Prefiro ouvir a falar (#21)
março 15, 2013
março 6, 2013
Agora tenho 33 anos de idade e sinto que muito tempo passou e vai passando mais rápido a cada dia. Dia após dia preciso fazer todo tipo de escolhas sobre aquilo que é bom, importante e divertido, e depois preciso conviver com o confisco de todas as outras opções que essas escolhas eliminam. E começo a perceber que à medida que o tempo ganha ímpeto minhas escolhas vão se dar num campo mais estreito e as eliminações serão multiplicadas em ritmo exponencial até eu chegar a algum ponto de algum ramo qualquer dentre as suntuosas ramificações complexas da vida onde estarei completamente trancado e cravado num único caminho e o tempo passará voando por mim em fases de estase, atrofia e decadência até eu cair pela terceira vez, toda a luta em vão, afogado pelo tempo. É apavorante. Mas como serei trancado pelas minhas próprias escolhas, parece inevitável – se desejo ser adulto de algum jeito, preciso fazer escolhas e lamentar eliminações e tentar viver com isso
De David Foster Wallace, em Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo (Cia das Letras, 2012)
fevereiro 28, 2013
Por que não fazemos como o personagem de Melville, o escrivão Bartleby, simplesmente dizendo “prefiro não fazer” aos pedidos dos outros? Por que simplesmente não interrompemos a ação, nosso agir? Ou, inversamente, o que nos leva a querer fazer coisas, a simplesmente querer sair da cama pela manhã? A sobrevivência, a “busca por sentido”, a vontade? O medo das consequencias do não-fazer? O desejo?

Ah, o desejo. A busca por preencher, ilusoriamente, o que falta. O trabalho de cultura, como diria Freud: o trabalho de Eros, de ligação, de enactment. Algo particularmente humano, entre tantas características já catalogadas, é o fato de estarmos na origem de algo, o fato de sermos o agente cuja ausência mostraria a restrição da matéria: sem o homem, rios correriam às cegas, seguindo combinações perfeitas de forças naturais; sem o homem, pedras seriam apenas pedras, e não prédios, pontes, objetos de arte. Sem nossa ação, a eterna repetição do mesmo.
Ainda assim, me pergunto: mas qual a “essência” da ação (desculpe ser platônico). Bom, a ação pode ter sua essência fora do homem (embora ainda dentro da cultura). Por exemplo, na tradição, no hábito, no costume. Pode estar nalgum imperativo categórico, nalguma ética transcendente ou universal à qual nos sujeitamos para haver o espaço da convivialidade (o certo, o errado)… A ação pode estar “dentro” do sujeito, em sua vontade, na sua disposição, personalidade, “desejo de potência”… A origem da ação pode ser instintiva, baseada em necessidade. Pode também ser religiosa – Deus seria contra a acédia, a apatia, a inação.
A ação pode estar ligada a um ideal. Ajo inspirado e orientado por esse ideal. A “perda de ideais” seria um caminho para o niilismo de tipo nefasto. Posso também agir como um “sujeito coletivo”: a ação política, esse tipo de agir profundamente humano, pelo qual se compartilha o destino comum, o fato de se viver junto de outros. Uma ação política teleológica, utópica.
A lista seria extensa. A lista do porquê agimos, do porque nos embrenhamos nesse trabalho de cultura pelo qual nos humanizamos (e pelo qual sobrevivemos – um “trabalho de natureza”, por assim dizer).
***
Agir implica em um trabalho de tornar-se adulto: agir, em vez de esperar que o outro aja por mim, ou então para que eu mesmo não me torne um objeto da ação do outro, passivamente. No primeiro caso, há certo desejo de fusão com o outro, protetor, provedor. A criança só começa a “sacar” que tem de correr atrás do próprio alimento quando a mãe não corresponde mais a um tipo de amor fusionado, de nutrição irrestrita.
Inação implica, também, num bloqueio da capacidade inventiva do sujeito, pela qual, criativamente, ele reinventa novos objetos para sua experiência. Quando inativo, o sujeito se torna um objeto junto a outros objetos. Pois um objeto é, precisamente, aquilo cuja ação não parte espontaneamente de si. O inativo vê tais objetos como “entidades dadas”, dispostas no mundo, e não como instrumentos maleáveis, pivôs da externalização de si em novos “possíveis”.
fevereiro 25, 2013
Assisti novamente ao curta que postei aqui, intitulado Adam and Dog. Sua essência é o tema da lealdade, da gratidão, retribuição, algo que lembra o conceito de ‘graça’ discutido por Marcel Mauss. Na configuração da graça, o que recebo do outro gera entre mim e ele uma dívida simbólica que é alheia à axiologia econômica. Em outras palavras: há um processo de doação de si que transcende a lógica econômica.
O cão é leal a Adão, mesmo este tendo sido expulso do paraíso. O cão é grato a Adão por este tê-lo acolhido antes, com carinho e alimento. Enquanto todos abandonaram Adão (e Eva), inclusive os animais do Paraíso, o cão, praticamente sem titubear, volta à floresta, retoma o graveto que havia guardado de suas diversões com Adão, e segue este último.
