Força de vontade

1.  Força de vontade, em nossa cultura, é frequentemente associado a coisas como perder peso, deixar de fumar, conquistar um sonho/objetivo, vencer no esporte; ou seja, associado à mudança de hábitos e a ideais a serem conquistados, a limites a serem superados (especialmente, limites pessoais, individualistas);

2. O mesmo se pode dizer do uso da expressão ‘força de vontade’ aplicada a casos em que não faríamos determinada coisa se não fosse por um ato de vontade, um ato contrário a alguma força de natureza desconhecida mas que nos faz fazer algo que, conscientemente, não faríamos. Neste sentido, ter força de vontade diz respeito ao sujeito moral, àquele que é responsável por seus atos;

3. Força de vontade, novamente em nossa cultura ocidental, está associado à ‘força’ em sentido mais estrito: força fisiológica. Neste caso, ter força de vontade é ser, fisiologicamente, capaz de lançar-se em um determinado curso de ação sustentado pelo corpo biológico (se estou relativamente em forma, sou capaz de perpetuar uma ‘força’ que, de outra forma, não conseguiria). Isto lembra aquelas propagandas de vitamina C, em que a pessoa que usufrui da mesma consegue enfrentar, com ‘vontade’, um dia pesado;

4. De algum modo, há uma relação tensa entre vontade e desejo: enquanto este vai por si, aquela precisa ser desenvolvida, sustentada, mantida (fala-se, por exemplo, “Eu tenho vontade de”…, mas isto seria mais corretamente dito como “Tenho desejo de…” [embora se guarde aqui alguma conotação sexual e, portanto, se opte pela primeira alternativa]). Talvez seja (em parte) por isso que o tema é debatido em filosofia moral;

5. E quanto à vontade em sentido mais cotidiano? O que você faz quando não está com ‘vontade’ de sorrir, de conversar com uma pessoa qualquer? Quanto, num evento coletivo (uma aula, uma reunião, etc.), prefere ‘deixar passar’, sem sentir-se com ‘vontade’ de defender seu ponto de vista (admitindo que você conheça e tenha um ponto de vista ao qual se pode chamar de seu)?

6. A apatia, a acédia, a preguiça, o torpor da inação, o deixar-se levar não apenas pelo fluxo do próprio pensamento (inverso à ação, neste caso), da situação, da atividade, do evento coletivo a se desdobrar na sua frente. Penso que isso ocorre, afora razões de ordem psicológica, pelo fato de estarmos imersos em muitas situações sem sentido, desconectadas de aspectos mais amplos e profundos de nossa existência. Vivemos, muitas vezes, apenas encenações que não demandam de nós uma ‘força de vontade’ eticamente necessária. Não seria muito chato ter ‘força de vontade’ em qualquer momento? Um ativismo sem fundamento, sem finalidade, absorto em 4 paredes?

7. É impressionante, pois, a cada ato seu que não é assentado em alguma vontade, é o fluxo do mundo, das pessoas e das coisas, do tempo em suma, que se impõe; é a fisiologia que se desdobra – somos pura fisiologia na ausência da vontade. É claro que esta última, a fisiologia, tem vontade própria. Em certo sentido, foi isso que Schopenhauer nomeou de a ‘vontade da natureza’, essa força cega, mas absurdamente forte e insistente, logo depois chamada de pulsão de morte por Freud. A vida, a fisiologia, tende a buscar sua perpetuação; sua ‘força de vontade’ é descomunal. Schopenhauer era um ‘desconfiado’ da vontade;

8. De onde vem a vontade? Não é, decerto, a ‘motivação’ do pensamento gerencial moderno, impregnado e imbecilizante (pois é óbvio que, ao não se ter vontade na empresa, a mais valia não é extraída – no mundo público, exceto em alguns casos de ambição pessoal, a falta de vontade é absurda, pois muitas pessoas, ao terem sua vida material resolvida, simplesmente exibem, para si e para os outros, que sua vida perdeu o sentido, virou um deserto, preenchido com pequenos consumos); a vontade vem…bom, isto é assunto para outro post, em algum momento.

1976, 23/06

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2012, 23/06

* Num ato bem privado, ao digitar cada data acima, uma imensidão de acontecimentos, em forma de flash. A vida é um flash?

Dogville

Ontem assisti novamente a Dogville, do Lars von Trier. Acho que é a terceira vez que assisto. Ao contrário das outras vezes, porém, não havia percebido a sagacidade do final, justamente a parte dos créditos. Eis que a achei na net. Infelizmente, não dá para reproduzir aqui porque o Youtube não permite, mas você pode assistir diretamente no endereço original. A música é de David Bowie – e esta sim reproduzo abaixo (caso queira só ouvi-la sem a cena dos créditos de Dogville, embora se perda bastante o efeito pretendido). Tente imaginar, se você já assistiu a este filme, o porquê deste final…

Vidas possíveis

Nos últimos livros de Philip Roth duas temáticas têm sido salientes: a proximidade da morte do personagem principal e, ligado a isto, certo desejo incontrolável (nos homens), um fascínio, pela vida de outras pessoas mais jovens. Velhice e juventude. O desejo que, mesmo com o passar do tempo, não arrefece, pelo contrário: se intensifica num misto de consciência da decadência, memória e a infinitude.

É impressionante como a juventude vive como se o amanhã fosse infinito. Isto não é uma novidade. Não até o ponto em que você vive isso, observa o transcorrer do tempo, observa a perda a seu redor, no seu ínfimo mundo privado. Ao mesmo tempo em que sente (ou percebe) que o jovem sequer cogita sua própria finitude. Lei da selva, lei da sobrevivência; talvez.

