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O caminho para a justiça social, e até mesmo para a afirmação individual, seria o da paz ou da guerra? Da não-violência, mesmo diante das maiores barbáries, ou da violência? O caminho está mais próximo de um Martin Luther King ou de um Malcolm X?

Sobre desistir – parte 2

O problema surge quando nos deparamos com um “ponto de não-retorno”, aquele momento em que permanecemos por tanto tempo no caminho de uma escolha passada, baseada em um desejo que talvez também pertença ao passado. Quanto mais avançamos nessa trajetória, mais, em teoria, sentimos que há algo a perder caso optemos por desistir. Por vezes, toda uma vida é construída sobre essa escolha, consolidada até o ponto em que algo essencial dentro de nós se extingue – algo que antes dava sustentação orgânica à nossa existência. Nesse momento, resta apenas a forma, o invólucro de um desejo que já não nos serve, como um casulo abandonado.

É como caminhar por uma estreita ponte de madeira e, de repente, perceber que os degraus terminaram. Sem suporte, começamos a cair, e a sensação é de um precipício infinito, onde só existe a queda. Frente a esse vazio, uma estratégia possível – e paradoxal – é não fazer nada: apenas continuar. O lado positivo de uma trajetória construída é sua própria inércia. É como desligar o motor de um carro no alto de uma colina; a energia potencial acumulada é suficiente para fazê-lo deslizar por bons quilômetros, mesmo sem engatar a marcha. Então, você simplesmente deixa o carro seguir.

É evidente que essa “estratégia” de enfrentamento não é das mais saudáveis. Em algum momento, ela transforma a pessoa por dentro, silenciosa e gradualmente. Imagine esta cena: você é um recipiente vazio. Alguém, ou algo, começa a despejar concreto dentro de você. O processo é lento, iniciando pelos pés. Demora muito, mas, com o tempo, o concreto alcança o coração. E continua a subir. Devagar. Sem que você perceba totalmente, embora consiga sentir de alguma forma, acaba completamente tomado – transformado em pedra. Firme, sólida, absolutamente “certa” de si mesma. Terrivelmente persistente.

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Snow Storm: Steam-Boat off a Harbour’s Mouth, 1842, J. M. W. Turner

Persistir na adversidade. Eis uma verdade cultural quase universal. Se você adiciona a isso uma conotação religiosa, então chega à conclusão de que persistir na adversidade não é algo fortuito, mas, sim, uma provação divina, como ocorre com o personagem bíblico Jó. Deus nos sustenta enquanto atravessamos uma intempérie. Quando era seminarista, lembro-me de ter um santinho no qual uma trilha na areia começava com duas pegadas e terminava com quatro. Nos momentos difíceis, sem perceber, Jesus caminhava ao seu lado. Ou algo assim. Na essência, a ideia era de que não estamos sozinhos ou abandonados quando acreditamos que tudo está perdido.

Tenho plena consciência da força que uma crença como essa imprime em uma alma atribulada. Em versões seculares, a mesma moral é repetida incessantemente, como nos filmes de Hollywood. Acredito que a cultura americana seja o melhor exemplo de uma versão secularizada da história de Jó. Por lá, a subjetividade é tão pressionada a persistir, tão enclausurada em uma ideia espartana de força e coragem — de jamais jogar a toalha — que a única válvula de escape para racionalizar a desistência é a linguagem da patologia mental. Fulano não conseguiu “vencer na vida” (leia-se: persistir, resistir) porque sofria de depressão, crises de ansiedade, problemas de atenção, e assim por diante. Como toda cultura, a americana — e, por extensão, sua projeção no imaginário global via filmes hollywoodianos — é um espartilho tão apertado que se confunde com a própria carne.

Ao homem, como gênero, é legado o triste destino de uma virilidade constantemente posta à prova. Ao menor sinal de intenção de desistir de algo, a acusação logo vem em forma de questionamento do caráter masculino. Às mulheres, como gênero, é atribuída a preferência pelo “macho alfa”, uma aberração de indivíduo completamente doutrinado na cartilha da persistência, do “enduring”, das criativas e infindáveis estratégias de “coping” para continuar na luta, como um gladiador. Não há lugar para homens considerados fracos em uma cultura de pedra como essa — de resto, algo que também se observa em muitas outras culturas ocidentais, especialmente naquelas com uma história marcadamente ascético-religiosa.