É desoladora a imagem de Adão e Eva saindo do paraíso. Sozinhos. Desamparados. O cão, na animação citada, reata, religa, resgata o princípio da graça e da dádiva inerentes na própria concepção de Paraíso. Ele não deixa o primeiro casal sozinho. Com seu gesto, mantém um elo entre homem e animal que está na origem da Criação.
Em que consiste a lealdade nos dias atuais? A que ou a quem sou leal?
Talvez um nietzschiano diria que a lealdade comporta algo de passivo, de submissivo: sou leal ao mestre, ao amo (na estória do Senhor e do Escravo de Hegel). O escravo precisa do senhor para manter sua própria identidade cativa, ao passo que o senhor se alimenta do escravo, numa perspectiva dialética, para que seu próprio ser tenha sentido. Pode ser, claro, que o cão precisasse do homem (Adão) para manter sua própria posição submissa (antes a submissão do que o abandono, o desamparo).
Mas a lealdade, e novamente remeto ao vídeo, contém algo de corajoso, de audaz. É uma retribuição que funda uma ética da troca, da solidariedade, da companhia. O companheiro retribui, gerando em quem dá o ensejo da re-retribuição. Fecha-se o elo da parceria, da amizade. Neste tipo de amizade, cada membro é reconhecido em seu papel alternado: quem doa e quem recebe; quem recebe e quem doa. O dom, neste caso, não pertence a nenhum dos dois, mas à relação.
É isso. Lealdade. Amizade. Retribuição. Dívida. Graça.
fevereiro 17, 2013
Bento 16 anunciou sua renúncia ao pontificado. Para os mais de 1 bilhão de cristãos espalhados pelo mundo, surpresa: decerto, ninguém imaginava que um papa pudesse, tivesse a audácia, de abdicar de sua posição – a que pouquíssimos ao longo da história da Igreja alcançaram.
O glamour da notícia tem a ver, é claro, com o fato de se tratar de um papa. Porém, todos os dias, mundo afora, pessoas renunciam, abrem mão de algo a que consideram importante e valoroso. A renúncia tem a ver precisamente com isso: com deixar algo que se considera importante. Em tese, ninguém renuncia o que gera desprazer, dor, sofrimento.
A renúncia tem a ver com um sujeito que se afirma, que escolhe; a renúncia pressupõe a liberdade, a autonomia. Uma relação entre a pessoa e o papel que desempenha. Foi Ratzinger que renunciou Bento 16. Pode tê-lo feito, como alguns analistas sugerem, para assegurar a permanência da centro-direita no comando da Igreja. Mas como renunciar ao que Deus nos legou como missão? Assumindo nossa fraqueza, nossa pequenez, nossa incapacidade? Mas, ao nos escolher, Deus já não sabia disso? Jesus não teria escolhido Pedro justamente por isso, por sua fraqueza, sua personalidade titubeante?
O ato de Ratziger me fez pensar no por que de nossas renúncias. Pois, como disse, não renunciamos o sofrimento, mas o prazer. Pois até conseguimos pensar no porquê de certas escolhas que fazemos (quero certa carreira para ter dinheiro; escolho casar porque amo…); mas qual o porquê da renúncia, do deixar para trás?
1) Renúncia como ato de auto-aniquilamento. Ratzinger, com seu gesto, mostra que papas podem, perante o mundo, assumir suas limitações, chamando a responsabilidade de outros mais “preparados”; mostra, ainda, que até mesmo missão dada por Deus pode ser “revista” (a misericórdia de Deus aceitando nosso lado “humano”). Com isso, Ratzinger assume-se menor que Bento 16. Abre espaço para outros, para um outro movimento histórico (a Igreja é maior que Ratzinger…);
2) Renúncia como recomeço: deixo tudo o que tenho para trás para recomeçar uma vida nova, em novo patamar. Veja-se o caso da renúncia de S. Francisco de Assis: renúncia à “vida terrena” em nome da vida eterna, a vida do espírito. De acordo com o que lemos na mídia, Ratzinger, após deixar o pontificado, vai “recolher-se” em oração num mosteiro no interior do Vaticano, “desaparecendo” da vida pública. A renúncia de um estado de coisas nos dá a possibilidade de reorganizar nossa vida;
3) Renúncia como um tipo de negação da vida. O estado máximo de renúncia é a própria morte. Pois, ao longo de nossa vida, vamos acumulando coisas ao nosso redor; renunciar a estas coisas é diminuir o peso dos próprios investimentos que fazemos na realidade. Renunciar simplifica a vida. O extremo da renúncia é quando abrimos mão de nossa própria vida. Ainda no terreno religioso, falamos dos mártires…
Não posso esconder que fiquei perplexo com a decisão de Ratzinger. Ao mesmo tempo, ela me inspirou a pensar – e o que pensei não se limita a isto que escrevi aqui. Por um breve instante, quero esquecer tudo o que li a respeito do episódio e, principalmente, as versões mais “inteligentes” de analistas, que buscam as “estratégias” ocultas, políticas, etc., levadas em conta por Ratzinger. Se calarmos por um instante essas vozes “savantes”, podemos pensar em muitas outras possibilidades de interpretar e aceitar o que fez Bento 16.
fevereiro 15, 2013
Animação indicada ao Oscar 2013.