Voltando a Philip Roth. Num caso, o personagem se perde, se apaixona pela Lolita; contempla seu corpo em seu pleno vigor. Contraste do corpo jovem com o corpo velho. Há mais do que o lugar-comum do ‘ímpeto’ versus a ‘experiência’: há alguma coisa que se perde no confronto do velho com o novo. Em outro caso, o filho observa uma tomografia da cabeça do pai. Imagens gravadas da cabeça do pai – não de qualquer pessoa. O pai vai escorregando para a morte, e o filho faz seu luto.

Acho que é isso, foi por isso que dei por mim escrevendo estas coisas, lembrando dos enigmáticos, profundos, personagem de Philip Roth: cada momento de nosso dia está pleno de possibilidades não realizadas; está repleto de angústias e nostalgias por uma vida não vivida, por uma vida que seria possível mas não é, e não porque não nos arriscamos ou coisa do tipo, mas porque não conseguimos, simplesmente não conseguimos, viver ‘todas’ as vidas possíveis. Ocorre que cada pessoa, cada jovem (na metáfora usada aqui), ‘combinado’ contigo e com certas ‘condições’, gera uma paradoxal, irrepetível e ao mesmo tempo fugaz vida.

Persistência e esperteza

Economia criativa em São Paulo

Acaba de sair um relatório bem completo e interessante da Prefeitura paulista sobre as indústrias criativas na cidade de São Paulo (“Economia criativa na cidade de São Paulo: Diagnóstico e potencialidade). São dados recentes e animadores sobre o setor. Os interessados podem acessá-lo aqui.

Não perca a hora!

Muito bom!

Paralaxe cognitiva

Dia desses um amigo meu me apresentou a idéia de “paralaxe cognitiva”, do filósofo Olavo de Carvalho. Este a define como o “afastamento entre o eixo da construção teórica e o eixo da experiência real anunciado pelo indivíduo”. Isto significa que, quando falamos, criamos uma distância entre o ideal e o vivencial, entre aquilo que efetivamente experienciamos (em primeira pessoa) e aquilo que supomos, desejamos, ou meramente estipulamos normativamente.

Richard Rorty, filósofo norte-americano, dizia algo ligeiramente equivalente quando propunha que, em vez de pensarmos e mirarmos em “mundos ideais possíveis”, nos fixássemos na realidade, no mundo real, no mundo do cotidiano, compartilhado com pessoas de carne-e-osso ao nosso redor. Por exemplo, em vez de ficarmos perlaborando sobre como o Brasil “poderia ser”, poderíamos nos voltar para nossa realidade, pensar em como ela é, em como melhorá-la, não necessariamente em nome ou às sombras da realidade ideal, mas no âmbito do possível, factível. Para Rorty, o que importava não era o mundo (puro) das idéias, mas a experiência (política) de viver uma vida contingencialmente situada.

Com esse amigo, conversamos sobre os dilemas de nossa profissão. Como professores, somos, frequentemente, levados a falar sobre muitas coisas que, de fato, não experienciamos. À primeira vista, pensei, então, que deveríamos ser empiristas, mas, ao ler sobre paralaxe cognitiva diretamente nos textos disponíveis de Olavo de Carvalho, este afirma que o empirista, por exemplo Hume, acreditava que apenas por meio da experiência empírica poderíamos ter acesso à verdade. Mas Carvalho diz que o empirista era, de algum modo, um “tresloucado” que tomava a parte pelo todo. Ao acreditar apenas no que pudesse “tocar”, para recuperar imagem bíblica, o empirista iludir-se-ia com sua visão míope. Então, fiquei sem entender…

Se decidíssemos, a partir de agora, a sincronizar nosso “eixo existencial” com nosso eixo discursivo, teórico, simplesmente nos privaríamos de dizer muitas coisas. Talvez só falássemos daquilo que estamos “sentindo” (teríamos outra forma de acesso à realidade que não pela experiência sensível e pelo que nossa “cognição” faz [meio que autonomamente] desta?). Mas, honestamente, não sei definir o que é “eixo existencial”. Ao falarmos, já estamos instituindo uma distância, um desencontro, entre o que vivemos e o que expressamos. Estou fazendo este post sem ter me apropriado mais profundamente da idéia de Olavo de Carvalho. Por ora, com esta minha forma de entender a questão, fico me perguntando como falar de forma autêntica, onde situar o eixo do pensamento.

Mas admito, com sinceridade, que se distanciar muito do próprio “eixo existencial” gera uma forma de dissonância muito perniciosa. Isso pode levar a um sentimento (quando se tem auto-crítica para tanto!) de “picaretagem”: afinal, o picareta é o que fala do que não vive. Carvalho cita o caso de Marx. Este dizia que só o proletariado poderia entender efetivamente sua situação de alienação; porém, questiona Carvalho, o próprio Marx não era um proletário, assim como muitos que hoje cantam a ladainha da “libertação social” também não vivem em condições de vulnerabilidade, pelo contrário: em geral, estão bem abastecidos atrás de seus salários pequeno-burgueses. Deveriam, então, se calarem, pararem de falar de uma experiência que não é a deles?

Eis aí o dilema: não ser um empirista no sentido tradicional, mas igualmente não ser uma “contradição ambulante”, falando o que sequer consegue vivenciar na própria pele…


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