Sobre desistir – parte 1

Na nossa cultura, desistir raramente é visto de forma positiva. A persistência é amplamente valorizada e exaltada como virtude. Quando alguém desiste de algo, as explicações costumam apontar para falta de força de vontade, caráter, ânimo, “estamina” ou coragem. O desistente é frequentemente percebido como fraco e pouco confiável.

Reconheço que, em determinadas situações, desistir pode ser prejudicial. Por exemplo, quando o objetivo é tornar-se pianista, é inegável que será preciso enfrentar muitos desafios. Essa escolha, por si só, já carrega uma exclusão: ao decidir seguir esse caminho, você voluntariamente aceita abrir mão de diversas gratificações imediatas em troca de uma possível recompensa futura. Um obstáculo – ou mesmo uma série deles – não deveria, por si só, ser motivo para abandonar um propósito.

O problema é que, em geral, tomamos decisões sem saber o que enfrentaremos pelo caminho. Voltando ao exemplo do pianista, no momento da decisão, imaginamos uma plateia extasiada aplaudindo nossa performance magistral. O resultado idealizado, antecipado no instante da escolha, é muitas vezes o combustível inicial. Porém, quanto mais fantasioso for o objetivo, maior pode ser a frustração ao lidar com a realidade. Assim, uma das razões para desistir é perceber que o caminho é difícil, tedioso, ou exaustivo demais para ser trilhado.

Persistir, por sua vez, é também uma forma de renúncia. Mas renunciar não é o mesmo que desistir. Renunciar significa aceitar os sacrifícios inerentes a uma escolha, adiando recompensas que, aliás, podem nem se concretizar. Afinal, o futuro é incerto, o sucesso não depende apenas de esforço, e as idealizações frequentemente sucumbem à dura realidade. Desistir, por outro lado, é algo completamente diferente.

Desistir implica abandonar uma decisão já tomada. Esse ato pode ocorrer em diferentes níveis: desistir de uma carreira, de um relacionamento, de um sonho. Também existem desistências cotidianas, como abandonar uma fila no supermercado ou deixar de procurar promoções entre diversas lojas. Em casos mais extremos, pode significar desistir de viver.

A desistência muitas vezes envolve cálculos racionais de custo-benefício: investimento versus retorno. Mas há algo mais profundo no ato de desistir. Trata-se da relação com o que realmente desejamos. Quando conhecemos nosso desejo, somos capazes de justificar, para nós mesmos e para os outros, o sofrimento temporário em prol de um bem maior no futuro – como o exemplo do pianista renomado. Esse mecanismo também é evidente nas religiões, onde pessoas renunciam a prazeres terrenos em busca da promessa de recompensas divinas.

De forma semelhante, persistir – o oposto de desistir – é sustentado pelo desejo. A questão central, então, é compreender o sentido do que se deseja, e não apenas seu significado social. Essas dimensões, no entanto, estão profundamente entrelaçadas. Pensemos no caso de muitos jovens brasileiros que aspiram ser médicos. Será que esse desejo é puramente pessoal? Difícil acreditar. Desde cedo, esses jovens são expostos a ideais e valores que exaltam a medicina, muitas vezes transmitidos pela família, pela mídia ou pelos pares. Com o tempo, os significados sociais associados à profissão vão se internalizando e se confundindo com o desejo individual. Em outras palavras, o que começa como uma expectativa externa pode se transformar na própria vontade do sujeito, carregando nuances particulares.

Sob a perspectiva do desejo, desistir significa abrir mão de uma escolha que parecia pessoal. Então, por que desistimos? Uma possibilidade é que o desejo que julgávamos nosso era, na verdade, o desejo de outra pessoa – dos pais, por exemplo. Nesse caso, desistir significa abandonar não apenas uma decisão, mas também uma parte de si mesmo que antes parecia central à sua identidade. Trata-se de um ato que exige enorme coragem, muito diferente da visão estereotipada de fraqueza frequentemente associada à desistência.

Desistir, nesse contexto, não é simplesmente recuar, mas abrir mão de certezas em troca de possibilidades incertas. Afinal, apoiar nossas escolhas no desejo dos outros oferece uma forma de certeza – ainda que apenas aparente. Os significados, que são herdados socialmente, tendem a ser mais estáveis e definidos do que os sentidos, que precisam ser construídos individualmente, comportando risco e profundas incertezas. Desistir pode ser um gesto profundo e transformador, capaz de desafiar convenções culturais e provocar uma reflexão sobre o que, de fato, constitui o próprio desejo. Na essência, discutir a desistência é discutir o querer – ou o não querer.

