Felicidade

A leva de estudos sobre felicidade tem proliferado nos últimos anos. Há quem diga que felicidade se tornou uma área de estudos, à semelhança dos “estudos culturais”. Teríamos então algo como “happiness studies”. O foco: o que é a felicidade, por que somos ou não felizes, qual a origem do conceito e coisas do tipo. É verdade que, pelo menos nos livros que tenho visto, não há pretensão em se dizer “como ser feliz”, sobretudo porque a maioria desses livros é escrita por acadêmicos, em específico filósofos. Em termos de abordagem metodológica, não parece haver linha única. Vejo estudos focados em psicologia evolutiva, cognitiva e neurociências; há também os estudos genealógicos ou históricos, de cunho mais filosófico. Entre estes últimos, vale a pena o livro do professor de filosofia Darrin McMahon, “Felicidade – uma história” (Editora Globo, 2007). Em uma entrevista do autor ao Estadão, ele diz:

No mundo moderno, felicidade é um conceito ligado ao hedonismo, fundamentalmente. Ora, não dá para ser feliz num país onde, por exemplo, se pratica a tortura. Aristóteles definia a felicidade como a associação entre prosperidade e virtude. Os países subdesenvolvidos sofrem porque sabem que esse tipo de felicidade é quase impossível. Então, é inevitável a desilusão de alguém que se entrega a uma forma hedonista de ver o mundo. É provável que os sociólogos e cientistas sociais nunca cheguem a um consenso sobre o que torna os homens mais felizes, mas uma coisa é certa: a mídia e o marketing criaram uma idéia falsa de felicidade e vai ser difícil controlar essa onda hedonista no mundo desenvolvido.

A diagnóstico semelhante chegou o psicanalista Contardo Calligaris, em matéria da Folha dedicada à questão da felicidade (para assinantes). Nela, Calligaris também comenta, com elogios, o estudo de McMahon.  Transcrevo, agora, uma passagem do texto do psicanalista:

Na modernidade, a definição do que nos faz felizes fica bastante incerta, mas, paradoxalmente, a exigência de sermos felizes (sem saber direito o que isso significa) torna-se irrenunciável. Esse imperativo enigmático é uma peça essencial de nossa organização social. Explico. A felicidade é, hoje, uma aspiração obrigatória que, por sua indefinição, não pode ser satisfeita. Portanto, ela alimenta uma sede insaciável de objetos e prazeres. Essa sede sustenta nosso modo de produzir e consumir e nos leva a organizar nossas diferenças sociais segundo os “sonhos” que cada um conseguiu realizar (ou seja, pela inveja).

De minha parte, fico muito confortável para aceitar o diagnóstico de ambos. De fato, felicidade, hoje, significa prazer e consumo como obrigações morais. McMahon é cético quanto a esse novo ideal social; Calligaris não fica longe: na medida em que é obrigatória, a felicidade gera movimento de procura de satisfação, a qual é maximamente encontrada no consumo. Acho o seguinte: é pobre uma sociedade que encontra seus ideais de felicidade em um sabonete de banho, ou então em uma roupa, ou ainda na posse de um carro. Vivendo pelo e para o efêmero, isso é o que rege a ideologia da felicidade individual de nosso tempo.

O cavalo de Turim (2)

Como prometi, aqui segue um post um pouco mais demorado sobre o filme do diretor húngaro Bela Tárr, vencedor do Festival de Berlim do ano passado. Aviso que este post tem um conteúdo “spoiler”.

Apesar de o filme ser sobre o suposto cavalo defendido por Nietzsche, não há qualquer outra referência ao filósofo, exceto na própria idéia do filme. Há, por exemplo, um trecho em que um personagem desenvolve um monólogo no qual discute que, tanto os homens, como Deus (que, supostamente, “supervisiona” estes últimos), são responsáveis pela destruição “de tudo aquilo em que colocam suas mãos”. Provavelmente, uma referência à própria destruição do planeta.

E o planeta se manifesta o tempo todo. Particularmente, a natureza. Venta durante todo o desenrolar dos 6 dias em que acompanhamos a rotina férrea de pai e filha. Há grande angústia na tela, reforçada pelos planos-sequências, pelo uso do PeB, pela expressão dos rostos dos personagens, e, principalmente (para mim), pelo vento e pela desolação que, aos poucos, vai se abatendo sobre a pequena família. E o centro de tal desolação é precisamente o cavalo – que se recusa a comer e, desde então, desbanca a rotina diária pela sobrevivência dos dois. Achei fantásticas as tomadas em que vemos o cavalo e sua quase-humana “resistência tenra” a continuar a viver.

Bela Tárr diz que se trata de um filme sobre o “peso da vida”, a rotina de dormir, levantar-se, vestir-se, comer (no caso, toda a refeição se resumia a uma batata para cada um por dia), buscar água no poço, lavar roupa, utensílios, tirar e voltar a guardar a carroça, limpar a estalagem do cavalo e alimentar este último (ou, pelo menos, tentar alimentá-lo). É a rotina que vemos o tempo todo, afirmando-se. Não há praticamente diálogo durante o filme, mas as cenas são de uma densidade que fazem as palavras serem quase supérfluas.