Post-scriptum
Uma versão linda sobre o amor entre o cachorro e o homem. Nunca vi uma espécie que ama tanto e sabe retribuir. Realmente, não sei o que seria de mim sem as minhas cachorrinhas! 🙂
fevereiro 15, 2013
Um lado de ser turista é chato. Aborrecedor. Arrumar, desarrumar malas, ir de hotel em hotel, frequentar o transporte público (trens e avião, no meu caso recente), verificar a todo instante se os documentos essenciais estão consigo, ocupar-se da conversão de moedas e da troca de línguas e dialetos. Também é chato, ao ser turista, participar (por diversos motivos que vão desde logísticos a financeiros…) de um certo reducionismo que consiste em enquadrar um lugar (uma cidade, por exemplo) a paisagens turísticas: quando na cidade A, visite os locais A1, A2…; quando na B, os B1, B2, B3, e assim por diante. Nesse sentido reducionista, o turista pode ter a sensação estranha de que não está saindo do lugar: apenas está trocando as imagens, vendo-as do mesmo ponto.
Garçons falam inglês na Itália, em Praga; falam francês em Londres, italiano em Portugal. E não têm problemas com isso, pois, no fundo, estão dentro de um mesmo gênero de linguagem: o de atender turistas (o que há de tão variável na atividade de servir uma bebida?). Você sempre pode comprar um souvenir, em geral made in China – um telefone ao estilo inglês para usar como “cofre”; um quadro de algum pintor famoso da cidade; a foto da rua em que certo outro escritor ilustre nasceu (compra-se a réplica da placa da rua…). Nesses momentos, você está participando da redução da cidade e do lugar. As galerias de souvenirs aos pés do Vaticano só são diferentes das de Praga ou Lisboa na medida em mudam-se os objetos a serem representados. Como disse, aqui se tem a impressão de que nada está efetivamente mudando…
O turismo movimenta bilhões de dólares todos os anos: hotéis, restaurantes, empresas de máquinas fotográficas (!), agências de turismo, prefeituras…uma legião de agentes econômicos capitalizando cada pedaço das cidades. É o reino (usando linguagem recente) das indústrias criativas.
Mas há um outro lado do “ser turista” que é bem interessante. Em particular, gostaria de falar da ambiguidade ou ambivalência que essa “atividade” despertou em mim no que diz respeito à relação espaço-lugar.
O espaço é disposição “natural” de coisas. Circula-se pelo espaço. Passa-se um tempo num espaço. O espaço é impessoal. Em contrapartida, o lugar é investido afetiva, social, culturalmente. O turista está em contato com o espaço, mesmo que esteja diante de um monumento ou coisa do tipo “repleto de história”! O nativo, por seu turno, vive num lugar, mesmo que não se circunscreva a ele (lógico que, mesmo sendo habitante, ele viaja, se desloca de um canto a outro, etc.). O lugar compõe sua identidade, dá-lhe estabilidade.
Viver em trânsito em diversos espaços (por exemplo, sair de seu país e ficar um tempo “viajando” por aí) tem seu limite. Não creio que alguém consiga ter sanidade mental simplesmente não parando em lugar algum, vivendo como se fosse um turista permanente. Por outro lado, a relação com o lugar pode ser asfixiante, pode nos levar ao desespero. Obviamente, o lugar depende de um espaço; mas depende também de uma narrativa, de uma história, de um “dizer” sobre o espaço. Por mais que falemos de globalização, a verdade é que os lugares têm sua marca própria. E ela frequentemente absorve os nativos. E o ser humano tem a impressionante característica de viver o local como se ele fosse o limite último de todas as coisas (mesmo que, conscientemente, ele saiba da “imensidão” do espaço que “existe por aí”…). Para captar e viver a narrativa que circula pelos lugares de pertencimento é preciso tempo, exposição e, claro, domínio da língua (num nível que vai muito além da linguagem do garçom, recepcionista etc.).
Então, o turista vive uma situação indefinida, entre o espaço e o lugar. Como turista, tento observar e “entender” o que os nativos estão fazendo. Pelo fato de ser ocidental, de ter sempre vivido em cultura ocidental, consigo reconhecer certos sinais que me dão alguma orientação (quem não reconhece um McDonald’s, independentemente do lugar em que está?). Em outros casos, é difícil entender – e, se tentar observar com um nível cada vez maior de detalhes, menos consigo entender, apreender. Por exemplo, um vendedor de souvenirs de Roma pensa a mesma coisa sobre sua atividade como o faz o vendedor de souvenirs em Londres? Na verdade, como turista, temos de fazer imensas generalizações; não conseguimos olhar no detalhe. Não conseguimos apreender o lugar e suas narrativas. Isso é desconcertante e agoniante.
[To be continued…]
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