O jumentinho branco

Hoje, passando pela rua onde moro, vi um pequeno jumentinho branco atrelado a uma carroça. Isso é algo comum na paisagem da cidade. Quase sempre, fico atraído pelo animal. Gosto de observar sua expressão, que, em geral, transmite uma paciência inabalável. Hoje, ele estava ali, numa rua escura, parado, esperando seu dono buscar algo. Parado, calmo, passivo, obediente. Tão pequenininho, branco, numa rua escura, atrelado à carroça. Sabe-se lá de onde ele veio, sabe-se lá para onde vai. Pode ser perto, pode ser longe (mais provavelmente, longe).

Fico imaginando quando ele nasceu. Pelo que percebo, não é comum ver jumentos brancos pelas ruas. Mas esse jumentinho branco, quando nasceu, certamente chamou a atenção. E hoje, ao vê-lo na rua escura, não havia como não notar, nem como não se surpreender com o contraste: a rua escura, suja, esburacada, e o jumentinho branco, atrelado à carroça, passivo, obediente, resignado, com aquele olhar vazio, sem emoção, exceto pela aceitação do momento.

Logo me lembrei do jumentinho cinza-escuro e encardido do filme Balthazar, de Robert Bresson, sobre o qual já mencionei em outro post. Balthazar é o dócil animal que passa de dono em dono, de situação em situação, ora recebendo carinho e amor, ora (mais frequentemente) sofrendo ódio gratuito, agressão ou abandono. O ser humano faz quase nada, exceto usar o animal como instrumento, uma espécie de trator movido a sangue e músculo. O que podemos dizer sobre um humano que usa outro ser vivo como ferramenta? De certo modo, ele também se torna um objeto, tratando sua própria vida como um processo instrumental: pegar caixas, colocá-las na carroça, levar para um lugar X, despejá-las lá, cobrar por isso. E o ciclo se repete infinitamente, movido pela necessidade de sobrevivência.

Do ponto de vista moral e ético, sei que tratar um ser vivo como objeto só é possível porque um dos entes envolvidos domina o outro. O jumento não foi “criado” pela seleção natural com a “intenção” de ajudar o ser humano a transportar cargas. O uso pelo ser humano não é a razão de sua existência. Isso aconteceu porque, dotado de inteligência, o ser humano descobriu que o jumento é resistente, obediente, manso, passivo, resignado. Não exige grande treinamento, se é que exige algum. Basta mantê-lo preso, usar o chicote para “comunicar” direções e paradas, alimentá-lo e colocá-lo para trabalhar.

No filme de Bresson, Balthazar revela muito mais sobre os humanos que interagem com ele do que sobre si próprio. Não há como não traçar um paralelo entre Balthazar e a figura de Cristo. Imagine Cristo carregando a cruz, enfrentando seu calvário, sendo ridicularizado pelos passantes ou até açoitado. E, depois de toda a humilhação, sendo sacrificado na cruz. Nos evangelhos, não há vestígios de que Cristo estivesse com ódio das pessoas que o maltratavam, nem de autocomiseração ou ressentimento. É como se ele simplesmente tivesse de passar por aquilo. Para alguns, isso seria sinal de fraqueza, de ser um “cordeirinho” diante do mundo; para outros, é a expressão de uma coragem inabalável. Algo semelhante a Sócrates, que aceitou seu destino sem resistência. E a Balthazar, que, na foto que mencionei em outro post, aparece em seus últimos momentos de vida. Ele fora baleado porque seu “dono”, na ocasião, o usava para contrabandear mercadorias e foi interceptado pela polícia. Na imagem, Balthazar está cercado por cordeiros.

Alguém, como eu, passa e vê o jumentinho; ao vê-lo, pensa nas coisas que pensei. Outra pessoa poderia ver o carroceiro e enxergá-lo como um sobrevivente, catando os restos pela cidade para manter a si mesmo e à sua família vivos – vítima da exclusão social, econômica e política de um país à margem do capitalismo. Antigamente, quando essas duas interpretações surgiam em minha mente, eu me culpava por tê-las. Achava que deveria me concentrar apenas no carroceiro como objeto de minha inquietação, e mais, deveria atribuir a isso uma consciência política, acompanhada de uma força para “fazer algo”. Hoje, não sinto mais essa culpa. Hoje me deixo afetar pelo que posso ser afetado. Hoje tento não me culpar pelo que sinto. Somos muitos no Brasil; somos muitos aqui, nesta cidade onde vivo. Se cada um sentir algo, seja pela parte que for, isso já seria o mínimo necessário para mudarmos nossa visão de vida, do mundo, das pessoas e dos outros animais.