O cavalo para de comer; logo depois, ou quase ao mesmo tempo, acaba-se a água do poço. A pequena família tenta fugir, mudar-se, levando consigo o cavalo. Mas acabam voltando. Não há para onde fugir? Ou, como li em algumas críticas ao filme, trata-se de falta de vontade, uma resignação dos personagens à inércia insuportável da vida? Se for falta de coragem, fato é que em nenhum momento há qualquer sinal de revolta dos personagens: a filha faz o que tem de ser feito sem qualquer reclamação ou queixa; o pai, idem. Há uma espécie de “força cega” os levando a fazer o que fazem, inclusive quando simplesmente esperam. Esperam diante da janela, esperam ao acordar, esperam após a breve refeição, o dia passa e, mesmo assim, parecem sempre à espera. Mas de que? De uma melhora? Do fim do redemoínho de vento que faz tudo ficar de pernas para o ar, em rodopios infernais? De que a água volte ao poço? De que o cavalo volte a levar a carroça e ajudar no sustento da família? A agonia vem de que sabemos que, provavelmente, nada virá.

Para mim, o melhor filme que já assisti nos últimos anos. Muito, mas muito melhor do que o último de Lars von Trier (que também, a seu modo, fala do fim, da falta de esperança e da passividade da espera); melhor do que Árvore da vida, que, como disse aqui em outro post, nos maravilha e humilha com a magnificiência do universo. Estou a tal ponto impactado pelo filme de Tárr (segundo o que ele declarou à imprensa, seu último filme), que me parece que escrever sobre ele é como “violá-lo”.

O cavalo de Turim

Acaba de sair, no grande circuito cinematográfico, O cavalo de Turim (Festival de Berlim, 2011), de Béla Tarr, o qual faz alusão ao episódio em que Nietzsche se joga no pescoço de um cavalo que estava sendo açoiato por seu proprietário. Para se ter uma idéia do conteúdo do filme, coloco abaixo a cena de abertura. Voltarei em breve com um post mais demorado sobre o filme.

Desbancando

Ótima tirinha do Willtirando.com, publicada hoje. Claro que, se tirarmos o estereótipo de Einstein, a coisa perde um pouco a graça, mas ainda assim me parece refletir bem o espírito da época. Título original: “Entendedor anônimo”.

Autômatos (2) (e a contagem de 2012)

Claro, só para complementar o post anterior: autômatos não se referem só a pessoas; talvez o autômato mais fascinante do imaginário humano seja… o relógio! E é o mesmo relógio que, acoplado a um calendário, nos dá as referências dos segundos, dias, meses e … anos. Portanto, que nossos autômatos-relógios, ao marcarem 00:00:00 do dia 31 para o dia 01/2012, simbolizem nosso ritual infindável de celebração do novo, do recomeço, da renovação das esperanças.

Autômatos

Consta que o escritor E.T.A. Hoffmann era obcecado pela idéia de autômato – veja-se seu conto homônimo e também um outro conto, adorado por psicanalistas, Homem de areia (todos reunidos na coletânea Contos fantásticos, publicada pela Imago, 1993). O personagem, no conto (Os autômatos), se apaixona por Olímpia, uma mulher perfeita: paciente, incapaz de sentir-se entediada por ele, sempre pronta e disposta a ouvir – e a deixá-lo em paz, sem fazê-lo se confrontar com a dura realidade que vivia (da qual sua verdadeira namorada, Clara, lhe dava o retorno). Natanael, o personagem, se apaixona perdidamente por aquela mulher-objeto, mas disto ele só veio a saber mais tarde. Olímpia era a própria imagem de Natanael, com a qual ele se apaixona. Um princípio básico da idéia de amor (narcísico) da psicanálise.

Saindo da ficção, ou pelo menos de um dos núcleos dela (a literatura), a metáfora do autômato parece sempre atual e possui certo fascínio. Quando ouvimos por aí que fulano foi levado por uma força da qual não conseguiu se furtar; ou quando ciclano diz que a sociedade controla suas ações, impedindo-o de “ser ele mesmo”; ou ainda quando, nesta época de festas, vemos os shoppings repletos de pessoas zigue-zagueando de lá para cá comprando ou trocando presentes, movidas por uma aparente força invisível (claro que os publicitários não diriam desta maneira…); ficamos com a sensação de que muita coisa funciona na base do automatismo.

Até em ciência, se considerarmos epistemologias como o Realismo, que advoga que há “mecanismos subjacentes” a diversos fenômenos vistos “a olho nu”, ficaremos com a impressão de que, mais uma vez, estamos diante da linguagem dos automata. Claro que, nas ciências (sociais, humanas, mas, obviamente, elas são as mais “fracas” nesse sentido), o propósito de pressupor autômatos é de predizer o comportamento. Como não temos acesso direto ao que produz este último, pelo menos não em termos de “crenças, desejos e razões” (pois os neurocientistas têm lá seus “truques” para decodificar o comportamento a partir do cérebro), precisamos inferir, em forma reversa a partir do que vemos (comportamento/ações), o que se passa “lá dentro” da cabeça das pessoas, ou mesmo o que se passa “lá fora” na sociedade. Neste último caso, e sobretudo na sociologia inspirada pelo Realismo, fala-se em mecanismos sociais.

Acho bastante interessante esse fascínio pelo autômato, pois, na modernidade, uma das virtudes mais defendidas é a autonomia, a possibilidade de agir por si mesmo. Ainda na Sociologia, sabemos que diversos críticos se colocaram contra essa idéia Renascentista/Iluminista: pense-se, por exemplo, em Marx, Durkheim, e num punhado de estruturalistas (já no terreno da filosofia). Sabemos, hoje, que as coisas não são assim tão cor-de-rosa no terreno da liberdade individual, e que há uma certa tensão entre o espaço de nossa iniciativa e o das outras pessoas com as quais convivemos e o das instituições pelas quais circulamos.

Mas o idéia de autômato realça o lado exatamente oposto: a fantasia, o engodo, o simulacro de auto-controle. Autômatos acreditam (e julgam conscientemente) que estão no controle. É justamente essa a essência do autômato: mover-se, falar, “performar” em todos os cenários, COMO SE fosse ele a fazê-lo, por sua própria escolha. E, mesmo que, num raio de consciência, perceba que é o próprio ponto de inflexão de forças das quais não tem controle, acaba por concluir que “é assim mesmo” e que, uma vez na luta, precisa reagir. Mas conseguiria esta reação equalizar-se com a ação dos outros/Outros sobre ele? Difícil saber, realmente difícil. Acho que, quanto mais somos indivíduos (no sentido moderno, uma unidade que se percebe/crê autônoma, livre), mais reforçamos o “tableau”, o estrado que é a vida em sociedade.

O emprego

 

El Empleo / The Employment from opusBou on Vimeo.

O curta-animação argentino acima, que recebeu nada menos que 102 prêmios internacionais (inclusive no Brasil), foi idealizado por Patricio Plaza e dirigido por Santiago ‘Bou’ Grasso. Muito interessante, nos faz pensar na relação que estabelecemos com as outras pessoas quando, no trabalho, estas se tornam objetos.

O filósofo Yves Schewartz observa que o trabalho é uma forma de “uso de si”, por si mesmo em primeira instância, mas também (ou sobretudo) pelos outros. Estes nos utilizam quando trabalhamos: utilizam nosso corpo (no curta, as pessoas são usadas em diversas formas, inclusive como tapetes!), nossa criatividade, nosso esforço, em suma, nossa subjetividade.

Esse curta me fez lembrar de uma vez quando tive uma espécie de “insight”: dei-me conta de que tudo em meu apartamento poderia ser reconvertido em horas de trabalho de seres humanos que se dedicaram a produzir a mesa, as cadeiras, o sofá onde me sento, enfim, praticamente tudo utilizado por mim dentro de minha casa! Percebi como eu estava totalmente mergulhado no trabalho de outras pessoas…

Zoom

Seguindo na lista de filmes premiados no festival de Cannes deste ano, o segundo que assisti foi Árvore da Vida, escrito e dirigido por Terrence Malick. O longa é apresentado, pela crítica, como possuindo um tom existencialista. De fato, não espere encontrar nada convencional, com temáticas facilmente associadas ao banal (no sentido de comum). Nem linearidade. Cenas sem tempo cronológico exato, entrecortadas com níveis absolutamente distintos – por exemplo, nos primeiros 30 minutos, somos levados do trauma do casal O’Brien e com a perda de um de seus filhos à criação do próprio universo, Big Bang, formação do DNA (deduzo eu), aparecimento e extinção dos dinossauros.

É justamente essa oscilação de níveis, dimensões, temporalidades, que nos leva a pensar na efemeridade da vida, na luta de todas as espécies vivas deste planeta para se manterem. A espécie é apresentada ao nível de seus indivíduos (a vida é, sempre, individual). Há uma cena (para mim) forte em que um pequeno “dinossauro”, ao ver o outro deitado na água (ferido por um predador), pisa na cabeça deste e depois segue sozinho. Não há como não se lembrar de Darwin neste momento. Ou então a cena em que vemos o que seriam (suponho) explosões no núcleo do sol, e a majestade do universo, da formação de supernovas, a presença de galáxias… E ainda o encontro de lavra de vulcões com o mar…

Ao mesmo tempo em que tais cenas do universo e de nosso planeta são mostradas, seguimos com o micro-dilema da família O’Brien. Vemos, depois, o trauma do outro filho do casal persegui-lo durante toda a vida. Durante a história toda, segue firme a sensação de incompreensão, a pergunta lançada a Deus: por quê? O livro de Jó é evocado, quando Deus pergunta: “Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? … Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam?” Como se sabe, Jó sofreu todas as provações possíveis de Deus para manter sua fé.

Gostei desse, digamos assim, “choque de perspectivas” que ele nos faz mergulhar. O efeito, no final, é uma estranha sensação de maravilhamento com a vida.


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