O cachorro

Assisti ao filme The heart of a dog, de Laurie Anderson, lançado em 2015. Nele, há uma menção à pintura abaixo, de Goya. Tudo o que diz respeito a animais, especialmente cachorros, toca algo profundamente emocional em mim. Neste filme-documentário, o cachorro ocupa um lugar especial, servindo como ponto de partida para reflexões sobre a vida, a morte, o sentido da realidade e o lugar do amor. A narrativa é conduzida pela voz da própria diretora, que entrelaça suas experiências de vida com esses temas. O filme se encerra de forma tocante, ao som da belíssima música de Lou Reed, Turning Time Around.

Francisco de Goya. The dog [1819-1823]

Há quem interprete essa pintura como a representação de um cachorro afogando ou afundando em areia movediça. Percebendo seu fim inevitável, solitário e desamparado, ele olha para cima, talvez na esperança de alguma ajuda. De fato, os vínculos entre cães e humanos remontam às profundezas do tempo. Assim, talvez ele aguardasse a providência de algum humano ou deus que viesse resgatá-lo. Vou prosseguir com as projeções e interpretações desta imagem.

A parte inferior da figura, mais escura, representa a terra, o mundo da vida. Já o vasto céu, de um dourado que se estende ao infinito, simboliza o etéreo, a impermanência, mas também o absoluto, a vastidão do Universo. A delicada cabeça do cachorro, quase mínima, é o ponto de interseção entre o imanente (a terra, o concreto) e o transcendente (o céu, o infinito).

A vida, no fundo, não é exatamente isso? Nosso corpo é apenas uma membrana, um ponto de consubstanciação provisória entre o pouco de matéria que nos permite tangibilizar o espaço e preenchê-lo, e o nada de onde viemos e para onde retornaremos. A própria Terra — o planeta, neste caso — não é senão outra frágil membrana desempenhando a mesma função. Não conheço as proporções matemáticas exatas, mas arrisco dizer que a materialidade da Terra, como ponto de massa situado no espaço e no tempo, é proporcionalmente ínfima em relação ao Universo, assim como nosso corpo (nossa massa) é ínfimo quando comparado à Terra.

O fastio do ‘homem moderno’

Gravura Melencolia I, de Albrecht Dürer (1514)

A sujeição da linguagem

Há uma passagem de um livro de R. Barthes em que ele discute o “fascismo da língua”. Segundo ele, o fascismo não consiste em impedir alguém de falar, mas em obrigá-lo a dizer algo. Ao falar, o simples ato de usar a língua já me insere em uma relação de poder. Assim, para Barthes, falar não seria apenas um ato de comunicação, mas também de submissão. Ao me expressar, já estou me sujeitando às estruturas normativas da minha língua. Soma-se, de um lado, a autoridade de quem faz uma afirmação e, de outro, o gregarismo de quem a repete.

A característica gregária da língua estaria presente nos próprios signos que a compõem. Um signo precisa ser reconhecido. O interlocutor que me ouve precisa validar o que estou dizendo — não apenas o conteúdo, mas também a forma. Sem esse reconhecimento, o circuito cotidiano da compreensão não se completa.

O mais interessante é que essa sujeição se aplica mesmo quando “falamos conosco”, no monólogo interminável de nossos fluxos de pensamento, no diálogo interno que constitui a consciência. Mesmo ali, na intimidade, nos sujeitamos. Há, internamente, uma “autoridade” que profere um determinado discurso (o “eu”?) e outra que o reconhece, conferindo-lhe alguma verossimilhança. Esse processo pode ganhar contornos obsessivos, paranoicos ou neuróticos, nos quais a repetição desempenha um papel crucial.

Portanto, para tentar escapar da sujeição, existem duas possibilidades: experimentar ou silenciar-se. De fato, o silêncio é uma forma de evitar as camisas de força embutidas na linguagem, com suas estruturas de poder e necessidade de reconhecimento pelo outro. Seria o silêncio, tanto interno quanto externo, uma forma de resistência? Já a experimentação consiste em explorar as franjas, as bordas e as fronteiras dos discursos institucionalizados.

O vento vai nos carregar

Desta vez gostaria de comentar um filme do diretor Abbas Kiarostami, conhecido pela trilogia Koker. Mas o filme em questão aqui é The wind will carry us.

Um grupo de amigos, que depois sabemos serem cineastas, vão até uma aldeia curda incrustrada no alto de uma planície para filmar um ritual local em torno da morte. O plot é simples assim. E “nada” ocorre em 118 minutos em que acompanhamos, quase que na mesma temporalidade do personagem, a estadia desses cineastas, em especial de um, Behzad. Exceto pura poesia.

Cena do filme The wind will carry us (1999)

A matéria do filme é o cotidiano: o transcorrer trivial da vida — nascer, alimentar-se, assear-se, trabalhar, morrer. E, claro, a presença majestosa da natureza. Uma natureza que, a julgar pelo comportamento dos habitantes do lugar, é parte intrínseca de sua percepção da vida. Isso chega a ser quase um incômodo para quem pensa pela lógica do sujeito-objeto, vendo o humano como algo apartado da natureza. Para essas pessoas, a morte é sempre um acontecimento assustador, como se estivesse à parte da vida, negando-a.

Por exemplo, Behzad, o personagem central (e único ator profissional no filme), sobe uma colina para pegar sinal de celular e, acidentalmente, encontra um fêmur humano em um cemitério improvisado. Ele pega o osso, compara-o com sua própria perna e, em seguida, coloca-o no painel do carro, como se fosse um objeto qualquer — um isqueiro ou um copo. Ninguém se chocou com isso. Nem ele. Mais adiante, o mesmo osso é jogado sobre um fio de água, próximo a um riacho onde cabras pastam. O osso, então, é levado pela correnteza, simbolizando a integração da morte com os vivos, numa harmonia que aparenta ser resignada, quase indiferente.

É evidente que não se trata de poetizar a penúria. Viver numa comunidade rural, como a retratada no filme, deve ser repleto de dificuldades. Não é um bucolismo burguês, tampouco uma visão romântica de alguém que observa de fora. Se refletirmos, nossas sociedades altamente tecnológicas, repletas de conforto e atalhos, também não escapam da mesma verdade final: a vida passa, a morte chega e, assim, o ciclo de reciclagem e renovação da vida continua. É um ciclo infinito, aparentemente sem propósito intrínseco. A diferença é que dispomos de subterfúgios, racionalizações, mediações e, como consequência, maior distanciamento — até mesmo uma ruptura — com a natureza e, por extensão, com a morte. Já não nascemos em casa; tampouco morremos lá. Nascemos e morremos em hospitais, onde os médicos são vistos como figuras apartadas de nós. Fetichizamos a ciência. Podemos até criticá-la, mas, no momento de desespero, na “hora H do dia D”, recorremos a ela como cordeiros assustados, em busca de milagres.

O filme, ao introduzir poesia no “deserto do real”, destaca o privilégio de estar vivo. Se o ciclo de nascimento, procriação e morte não possui propósito intrínseco, por outro lado, só os vivos podem contemplar a beleza da natureza. Nesse sentido, um dos melhores momentos do filme, para mim, ocorre quando Behzad encontra o médico da vila, que lhe dá carona em sua moto. Durante o diálogo, quando Behzad pergunta se “o outro mundo” — após a morte — não seria mais bonito, o médico, de maneira plácida e serena, responde: “Ninguém voltou de lá para nos dizer como é.” O que sabemos é que, ao fecharmos os olhos pela última vez, não haverá mais volta para cada um de nós, individualmente. Todas as maravilhas e belezas da natureza desaparecerão para nós. Essa é a verdadeira perda com a morte. Segundo o médico, a morte é muito pior que a pior das doenças.

Assim, ao longo de uma conversa casual entre duas pessoas numa moto, a “premissa” do filme se revela em forma de poesia. É surpreendente como verdades profundas são apresentadas com casualidade e até humor. Essas verdades são semeadas ao vento, voando, quem sabe, para germinar em algum outro lugar. Entre a vida e a morte, fica a ideia capturada por um conhecido ditado: “Melhor um pássaro na mão do que dois voando.” Na linguagem do médico, temos:

“Dizem que ela é linda como
uma huri do céu!
Mas eu digo…
que o suco da vinha é melhor.
Prefira o presente a
estas belas promessas.
Mesmo um tambor parece
melodioso à distância
Prefira o presente”

Cena do filme The wind will carry us (1999)

 


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